Bossa Velha
sábado, 7 de novembro de 2009
Crisálida
Dispersão da ingenuidade atemporal – tenho me permitido aprender com os bichos porque bichos não fazem livros. No século XVII corri atrás de uma vespa, veja bem, corri atrás do que voa. Espiei a vespa parar sobre uma folha de árvore e ficar quieta, dada como morta. Mas a experiência precisa ser continuada: depois de um século seguindo vespas, formigas e abelhas, consegui algo que não fosse perder o bicho de vista: espiei a morte. E isso é de uma intimidade tão grande que é bonito e só serve para ser esplendor. Sobre dor: a gente esquece como é doer. Sobre intimidade: intimidade, para mim, é de uma grande coragem porque eu tenho medo de romper o peito das coisas. Encontraria muito mais coragem no século XVIII, no entanto. E apenas ainda mais tarde eu voaria do que corre.
Em minutos – entrevejo docilidade que é mais como uma saudade que, coração em riste, promove aceitação e meio-olhar: se atendo sempre a uma das metades de um rosto, na dúvida de qual metade atar primeiro em si. Dom bonito este de ficar em dúvida. Queda pouca a de não amar a completude de um rosto. Que vulnerabilidade é a do rosto? A materialidade é milagre de repente. O rosto é repleto de impensável, de recortes – rosto escandaliza, olha, lambe, cheira. Eu gosto da matéria devido à minha capacidade de amar, com amor febril, a espessura dela. E olhar rostos me espanta porque é – assustadoramente – olhar o próprio reflexo um pouco distorcido.
Domingo à tarde vou ao supermercado comprar maçãs. Prefiro as nacionais às estrangeiras. Os estrangeiros fazem maçãs mais bonitas, nós fazemos maçãs mais gostosas. Um menino, ao lado da mãe que empurra um carrinho de compras, tenta ler um panfleto que fala de palhaços. Primeiramente um panfleto, chego perto dele e então é um panfleto de palhaços. O esforço é grande e o menino cria dicionário próprio. A mãe anda depressa extrato de tomate milho enlatado palmito depois as pizzas congeladas as malditas pizzas que o Ricardo come e mais leite feijão arroz farinha de trigo manteiga sal e ovos e frutas que a garotada precisa comer para crescer saudável. O menino, lendo enquanto anda, aplaca o desespero gradativo – diz cada vez mais forte “Le”, abana a cabeça, bate o pé cada vez com mais força no chão, aproxima o panfleto do rosto como se fosse um míope, diz mais uma vez “Le”, grita um “Ca” desgovernado, sente que venceu a palavra e fala miudinho levantando seu porta-estandarte de guerra – “Leleca”. O menino anda, sem tirar os olhos do papel, cada vez mais depressa para acompanhar a mãe. Adio as maçãs pelos próximos oito minutos. O menino lê “Leleca e Peteca”, a mãe não ouve. Mas o preço do feijão subiu daqui a pouco ninguém mais vai poder ter feijão em casa isso é um absurdo é um abuso depois eles reclamam quando um pai de família rouba saco de feijão para poder dar de comer aos filhos. O panfleto, além de ser de palhaços, anuncia um circo. Empalideço. É como se em mim um espelho oculto estivesse a ser descoberto – sei o minuto exato em que empalideço ou fico corada e sei como fico pálida: toda persona camuflada de breu. A vida no circo é viver boquiaberta, sempre invejei engolidores de espada. O instante torna-se atonal e eu não o compreendo, eu que sou toda clássica – o instante rompe comigo. As melhores maçãs ainda não foram feitas, as melhores maçãs estão heróicas neste instante por ainda não terem sido inventadas, por ainda não terem entrado em contato e se dado conta de sua própria adstringência. É tão natural e é tão sem medo. Choro diante das belezas que não são íntimas, que me visitam de vez em quando, que me utilizam de questão. E não sei se as utilizo de resposta, mas acho que não: eu choro é diante da coisa exposta de tão secreta.
