A minha escrita é das alturas. Menor propósito: nem queria palavra. Os afastamentos me põem na criação do mundo – não desejo criar, o que desejo é vagueza maior, o nome não satisfaz nem o meu desejo e nem o nome. De aparência fico com o significado do que já existe - olhos de lince - o negócio é não significar, não aparentar, entende? Acho importante falar do tempo. Vento sem que se diga vento nós deixamos mesmo que vente que faça tempo bom e sem nome. (Nós somos sem prenúncios). Esfomeado sem que se diga fome. Pior, sem que se diga comida – desnomear e comer sendo a própria boceta o prato vazio que se apresenta desmanchando na boca. Comemos cheiro, entende? Lambemos prato, comemos madeira, cheiramos reboco, cutucamos reboco e ele cai. Para a Luh: louca. A Luh rememora desnomeando os fatos da gente: parece até que vamos derretendo, surgindo líquido fluido tudo muito gozo, dá até para sublimar. Luh desenha manto, segue todos os passos e procedimentos da criação inteira: Luh desenha costura veste manto porque é inefável arrancá-lo posteriormente e parece até que a alma é que foi arrancada, toda morrendo. Luh desenha arranques, efetua-os, suporta força, dói com sangue e nem grita – morde manto. É muito íntima do tocar no mundo, de uma sensibilidade voraz além-mar, super boba, de uma bobeira supersônica. A posição, nós variamos: confortável é o novíssimo, dá para refletir nas variações: v a r i a m o s, e depois va ri amo amo amo amo ssss.
Curto som de s. Curto som.
(De hoje em diante, novo comprometimento – prometo só gastar do espírito quando for, além de extremamente necessário, de uma beleza também necessária: e falo da beleza feinha. Luh exige muito do espírito, consome feito uma lagarta dentro de uma fruta. Por fora, sou de um luxo intacto, parece que nasci solto na vida, que surgi de um movimento sucedido por movimentos cada vez mais amplos, astuciosos, perigosos e furiosos, que nasci trapezista. Veia trapezista coisíssima nenhuma – quando eu nasci precisei de uns tapinhas para chorar. Pela primeira vez eu não sabia como agir diante da vida em seu estado mais bruto. E isso foi tão sagrado que eu nunca mais deixaria de me comover com o estado sentimento bruto das coisas).
É preciso alagar-se para, de barquinho, fugir de si. Luh prefere alagar-se e fugir montada em mim, para nenhum sacrifício meu e total letargo de nós dois. É difícil ter uma tarde muito boa e depois voltar para o próprio nome. São também difíceis os caminhos da tarde. Eu respondia pouco. Dois homens. Um homem que sorri e ri como menino, sabe, queria rir e sorrir daquele jeito. O outro também parece menino, só que diferente – o último se importa que digam que ele é feio, por exemplo. Ah Luh tanta mácula estigmas de gravura o corpo machucado e no entanto isso tem me machucado deixado nódoa tem recriado instante brando (o que está machucado machuca em defesa?). Quando eu fico muito calmo é de sobrevida. Quando eu me machuco, o meu corpo bate forte porque o meu coração deixa de ser um mundo remoto e confessa que se acontece – o quê? - surge instantaneamente nele uma expressão bizantina. Preciso me contar e contar às observações que faço com tranqüilidade. É com tranqüilidade que encosto a minha cabeça no teu ombro, que ponho os cotovelos sobre a mesa, que perdôo a minha deselegância sempre querida, recolhida, discreta, sempre merecida. É com tranqüilidade que – desastrosamente – quero bem a minha inserção muda, as tuas mãos insepultas, ao teu ventre livre. Os alvos, Luh, vês? Parece tão nítida a delícia que somos a putaria que fazemos onde quer que estejamos já que não nos importamos com locais públicos e pessoas desconhecidas e pessoas aparentemente silenciosas e pessoas todas misturadas. A gente toda daqui mete na tua ou no teu e eu acho legal meter