Acho muito trepidante, as formas do espírito, as moradas; penso que contemplar é mais do que contato: é contato intumescido, é dar algum pertencimento ao que por orientação de si, de não-sei-o-que-represento-agora-ou-desde-sempre está envolvido no espaço de coisa contemplada. Contemplar é recolher um pouco da morada, como o sussurro capta um tanto de voz: sussurro sim, porque compreende na força com paciência, esperar até que o golpe aconteça para que o golpe aconteça livre do ato e pesado na palavra mais antiga. Distender apenas em palavras, pequenos exercícios, abandonar à beira. O ato permanece entre o instante da palavra e o instante que se perde; fosse só o ato, haveria a sensação de estar sempre atravessando sem que por meio das palavras, dos sensos. Um minuto de esquecimento, por exemplo, pode render tantas coisas que não cabem nos símbolos e nem em minha memória e nem em nada e nem nas coisas que não me ocorrem agora (não quero esquecer alguma coisa grande que não foi iniciada, e nisso consiste o...), hoje toquei uma lâmina, sempre achei ter reparado na posição da lâmina, sempre soube, mas por um minuto distraído ou sem palavras e só de ato, passei o polegar na direção contrária. Ardeu muito e fui levada a pensar que dentro dessa ardência cabe o meu polegar. E uns biguás também, e tantas outras coisas. Dentro do meu polegar deve caber o nome de cada coisa, deve caber o que eu quiser, cada evento; alguns eventos até me encabulam por serem tão pequenos que me devolvem de eco – a percepção de alguma coisa que, quase imperceptível, acontece. Ah, como é angustiante ter a própria voz na resposta. Acho que isso é coisa muito longa, para a minha pessoa curta, ou muito boa, para eu que sou ruim, ou muito forte, para eu que não compreendo. Ou não é, para eu que sou. Em um momento guarnecido, sem proferir, listei sem palavras aquilo que és nos números de algumas nomeações:
1: uma forma de evidenciar meus contatos com o mundo
2: imagem recorrente sempre que falo dos inícios, dos contatos, dos atritos, do nebuloso, dos biguás
3: o que és
4: quando me faltam nomes, és a falta
5: no meu sono cabem muitos cochilos e alguns despertares. No teu sono, caibo eu, ao teu lado
6: quando tenho os nomes, és a falta
7: quando andamos distraídos, falando aos nossos celulares, queremos mostrar a verdade deles
8: olhos de comboio, chuva nas terras, sombra de nuvens, promessa
9: improvisos de recolhimento e sombra e o som da queda do fruto na terra, porque ninguém lhe observou sutilmente a ponto de perceber
10: o que em mim, não entende, percebe e finge de morto, atraindo o silêncio
11: carregar números de significados, para que seja uníssono tu e teu íntimo, o primeiro sendo palavra.
O número não ampara, não revela, envolve: senti. Sem ordens, sem seqüência, tudo só atropelo. O surrealismo de Delvaux me atropela porque me sinto livre das razões. Toco o que são (quando livre de razões), os contornos que são sem os números. Sem o um ao onze, 1 ao 11. Sem a variação entre entender e contemplar. Estou aquém, aquém é meu nicho, meu segredo, o que só entende o pressentir, não como opção, mas como verdade, como gramatura, peso, medidinha onde há amor.
12 comentários:
adorei.
Nossa.. me arrepiei. Me lembrou os efeitos da ayahuasca, como eles falam lá..."a burracheira"
Só minha voz como resposta, a um corpo que não aguentava ouvir...
Muito bom texto.
Obrigado por visitar-me.
5: no meu sono cabem muitos cochilos e alguns despertares. No teu sono, caibo eu, ao teu lado
resumo perfeito do que é tudo!
:*
A imagem que você cria de guardar eventos nos polegares, ou passagens como:
4: quando me faltam nomes, és a falta
5: no meu sono cabem muitos cochilos e alguns despertares. No teu sono, caibo eu, ao teu lado
6: quando tenho os nomes, és a falta
Enganam-me enquanto leio (entendendo, como os gregos, enganar como a qualidade fundamental da poesia), e depois da catarse, quando olho em volta e percebo o blog, e percebo que não fui eu quem escreveu, faço do meu espanto admiração!
Meu voto de "bem-vinda às letras" vem acompanhado de duas recomendações gerais, pra sobreviver à vida quadrada universitária:
- dobre o curso pra te receber, e não o contrário - se você puder deixar algo de si lá, ótimo;
- não o deixe atrapalhar seus estudos.
Mergulho em água profunda.
Mergulho além do tempo.
Sereia que escreve com dor...e serenidade além da dor,essa já está fixada e esquecida no inconsciente.
Lindo!
te visitando, moça.
beijo na alma
porque nem os números tem início
o contato acontece guardando qualquer coisa de impossível
muito bons seus textos, bossa velha nova
Quando livre das razões, podemos ser sempre mais alguém, e além de todos eles.
Olha, gostei de ir mais longe. A vista fica bem bonita aqui do alto.
imobilidade do acaso,(des)razões, tudo seguindo como consequência de todos os movimentos involuntários.
Maluzinha, vc sabe. Amo sua forma de escrever. Um dom, dádiva. Repousei por um bom tempo aqui em seu blog, foi bom que só. :)
Uma beijocona no coração.
Maluuuuuuuuuuuuu,
vc conseguiu pintar em belas imagens e letras muitas das minhas desconfianças, assim, pré-concebidas, pré-maturas, porque suspeitadas nas ondas da contemplação intuitiva.
Você já leu "Acerca da verdade e da mentira", do Nietzsche? Ele acredita que só tocamos a verdade com olhos líricos, livres do percrutamento lógico e racional. E seu texto isso: uma avalanche de verdade bruta, sem a limagem da racionalidade tolhedora.
Só louvores pra esse seu talento!
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