Chegamos ao grau extremo e indomável de aceitabilidade: aceito o menino a ponto de me espantar com a sua existência. Eu e o menino. Ele se espanta com as palavras, é um designado, tem desejo rente ao corpo – o menino é intransponível e eu o vivo no aqui e agora. Só a desarmonia do aqui e agora me acolhe. Que fazer da lucidez, deste medo de ter um nome? Que fazer de ser gente? Ser gente é ser esta angústia? Como escrever um lince? No sentido de forma, o ovo ou a galinha? Borboleta chora quando sai da crisálida? Quantos mistérios há numa tarde? Quando o nome anula? Como apreender a completude das coisas? Não ser dói? Como empreender a espera livre? Quando a espera não é cobrança silenciosa? O coreto é anunciação ou iminência de vazio? E a rudeza, que fazer desse sentimento desnudo? Quando sair à rua? Como – livre de entonações – explicar a entonação de uma pergunta? Que entonação usou o Deus para criar o mundo? Qual a entonação mais terna para se dizer “faça-se a luz”? Qual dos dias da criação anoiteceu primeiro? – questionamentos urgentes de pecados capitais. De repente pensei em escritos abordando perguntas, outros escritos abordando a primeira abordagem das perguntas, um ciclo perfeito e eterno, mas escrever é de uma exigência sem nome. Escrever é irreconhecível, a própria escrita é fagulha que não cabe, guizos do que transborda, tautologia dos últimos oito minutos aglutinados em instante.
Necessito da salvação e ela precisa vir depressa. Que me entendam bem: sou alegre, saio à revelia. Liberdade eu aprendo, nasci com a alma irrefreável, minha garantia de que, sim, talvez esteja viva, caída na vida que corre solta. A minha liberdade versus a liberdade da vida entram em conflito e trata-se de um conflito que me deixa órfã. A orfandade é geradora dos meus contatos com as estridências e de meus extravios desesperados, porque é por meio de meu contato com as estridências que experimento ruínas – já eu disse isso a um homem.
Sobre o homem: algumas peles são convidativas à gravura em relevo. Outras peles são boas de sopro. As peles boas de sopro ardem fácil. As boas de gravura em relevo erguem sinuosos castelos como quem ergue a voz. O meu estado de permanente iminência tem me tirado o gosto doce da boca para guardar – a sete chaves – o gosto na memória, e é aí que, para não esquecer, escrevo numa das mãos: ter um relicário é completude, amabilidade de vazio, existência toda sendo. (E, como nunca, me parece que escrever na pele é vaidade de mulher-relicário, graça de mulher que desmorona pesada).
Em contato com o homem – há mistério nas visitações e há o inesperado. Quando chegaste com o intuito único de te esvaziar, contemplei teu desapego, te reparei minúcias e te esculpi em mármore. Não fiz os teus olhos de grandes oportunidades, de espessuras delgadas. Expliquei falando baixinho e em tom alegre que não há cegueira em ti, mas que tens o olhar desabitado. Disseste que preferias ser sombra ou a “Mulher com gravata preta”. Eu disse que não poderias ser a pintura de Modigliani porque a tua expressão era mais nebulosa e tua boca era menos pesada – uma boca que quase flutua em um rosto. E disse que não poderias ser sombra porque a sombra é uma ausência sempre menor do que a tua – independente de a sombra ser de uma planta rala ou de um arranha-céu, o importante é que o tamanho da sombra não mensura a ausência da sombra. Aí eu esqueci as retenções e soltei os cabelos. E tu me disseste que, para certas visitações, não há alento.
O homem compreende bem quando fuma cigarros com força. Posso falar com o homem quando quiser, ele parece ouvir. Em pleno cansaço de ser gente ele me deu um caderninho de desenhos. (Para mim tanto faz dizer que ele me deu ou que tu me deste). Gosto tanto da idéia de ter um caderninho de desenhos que não desenho no caderninho, ele serve para olhar – meu amor impessoal pelo vazio.
O homem é Babel desmoronando.
Se eu soubesse desenhar estaria suprida e talvez não precisasse escrever. Queria poder desenhar e dizer depois, enfeitiçada: “Só sei falar assim”.
Quando menina gostava de desenhar no escuro, fazia disso liberdade para ser. Mas não, desenhar no escuro é mistério duas vezes: dos traços incomunicados – sim, tenho consciência de que escrevi “incomunicados”, sim, é isso mesmo, quer que eu grite? Vou gritar: INCOMUNICADOS – e do escuro. Eu vivenciara o ilegível superior a uma mulher dizendo que viu Nossa Senhora. Não desenho mais por causa da mania de enfeites, por causa da mania de não me conformar com a obra concluída, de não acreditar na conclusão da obra, de buscar transpor a obra ao inviolável de ser uma obra.
O homem inspira: tu deverias colecionar desimportâncias, diz. Expira: faço poemas por pura expiração.
