Desejo saudade-águas-escuras às seis da tarde sem que eu tenha de confrontar comigo anoitecer solstício criar imensidões do ínfimo como forma de salvação precisa: bordando uma asa de libélula uma asa preta de biguá escamas de peixe urdiduras com salamandras; dói observar existências e não falo de saudade angustiada – que essa é a que o criador sente pelos primeiros seres da criação. Falo de uma falta que é mais sortilégio, ininteligível a ponto de eu escrever lenta como uma aranha tecendo. Eu que não escrevo, teço. E gosto da casa toda silenciosa.
A saudade é uma espécie de vida querendo alargar-se dentro da vida maior, acordei pensando de pensamento curto. E é perigosíssimo ter mais de uma vida porque é de se morrer múltiplas vezes – e é tão indubitável morrer que talvez a morte seja o nascimento dentro de um nascimento arcaico.
E a falta? Agora sinto uma falta que me comunica a ponto de tornar-se ilegível, abstração entre mulheres pintoras, eu morta-viva tomando chá entre damas às – malditas – seis da tarde. Que sou eu se aproveita? Sinto uma falta tão solitária e a suporto tão resignadamente tecendo uma teia levíssima, porém mortífera que, sim, é a minha mais profunda desordem. O que em mim é atalho? A solidão. Que faço de perguntas que sei as respostas? As escrevo para desafiar o meu mais indeterminável.
Há um nome em mim e é em silêncio que o penso – sem palavras, sendo o meu indeterminável. Repito o nome a ponto de perder o primeiro sentido, toda corrompida pela palavra. Há um nome e pensá-lo é cica e nunca o amor foi tão doce de raízes suspensas em liberdade. Escreverei assim: do pensamento direto para a folha, sem intermédios de voz: que a minha escrita precisa ser primeiro, precisa vir de antemão. O que escrevo veio antes de mim e cheira a mofo – eu nasci de uma palavra e é com uma fúria harmoniosa que a olho nos olhos: a palavra é áspera e vim ao mundo toda incongruente, pesada, ancestral, bicho de pontas.
Tudo é bicho de corpo. Eu preciso é sair deste invicto barato que é fazer do corpo refúgio e ser sozinha como resposta. (Aí sim poderei aceitar a ti, os tu, todos que és, o teu imenso silêncio).
A solidão é de uma alegria tão eminente que, se eu morresse neste instante, morreria prestes a estar alegre. Eu estou prestes a estar alegre. Solidão é falta por si só – há algo mais solitário do que escrever ao lado de uma máquina de escrever quebrada? A máquina ultrapassa o valor imagético e é apelo do toque. Quanta ingratidão há na máquina quebrada? Estabeleço com a máquina um estranho grau de pertencimento: não posso dizer que ela é minha como digo com a minha cama e os meus sapatos. A máquina independe, espaço à parte do cômodo. E eu é que me nego a escrever sobre uma máquina de escrever que nem sequer serve para o que diz. E esse é o meu desafio ao instante suspenso.
Estou sufocada pelo ar íntimo, ocupo-me de grandes castelos e grandes construções para amenizar o meu mais indomável que é sublime, embora austero e de urgência difícil por natureza. Só o que está nu alcança a si próprio, como água-viva no movimento de abre e fecha – eu envolvida por uma membrana leve que quase inexiste, a epiderme finíssima em estado de levitação, eu medusa delicada e de toxina possível, eu super-formada por água, eu sendo o meu próprio nome vivo. Eu cheia do meu próprio nome vivo. Vês? O estar nu é o ser-se se transformando em é-se.
Que não se enganem comigo – não sou microscópica, faço rebuliço e lente nenhuma me pega mais. Escapulo. Vivo constantemente em macro. Chego perto porque, para estar longe, é preciso força e eu sou mulher recém-nascida embora a minha raiz seja ancestral: necessito do espanto. É de matéria que milagrosamente existe o que eu falo. É de corpo o espanto insuspeitado de mulher recém querendo apropriar-se do mundo.