no teu ou na tua ou no teu e na tua. E também porque não choras, ainda que eu te deixe – nós te deixemos - para comprar laranjas ou ainda que eu me renegue a meter porque estou sem vontade ou meta mesmo quando não queres ou meta com força porque estou puto da vida ou porque sou abundante mesmo e – a ti - em ti nada cabe, além disso - universo. Luzim, o teu choro tem motivo outro: é apreensão-susto, quando nada mais pode ser dito e não podemos ficar em silêncio (para não sermos devorados?). Diria até verter em caridade, ato de gente santa e inconfessável. Disseste em frente à minha casa tem um lugar que vende peixinhos e eu sempre pensei em comprar uns peixinhos para soltar nas poças de quando chove e eu disse Luh que idéia estúpida essas poças secam não são como os rios que não secam nunca e respondeste que sim as poças secam e que soltar uns peixinhos lá seria motivo para não querer que as poças secassem e que se houvessem sete peixinhos sete seriam os motivos para que a poça não secasse nunca porque os peixinhos teriam filhinhos e os filhinhos também iriam querer ter filhinhos e todo filhinho teria outro filhinho já que não há nada mais para um peixinho fazer numa poça que não sejam filhinhos e também nadar porque um peixinho e um peixão e um peixe médio sempre nadam. E que nós também nadamos, porque nós ficamos sempre com nada e não sem nada, então nadamos, ficamos desequilibrados e talvez pensando em algo como peixinhos ou poças ou pensando em nada mesmo, que é literalmente nadar.
Luh, os teus amigos da paróquia, lembras? Um Augusto pequeno e um Arturo maiorzinho, meio surdo. E também aqueles outros que não me lembro o nome, meio inexplicáveis. Eu escutava as tuas músicas na pura interpretação do Carlos Gardel e tu sempre ficavas em desencontro, inocente comigo, recém-amanhecida, boquiaberta e obscena. Aí chegou o dia em que me revelaste o segredo, tu me pediste por favor não escuta mais o Carlos Gardel esse disco é só para ter sem que a gente compartilhe dele entende? Augusto pequeno a Arturo maiorzinho também os outros meninos da paróquia todos eles fugiam à noite em brasa a boca úmida os olhos escandalizados e todos eles comiam-se atrás da paróquia adoravam o perigo e os sangues adoravam cantar como Gardel enquanto se violentavam adoravam por una cabeza porque tudo eles faziam por una cabeza dentro do cu e riam-se sacanas e mordiam-se e escondidos colocavam adereços no corpo todos eles de moças e comiam-se com adereços também por una cabeza atrás da outra por una cabeza pressentindo a cabeça seguinte por una cabeza todas las locuras. Eu disse mas Sus ojos se cerraron é coisa linda essa posso ouvir não posso Luh? Essa é pura "El día que me quieras" e acho tão lindo fico tão às quedas comigo pareço bonito pareço outro que não o meu corpo de migalha meu corpo de desejos leves de invasões rompantes meu corpo salto cru explícito atirado vivo último violento quieto terreno duro meu corpo de tantos inexplicáveis corpos. Sou afável Luh embora eu odeie mais do que ame prometo eu não preciso de muita coisa sei ficar quieto contigo e sei escolher laranjas e sei ser vertical. Sempre se fala no horizonte não é? Não se fala no vertiquê em contemplar o vertiquê em seguir o vertiquê pois quando um homem olha para cima e para baixo e não para frente e para trás não há mais salvação para ele e nem horizonte preciso. Eu sou o homem que conhece a salvação diferente que sabe que escutar Gardel é como ter um pacto de não querer salvar-se porque no lugar em que estaremos a salvo não escutaremos mais o Gardel e nem escolheremos laranjas e nem iremos meter porque estaremos muito ocupados com as coisas do espírito de elevação do espírito de elevação do ser humano do suprassumo da puta que o pariu. Há na tua língua o meu silêncio?