Em nome do desafio, não termino. Não tenho o intermédio para despedir palavra. Que intermédio é preciso para despedir ocultismo? Só paro quando estiver árida, que esse estado eu conheço e não é de grandeza difícil. Só uma terra devastada por uma bomba nuclear está livre dos acréscimos: terra fadada, século XXX.
É disto tudo que estou perto: da beleza como risco. Não falo de estética. (Coisas de peixes, palavras diminuindo em tom de segredo, algo de ficar perto do chão, uma maçã em algum lugar, é que não lembro).
No silêncio atravancado intervimos sendo.
Não termino, escamoteio.
sábado, 25 de julho de 2009
'Por una cabeza'
Curto som de s. Curto som.
(De hoje em diante, novo comprometimento – prometo só gastar do espírito quando for, além de extremamente necessário, de uma beleza também necessária: e falo da beleza feinha. Luh exige muito do espírito, consome feito uma lagarta dentro de uma fruta. Por fora, sou de um luxo intacto, parece que nasci solto na vida, que surgi de um movimento sucedido por movimentos cada vez mais amplos, astuciosos, perigosos e furiosos, que nasci trapezista. Veia trapezista coisíssima nenhuma – quando eu nasci precisei de uns tapinhas para chorar. Pela primeira vez eu não sabia como agir diante da vida em seu estado mais bruto. E isso foi tão sagrado que eu nunca mais deixaria de me comover com o estado sentimento bruto das coisas).
É preciso alagar-se para, de barquinho, fugir de si. Luh prefere alagar-se e fugir montada em mim, para nenhum sacrifício meu e total letargo de nós dois. É difícil ter uma tarde muito boa e depois voltar para o próprio nome. São também difíceis os caminhos da tarde. Eu respondia pouco. Dois homens. Um homem que sorri e ri como menino, sabe, queria rir e sorrir daquele jeito. O outro também parece menino, só que diferente – o último se importa que digam que ele é feio, por exemplo. Ah Luh tanta mácula estigmas de gravura o corpo machucado e no entanto isso tem me machucado deixado nódoa tem recriado instante brando (o que está machucado machuca em defesa?). Quando eu fico muito calmo é de sobrevida. Quando eu me machuco, o meu corpo bate forte porque o meu coração deixa de ser um mundo remoto e confessa que se acontece – o quê? - surge instantaneamente nele uma expressão bizantina. Preciso me contar e contar às observações que faço com tranqüilidade. É com tranqüilidade que encosto a minha cabeça no teu ombro, que ponho os cotovelos sobre a mesa, que perdôo a minha deselegância sempre querida, recolhida, discreta, sempre merecida. É com tranqüilidade que – desastrosamente – quero bem a minha inserção muda, as tuas mãos insepultas, ao teu ventre livre. Os alvos, Luh, vês? Parece tão nítida a delícia que somos a putaria que fazemos onde quer que estejamos já que não nos importamos com locais públicos e pessoas desconhecidas e pessoas aparentemente silenciosas e pessoas todas misturadas. A gente toda daqui mete na tua ou no teu e eu acho legal meter no teu ou na tua ou no teu e na tua. E também porque não choras, ainda que eu te deixe – nós te deixemos - para comprar laranjas ou ainda que eu me renegue a meter porque estou sem vontade ou meta mesmo quando não queres ou meta com força porque estou puto da vida ou porque sou abundante mesmo e – a ti - em ti nada cabe, além disso - universo. Luzim, o teu choro tem motivo outro: é apreensão-susto, quando nada mais pode ser dito e não podemos ficar em silêncio (para não sermos devorados?). Diria até verter em caridade, ato de gente santa e inconfessável. Disseste em frente à minha casa tem um lugar que vende peixinhos e eu sempre pensei em comprar uns peixinhos para soltar nas poças de quando chove e eu disse Luh que idéia estúpida essas poças secam não são como os rios que não secam nunca e respondeste que sim as poças secam e que soltar uns peixinhos lá seria motivo para não querer que as poças secassem e que se houvessem sete peixinhos sete seriam os motivos para que a poça não secasse nunca porque os peixinhos teriam filhinhos e os filhinhos também iriam querer ter filhinhos e todo filhinho teria outro filhinho já que não há nada mais para um peixinho fazer numa poça que não sejam filhinhos e também nadar porque um peixinho e um peixão e um peixe médio sempre nadam. E que nós também nadamos, porque nós ficamos sempre com nada e não sem nada, então nadamos, ficamos desequilibrados e talvez pensando em algo como peixinhos ou poças ou pensando em nada mesmo, que é literalmente nadar.
Luh, os teus amigos da paróquia, lembras? Um Augusto pequeno e um Arturo maiorzinho, meio surdo. E também aqueles outros que não me lembro o nome, meio inexplicáveis. Eu escutava as tuas músicas na pura interpretação do Carlos Gardel e tu sempre ficavas em desencontro, inocente comigo, recém-amanhecida, boquiaberta e obscena. Aí chegou o dia em que me revelaste o segredo, tu me pediste por favor não escuta mais o Carlos Gardel esse disco é só para ter sem que a gente compartilhe dele entende? Augusto pequeno a Arturo maiorzinho também os outros meninos da paróquia todos eles fugiam à noite em brasa a boca úmida os olhos escandalizados e todos eles comiam-se atrás da paróquia adoravam o perigo e os sangues adoravam cantar como Gardel enquanto se violentavam adoravam por una cabeza porque tudo eles faziam por una cabeza dentro do cu e riam-se sacanas e mordiam-se e escondidos colocavam adereços no corpo todos eles de moças e comiam-se com adereços também por una cabeza atrás da outra por una cabeza pressentindo a cabeça seguinte por una cabeza todas las locuras. Eu disse mas Sus ojos se cerraron é coisa linda essa posso ouvir não posso Luh? Essa é pura "El día que me quieras" e acho tão lindo fico tão às quedas comigo pareço bonito pareço outro que não o meu corpo de migalha meu corpo de desejos leves de invasões rompantes meu corpo salto cru explícito atirado vivo último violento quieto terreno duro meu corpo de tantos inexplicáveis corpos. Sou afável Luh embora eu odeie mais do que ame prometo eu não preciso de muita coisa sei ficar quieto contigo e sei escolher laranjas e sei ser vertical. Sempre se fala no horizonte não é? Não se fala no vertiquê em contemplar o vertiquê em seguir o vertiquê pois quando um homem olha para cima e para baixo e não para frente e para trás não há mais salvação para ele e nem horizonte preciso. Eu sou o homem que conhece a salvação diferente que sabe que escutar Gardel é como ter um pacto de não querer salvar-se porque no lugar em que estaremos a salvo não escutaremos mais o Gardel e nem escolheremos laranjas e nem iremos meter porque estaremos muito ocupados com as coisas do espírito de elevação do espírito de elevação do ser humano do suprassumo da puta que o pariu. Há na tua língua o meu silêncio?
Há no teu silêncio o meu recolhimento? Desenho-te carneiros. És de livro. Desenho-te quantos carneiros quiseres. Carneiros sobre as tuas pernas, carneiros escondendo as tuas veias salientes no braço branco, na tua pele alva, carneiros no que não toco de ti porque a tua grandeza existe, é o que me guarnece e também a tua pequenez de espírito salva: o que há de maior em ti – tua pequenez clara, ser pequena é de uma grande cumplicidade, apenas. (Ficas lenta, te comportas como se comportasse corpo outro, suporta como se de pele falsa, como se de outros poros, esses mais sufocados do que os verdadeiros e anteriores). Eu por exemplo, Luh, desenho carneiros unicamente para não sucumbir. Sucumbir esvazia os curtos espaços de duração e nos deixa com a vida inteira. Inteira é que tu te tens, em instantes é que te perdes. Perdes por desprendimento, por causa desta tua alma que não sabe precisar. Precisar de ti é feito furar os olhos – há espaço, mas por meio dele não vemos. Vemos sem que por entre brechas, vemos por meio da cavidade. Cavidade sou eu meio só comigo e meio com medo de me saber sempre meio só comigo. Comigo invento excessos disformes, invasões contínuas, o que sempre esperei da palavra crucial, as quedas. A palavra crucial não pode ser dita, escrita, ouvida, sussurrada, vivida, continuada, externada, qualquer palavra que complete palavra – quer dizer, só pode ser crucialmente silêncio. E silêncio de dentro. É de silêncio toda provação assustada: a minha solidão é tão silenciosa e diferente da tua, que estar com a minha solidão é feito não estar e é, por isso mesmo, solidão arriscadíssima, memento mori.