Há no teu silêncio o meu recolhimento? Desenho-te carneiros. És de livro. Desenho-te quantos carneiros quiseres. Carneiros sobre as tuas pernas, carneiros escondendo as tuas veias salientes no braço branco, na tua pele alva, carneiros no que não toco de ti porque a tua grandeza existe, é o que me guarnece e também a tua pequenez de espírito salva: o que há de maior em ti – tua pequenez clara, ser pequena é de uma grande cumplicidade, apenas. (Ficas lenta, te comportas como se comportasse corpo outro, suporta como se de pele falsa, como se de outros poros, esses mais sufocados do que os verdadeiros e anteriores). Eu por exemplo, Luh, desenho carneiros unicamente para não sucumbir. Sucumbir esvazia os curtos espaços de duração e nos deixa com a vida inteira. Inteira é que tu te tens, em instantes é que te perdes. Perdes por desprendimento, por causa desta tua alma que não sabe precisar. Precisar de ti é feito furar os olhos – há espaço, mas por meio dele não vemos. Vemos sem que por entre brechas, vemos por meio da cavidade. Cavidade sou eu meio só comigo e meio com medo de me saber sempre meio só comigo. Comigo invento excessos disformes, invasões contínuas, o que sempre esperei da palavra crucial, as quedas. A palavra crucial não pode ser dita, escrita, ouvida, sussurrada, vivida, continuada, externada, qualquer palavra que complete palavra – quer dizer, só pode ser crucialmente silêncio. E silêncio de dentro. É de silêncio toda provação assustada: a minha solidão é tão silenciosa e diferente da tua, que estar com a minha solidão é feito não estar e é, por isso mesmo, solidão arriscadíssima, memento mori.
Volúpia do não-dizer, Luh, estar sempre diante do nó e sendo o nó, isso de tentar tornar voz, de criar as entonações mais diversas, de dizer o que naturalmente não se diz e parece mais arrancado do que dito, e menos dito, parece que se sofre, que não é feito para dizer, impreciso, que é feito só para ser susto. Tanta coisa vem me ardendo, Luh, nem sabes. Mesmo os movimentos alheios, parecem tropeços em mim (à medida que o meu reconhecimento vai surgindo talvez pela queda, talvez pelo modo desajeitado de levantar?). Lembras-te da OQUIDÃO das tuas criações, do teu vôo primeiro, da tua ausência perdida que era o teu despertar provocado, e sempre que algo provocava o teu despertar, abrias os olhos com força - como faz um sonâmbulo que acorda com um copo que cai, com os dedos frios da mãe – e os teus olhos abertos estavam diante das apropriações que as coisas faziam de ti, e eu gostava de ver, sabe, gostava de me colocar escandalizado e de te buscar nas coisas que eu via.
Tenho sido muitos nos últimos meses, todo de grandezas múltiplas, aceitando a tua loucura. “Aceitando” não, porque quando nós pensamos em rebelião, a nossa rebeldia cresce, a não-aceitação cresce, mas na verdade sabemos que não nos resta mais nada a fazer e ficamos quietos, aceitando. Sempre reconheci uma pessoa que aceita pelo nível de reclamações feitas – quanto mais o sujeito resmunga, mais aceita. Então prefiro dizer que tenho convivido de modo insuspeitado.
Livrando-me da Luh para ser sossego: no princípio nós até que temos certo medo pavor receio de ficar a sós com a Luh, mas depois vamos nos acostumando tanto que o mistério torna-se uma falta excruciante – a maior desvantagem de ser mulherzinha misteriosa é esta: que cansa. Como tudo na vida.
12 comentários:
puxa, eu acho que eu vivo com esse susto de que você fala. das coisas não ditas, que não serão ditas porque não são de palavras e mesmo assim agora eu penso: é por isso que escrevo; é uma tentativa tão desastrosa, tão vã, de colocar no mundo alguma coisa que inexiste fora do seu invólucro: esse susto se pretende transcendental e não vai ser nunca. daí vem a agonia dele. uma coisa querendo ter vida nesta vida que a gente olha, mas é uma coisa que nem pode ser olhada, muito menos dita.
não sei se me faço entender, é que o teu texto me suscitou um sentimento de voragem. a gente faz uma verborragia doida e o parto não acontece nunca. é uma gestação eterna, uma gestação de sustos, estamos grávidos de sustos.