Volúpia do não-dizer, Luh, estar sempre diante do nó e sendo o nó, isso de tentar tornar voz, de criar as entonações mais diversas, de dizer o que naturalmente não se diz e parece mais arrancado do que dito, e menos dito, parece que se sofre, que não é feito para dizer, impreciso, que é feito só para ser susto. Tanta coisa vem me ardendo, Luh, nem sabes. Mesmo os movimentos alheios, parecem tropeços em mim (à medida que o meu reconhecimento vai surgindo talvez pela queda, talvez pelo modo desajeitado de levantar?). Lembras-te da OQUIDÃO das tuas criações, do teu vôo primeiro, da tua ausência perdida que era o teu despertar provocado, e sempre que algo provocava o teu despertar, abrias os olhos com força - como faz um sonâmbulo que acorda com um copo que cai, com os dedos frios da mãe – e os teus olhos abertos estavam diante das apropriações que as coisas faziam de ti, e eu gostava de ver, sabe, gostava de me colocar escandalizado e de te buscar nas coisas que eu via.
Tenho sido muitos nos últimos meses, todo de grandezas múltiplas, aceitando a tua loucura. “Aceitando” não, porque quando nós pensamos em rebelião, a nossa rebeldia cresce, a não-aceitação cresce, mas na verdade sabemos que não nos resta mais nada a fazer e ficamos quietos, aceitando. Sempre reconheci uma pessoa que aceita pelo nível de reclamações feitas – quanto mais o sujeito resmunga, mais aceita. Então prefiro dizer que tenho convivido de modo insuspeitado.
Livrando-me da Luh para ser sossego: no princípio nós até que temos certo medo pavor receio de ficar a sós com a Luh, mas depois vamos nos acostumando tanto que o mistério torna-se uma falta excruciante – a maior desvantagem de ser mulherzinha misteriosa é esta: que cansa. Como tudo na vida.
terça-feira, 28 de abril de 2009
De metal
Que anseio de escrever coisas lindas: a casa toda quieta. Saber acomodar a visão mesmo que quietinha de corredor vazio. Com certa disposição, escreveria nas paredes para não ver desvanecer. Eu que escrevo nos guardanapos porque são dobráveis. “Todas as coisas são de ninguém”, disseste. Sempre linda e com olheiras, expressão levemente embriagada, mãos muito finas, mãos de morto. E também muito feia quando sorrindo – o rosto desconfigura-se e os olhos ficam perdidos na expressão imensa de. De quê? De muitos machucados, talvez. Os teus pensamentos em altos e agudos, as bonitezas do Modigliani que são os meus prazeres mais ilegíveis. É disto tudo que estou perto: da beleza como risco. No dia em que achar de uma beleza tremenda o que escrevo, não precisarei mais escrever. Preciso sentir vergonha por achar pavoroso – sem a real sensação, posso dizer algo lindo sem que tenha a surpresa provocada por minha mais profunda natureza. É preciso me odiar, digo. Um ódio pouco e intolerável que dá até vontade de sumir junto do que foi dito só pelo prazer de odiar por uma eternidade que nunca é. As pessoas, que são as pessoas? Caras estáticas no silêncio das alcovas. É isso sim. A insatisfação faz com que eu aceite a vida sem oferecer nada em troco. Existir é todo por acaso (mentira). Ah, sempre digo alguma coisa quando na verdade nunca pensei na coisa – por algum efeito de causa, fui levado a dizer, e acho isso um espanto. Deponho contra mim. Espanto: que exultação é essa do silêncio? Criar palavras: para fazer não caber. Silenciar: calar, só que complacente. Calar: ter noção dos inícios, cumplicidade desafiadora. No silêncio atravancado intervimos sendo.
Eu pensava que não fazia imitações, mímicas, por causa da tolice disto. Descobri o contrário: na verdade eu não imito pois a grandeza não me cabe. Sou reduzido às necessidades: um gato é um gato sem que eu precise dizer “miau” ou imitar como se espreguiça um gato. E o meu corpo é muito rígido para imitar as continuidades que não são necessárias. Sempre contemplo de longe. Trago enquanto percebo a tua imitação, procuro o isqueiro na hora de dizer “é isto!”, porque sempre sorris com “é isto!”, e “é isto!”, exige uma preparação absurda para que eu também não me espante com o teu espanto inédito. Algo brinca contigo e fazes cara de quem descobre. Ou és tu quem brinca e tenho medo. Fico desconfortável devido à invasão. Aí saio, penso nos inícios, no recomeço, vou à rua, a revelia toda linda, ponho as mãos nos bolsos ou não ponho, penso em não voltar, brinco de contornar objetos com as mãos, faço amizades com moças para me livrar da tua expressão recorrente. Tu imitas as crianças no jardim, uma dança de gente louca no chuveiro – sempre improvisando com as mãos, uma montanha tão alta que não tem fim, ensaios das profundidades, das superfícies mais rasas aos ventos mais fortes. (Somos nós ou sou eu o urdido a fios grossos de metal?). Imitaste Clair de Lune, disseste “adivinha!”, dançaste ornada como as grandes mulheres e não fizeste mais nada. É exatamente aí que te deixo para não apagar o meu cigarro nos teus olhos.
sábado, 4 de abril de 2009
Frida, que sentimento-coisa sem nome-coisa!
sábado, 28 de fevereiro de 2009
Tens-me
: tu és uma piscina, a piscina que vejo; a piscina é bonita e a água balança com o vento, fazendo umas ondinhas. Tudo dá muito gosto. É aí que penso que te preciso. Preparo-me, fico louco de vontade, entro na piscina e ela é rasa. Perco a compostura: ela não bate no meu nariz, na minha barriga ou no meu peito - no máximo alcança o início das minhas coxas. És rasa. Fico desolado, não te cumpro. Encolho-me se quiser contato: para morrer afogado preciso do meu autocontrole, não de tua profundidade. Tu és rasa, mulher.
: tu que és gigante, não cabes em mim. Às vezes penso na profundidade cobrindo o teu corpo e me sinto tão perdida que desisto – rompo com a minha espécie, abandono o bando.
: não falo do corpo.
: o teu corpo é tudo o que vejo de ti. Se morreres, não é tua alma que vejo - verei o que não és mais: teu corpo.
: não sabes nada, enganas.
: não, convido. Achas que atraio e sou desvirtuada, quando só convido. A água te confere e eu não te reprimo dos contatos. Se preferires o afogamento, recomendo o suicídio. Me amas como a suicida ama sua vida: em desespero.
: não te amo.
: vou contar um segredo:
: prefiro que não. :
: exerço cada tarefa que não entendo, enquanto ajo com muita brutalidade. É de minha defesa querer amar tanto o meu peito vazio. Quero a capacidade de amar o meu peito vazio, pois preciso tanto. Ages como peixe fora d’água e é isso o que mais admiro em ti: eu estou dentro, meu bem, eu sou peixe no habitat natural e isso é muito escandaloso, é de correr riscos. Existem os peixes maiores e eu sou pouca. Não é piscina o que vejo: é maré mansa, mas em alguma parte me precipito para reter a paz. É isso mesmo, não quis dizer outra coisa. Não queria ser tão repetitiva, mas não entendes nunca. Nem entendes e nem morres. A adaptação é um perigo. Você espera que eu aja como uma sereia agiria, e eu ajo como uma sereia agiria sem entender nada.
: “preferia não saber, porque agora amo e me contraria: segredos dão margens. E sabendo disso, não me resta senão num passo romper esse confortável espelho laminar, suspenso; ir ao centro de ti, pesando menos, e trazendo comigo as tuas bordas - pra me cobrir com elas até que sobre o pedaço de céu para a constelação precisa. De piscina vira o poço que me abraça, ultrapassa-me de água os ouvidos e divido contigo, naquele instante sem ar e de um silêncio calmo e defitivo, meu devaneio com olhos cheios d’água. Nele ouço do meu peito meu último e agora vão conselho: preocupa-te menos com a extensão, e mais com a profundidade.”
: pois acho que há muito não ouvia algo tão bonito, embora pareça injusto. Achas que só os segredos dão margens? Tens a doçura burra das crianças.
: a tua voz me assusta, vou desabotoando para sê-la inteira – eis que desfaço as demoras das tuas vírgulas para que chegues logo no ponto.
: precisas esperar sem esperar alento. É muito revelador saber que és fácil de ser deixado: uma vez saindo por aquela porta, nunca mais sentirei saudade.
: é por isso que tu não vais: ambos temos um motivo-comum: sair para nunca mais. Como encerrar a possibilidade?