escrever tem horas que me causa um susto. se eu fosse descrevê-lo em palavras já tiraria quase cem por cento da significância real dele, mas como só sabemos nos comunicar com a rasura da linguagem, tenho que dizer que a sensação é mais ou menos próxima de uma falta de ar, de uma morte iminente. há uma pressa em "libertar" logo esse fantasma de feto. mas nesse processo eu sinto que liberto dez mil coisas e o fantasma continua em alguma parte de mim que se recusa a expeli-lo. talvez eu nunca consiga. não sei se vc também se sente assim em relação à palavra. reconheço o quanto ela tem de libertadora (mesmo sendo piegas e até óbvio reconhecer isto)e o quanto ela possibilita a expressão de certas coisas que estão ocultas e que não devem permanecer no escuro; mas acho que a essência desse susto, por mais verborragia que utilizemos vorazmente, só traz sempre um vislumbre muito sutil daquilo que geramos sempre e sempre e tentamos sempre e sempre trazer à luz. bom, acredito também nas transparências, e isso me faz pensar que vislumbrar algo é melhor do que não ver nada. e há muitos cegos no mundo, vc sabe.
enfim, estou me estendendo demais e o que eu queria dizer mesmo é que estes textos são os melhores que tenho lido nestes tempos, porque consigo vislumbrar um certo fantasma que não se desintegra com a mesma velocidade de tantos outros. deve ser bom, de alguma forma, trazê-lo à tona, deixar resquícios dele, nem que seja no outro, distante, desconhecido e talvez de opinião desimportante que o vislumbra no meio de uma noite e consegue até arrancar para si algum vestígio etéreo dele.
Eu adoro este lugar de bossa e sem bossa, desse você sem a idade que tem ou que afirma, de uma música ou um passado que me evoca e me dói ainda, embora eu nunca mais que quisesse saber dele. Eu gosto dessa dificuldade em retornar ao próprio nome que você nem quer ter quando a tarde revela seus melhores tempos, eu gosto! eu gosto desse non sense que a palavra aqui nem revela tanto quanto subverte, eu nem sei dizer. Abraço
e se digo incrível, é pouco.
Puxa! Eu também gostei! Te linkei!
Volta sempre que tu é bem vinda.
Anna.
Intrigante, forte, bonito. Ao mesmo tempo em que a sua escrita me lembra alguns escritores que adoro, ela é original, cheia de características próprias. Acho linda a tua forma austera e ao mesmo tempo leve de escrever. Você dá tanta leveza a certas coisas, que até leio sorrindo. É engraçado perceber que até diante de formulações consideradas mais "bobinhas", você escreve de forma surpreendente, bonita de ler e ouvir. A compreensão do que você escreve não é para qualquer um, menina. E às vezes eu fico me perguntando se essa compreensão é para mim...
Vivendo e aprendendo. Apreendendo e soltando...
isso e o supra sumo do que sei de voce e todas essas pessoas residentes em voce e em fatos.
palavras cortantes, Malu.
palavras realmente cortantes.
as coisas não ditas...ficam presas em mim e magoam. Entendi-te. Obrigada pela visita
beijo
São tantas as vozes e contradições que a gente entende quando ele diz que tem sido muitos ultimamente; me reconheci no narrador, assim como o odiei em certos momentos.
Não existe como não remexer certas solidões quando se lê seus textos.
Mais uma vez, um excelente encontro pra essa sexta noturna.
Beijos!
que mimoso. hehe. :)
visceral seus textos, por um pouco que o sangue não se esvai todo pelas veias a-fora. sorte que exiistem os pontos... isso é fluxondismo puro :)
obrigada pelka visita, leitura e comentário.
beijom :)
Fantástico é isso aqui! (em retribuição ao teu comentário)
Adoro texto rico assim, que você pode destacar trechos, e ainda fazer todo o sentido, trechos que respiram por si, e sozinhos são textos completos; fora do contexto, respiram, ainda, argumentam.
Destaco:
"não desejo criar, o que desejo é vagueza maior, o nome não satisfaz nem o meu desejo e nem o nome"
Perfeito.
Um beijo e um abraço.
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