: veja a tua pergunta, ela é doce, mas não deixa de ser burra. Queres um filho? Queres um filho. Ele terá os teus olhos, a tua boca, tua face isenta de quem pergunta. A mesma brandura nas interrogações. Eu não posso ter filho teu porque o odiaria, não suportaria que fosse tão parecido contigo, que me quisesse apenas para melancolia contemplada de homem ferido. E iria protegê-lo. Por algum acaso iria protegê-lo e dizer isso soa grave – sabes que não falo muito de dentro, quando falo, há um enorme segredo. Mas peço que contes a uma de suas amantes, a todas elas se quiseres, estou nas pontas para que elas fiquem no centro, o barco vira e eu vou primeiro, podes até passar a noite fora com uma delas, mas o filho, queres de mim, queres que ele tenha meus dedos compridos, que tenha minha mania de dar nome as coisas e que, no breu, olhe o breu como eu olharia. E até a expressão triste e funda que tenho enquanto durmo. Tu queres o meu relance no filho, não as feições. As feições serão tuas, mas no escuro, no toque dos dedos longos, quando ele vir um besouro e estiveres apressado, quando o puxares pela mão para que venha logo, quando o olhar depressa para repreendê-lo, chamará a mim.
: não
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
Cervical é tão Perfumável
Dia desses ouvi que sou muito para fora: é sempre como se algum órgão afrouxasse para fora do corpo, através da cavidade na cervical que é de nascente antiguíssima e ficasse na superfície dele mesmo, observando, pulsando, como o outro órgão que toca no enterro de uma criança: tudo sem muita estridência, uma delicadeza mais justificada pela morte do que pelas patas de formiga ou pelas formigas caminhando na superfície de alguma coisa, do que pelos contatos. Ouvi assim:
- Lalisa, você é muito para fora...
E, desde então, venho pensando nisso por falta do que pensar, um pouco. Penso nas coisas inteiras, sem transpor, atar, inquirir. Apenas amparo os meus personagens antes que eles se transformem em esperança e nasçam e saiam de mim pela coluna cervical e brotem me deixando rodeada de flores como em velório em jardim em cantos de vida nas retenções das aberturas. Tudo é relicário. Algumas aberturas são nascimentos. Outras indicam relutâncias futuras e futuros incidentes. Cerzir todas as partes de mim para que nada nasça de insuspeitado – essa é uma de minhas ocupações –, a oração servindo de linha e meu corpo servindo de parte ornamentada à espreita, beleza de graça por medo, trocozinho completo de incongruências, qualquer surpresa veio de dentro. Tudo é “alguma coisa acontece no meu coração”. Tudo é “completa tradução”. E tudo isso evoca o que guarnece algo em si já insuspeitado, quê-sem-nome como o universo, pois se precisa ser tanto tanto tanto mulher delgada para fugir dos inícios de alguma coisa sempre impossível. Tentei escrever uma carta, mas o que ficou impresso nela foram traçados ilegíveis. Tudo o que digo dorme e por isso aqui se fala baixo; não se acorda o rei quando se é servo. Não se acorda o rei quando não se é o rei. De qualquer forma, sussurrando, eu queria escrever mais solto porque a escrita da carta é engrolada feito macarrão quando pende para o erro. Assim, eu serei sempre acusada de estar além-mim, e o meu escudo, todo feito de palavras, irá ruir em formato de caracol. Ia escrever um despregar de mãos, coisa suave à toa, mas me ocorreu o perigo de despertar o adormecido e o perigo de não saber escrever despregar de mãos. Como se escreve despregar de mãos? E de corpos? E das coisas que na superfície foram grudadas? Com macarrão grudado, não há chance, acho melhor enfiar a cara no prato e não tirar mais os olhos dali – os olhos pousam e parecem fechados, se não fosse pelo movimento da boca e do corpo, seria jurado o sono. Quando a gente dorme, escreve para dentro. As coisas permanecem ali, sem que essas saiam pela cervical ou se tornem sementes. O único intuito é permanecer mesmo, sem tocar, o intuito é saber-se sobrenatural e muito doidinho, como tudo que é friável. Se fosse ontem, eu diria assim: “olha cara me deixaste na corda bamba não tenho equilíbrio mas de provocação declarada deverias ir à outra extremidade da corda deverias agitar a corda para que eu caísse de uma vez porque odeio esse espaço morno na abertura entre mim e ti.” Cair é quente e envolve equilíbrio de coisa caída. Equilibrar-se exige alguma outra coisa menos equilíbrio e mais permanecer. Tudo é muito distante porque sou eu a separação, a lonjura da distância sempre cheia das inundações vindas de mim, de alguma de minhas partes; eu que tenho tantas partes que desconheço os nomes, as origens, as nascentes, as existências. Sei que são tantas e isto basta – não saber quantas, ao certo, me faz desconhecedora daquilo que habito, embora saiba que habito e isto seja um pouco indigno por causa do labirinto existente onde também não sei, pois tudo me parece caminho e esforço. (é preciso arranhar, passar a unha forte, é preciso dar a consistência para que só assim o momento tenha tanta realidade, mas tanta realidade, que até parece existir, já denso de tão improvável). Tenho diversos foras, podendo ser da alma, do corpo, de ambos, fora de cada espessura, como no solo, que sempre leva a algum lugar. Cada fora leva a um lugar talvez mais fora, talvez um pouco mais de dentro. E existe um fora que não leva a mais nada. É o fora mais externo de todos os foras, e é lá que eu estou segundo o homem. Segundo o homem, estou no mais fora de mim. Se for mesmo assim, suspeito que esteja sempre espionando outras espessuras. Não sei por qual constância ele define ser e estar. E não avalio seus métodos – aproveito para me espiar através de um buraco um milhão de vez menor do que uma fechadura. Não preciso de muito espaço para intuir alguma parte minha: imagino, e se imagino coisa diferente, imagino o certo, posto que o espaço é meu e se torna o que eu quiser, automaticamente. Nesse lugar, encharca-se fácil: qualquer ruído é música, uma casa faz parte das grandes obras, fazer silêncio é estar sozinho duplamente ou triplamente, dependendo das aparições. Sou cheia de mitos e mais umas verdades; o Minotauro faz parte de uma de minhas verdades, faz de mim morada sem gratidão e, por vezes, me deixa árida. O resto faz parte dos mitos porque não tem outro jeito. Um dos mitos: o resto saberá quando tu partires. Esse mito foi construído e está inserido nas pequenas obras dos pequenos homens, de pouca fé. Sinto-te partindo pela madrugada que é de noite enviesada. Eu notaria a tua ausência, mas ela aconteceria bem baixinha, para não acordar. Sob leve disfarce eu notaria tua ausência ficando mais profunda como olheira ao amanhecer. Aí eu sentiria muito medo, sabes. E quando sinto medo, fico tão oca de tudo, sem nada de interioridades. Pareço até zen. Ora, vamos fazer uma caminhada – andar horas a fio – sem transformar em manuscrito as folhas e os passos. Vamos fazer resumos de nada, de não-tempo, fazer resumos do contra fluxo. Vamos pintar faixas para depois jogá-las fora, construindo para desconstruir depois. Vamos ao acaso da Desimportância, meu amor, vamos bem. Quase leves. Quase testemunhos. Podemos não dançar só para ter o prazer da dança depois. Quase mobílias, tu cheio de vestígios pela casa que desconstruiremos tijolo por tijolo, para que só reste o teto sob os nossos pés, caído em equilíbrio. Ah, meu amor, a cervical é tão Perfumável que talvez nem seja.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
Aquém
1: uma forma de evidenciar meus contatos com o mundo
2: imagem recorrente sempre que falo dos inícios, dos contatos, dos atritos, do nebuloso, dos biguás
3: o que és
4: quando me faltam nomes, és a falta
5: no meu sono cabem muitos cochilos e alguns despertares. No teu sono, caibo eu, ao teu lado
6: quando tenho os nomes, és a falta
7: quando andamos distraídos, falando aos nossos celulares, queremos mostrar a verdade deles
8: olhos de comboio, chuva nas terras, sombra de nuvens, promessa
9: improvisos de recolhimento e sombra e o som da queda do fruto na terra, porque ninguém lhe observou sutilmente a ponto de perceber
10: o que em mim, não entende, percebe e finge de morto, atraindo o silêncio
11: carregar números de significados, para que seja uníssono tu e teu íntimo, o primeiro sendo palavra.
O número não ampara, não revela, envolve: senti. Sem ordens, sem seqüência, tudo só atropelo. O surrealismo de Delvaux me atropela porque me sinto livre das razões. Toco o que são (quando livre de razões), os contornos que são sem os números. Sem o um ao onze, 1 ao 11. Sem a variação entre entender e contemplar. Estou aquém, aquém é meu nicho, meu segredo, o que só entende o pressentir, não como opção, mas como verdade, como gramatura, peso, medidinha onde há amor.