Outro dia, eu e a minha mãe estávamos comendo pipocas no jardim. Eu e ela gostamos de comer pipocas-quase, que é aquele quase-deixou-de-ser-milho que normalmente fica no final. Já olhávamos com tristeza o fim do susto alegre que era comermos pipocas juntas, quando ela toda decidida jogou um milho no jardim e disse: “Vai nascer pipoca!”. Mulher apropriada do mundo é isso. Desconfio que a intenção dela era me fazer alegre e conformada com o instante seguinte em que sairíamos do jardim para dentro da nossa casa. E eu juro que fiquei alegre, embora alerta por não puder plantar pipocas que nascem explodindo do pé.
Que absurdo incomunicável, o da escrita. Há o que dizemos e também o que achamos que não dizemos, embora digamos. (Construção pouco original essa que acabo de fazer). Eu preciso escrever para ser inquieta livre do heroísmo. Pensei agora mesmo em parar um pouco porque escrevo a mais de cinco horas e não canso. Escrever é alfa, exige do espírito. Odeio escrever quando não quero dizer nada e poucas coisas me parecem mais insuportáveis. Agora comunico; que dizer eu não posso porque nasci muda.
Estou extasiada. A pintura é ocre. A vida é ocre e não me sabe ser outra coisa. Adão é ocre e eu escrevo rupestre também ocre. Toco a superfície da rocha como se estivesse tocando o meu mais incomunicável e nela faço pinturas – minha incomunicabilidade com o mundo, o meu contato com o que me cerca, improvisando sinais de existência: como faço deste exato momento em que vos falo, em que hipnotizada vos falo e vos grito sem gravidade.
Há precipitação. A constante metamorfose me fascina: também há em mim o devir e os caminhos da libélula aquática até se tornar voadora. Há, em cada objeto, a precipitação em sê-lo, a sua tendência aos movimentos bruscos e suaves, o caos contido estancado como uma ferida próxima a um olho de lince. Entenda-se bem: humanizar os objetos é estar à beira, é inquirir deslealmente; expor a tendência das coisas ao movimento não é humanizá-las – também os astros se movem livres da respiração. Vejo suscetibilidade. Não sou física, estou no limiar da impossibilidade.
O momento agora é catártico: idílica é a alma e eu escrevo de corpo. De o corpo para o corpo: é com o corpo que sou captada, seja por meio dos ouvidos ou por meio dos olhos para os que apreendem em silêncio. Isso se chama comunicação entre iguais. Um igual reconhece o outro no contrafluxo. E há um abismo entre um homem e outro por eles serem duas continuidades sigilosas do devir. Que todo corpo seja O Corpo. Que o devir seja lampejo.
Os últimos instantes mistificaram-se em sobrevida, cometi a delicadeza de distraída, encontrar um botão bordô pequenino no chão. O que eu escrevo é de botão: fica-se sem saber o que fazer com a coisa, a coisa que não serve para acender uma lâmpada. Escrever é a identidade de que somos precisados. O botão é metafísico. Pego o botão. Eu não alcanço o botão porque não sei o que fazer do que é material sem pedir nada em troca.
Volto do meu mais longe – termino onde a palavra recomeça. É preciso algum contato que não seja de carne. Hoje cedo vi uma moça belíssima, o rosto de uma harmonia profunda: a moça usa o corpo como exercício de sua liberdade. Exercito a minha liberdade mais recém-descoberta com a escrita: codifico nas paredes, nas pedras, nas superfícies rígidas para lembrar que eu também sou rigorosa de nascimento com a testa franzida; que sou um homem antigo que, de pedra em pedra, escreve a própria lápide em ocre, delimitando a própria liberdade de selvageria permeando os tempos do domesticável. Eu só escreveria um livro se ele fosse todo rascunho.
Me ponho escandalizada, confesso. Confesso assim: confesso-me. Escrever isso é complicado porque eu não sei onde termina e não consigo adivinhar, eu estou é ao acaso. Crio essa personagem sem rosto e sem um nome porque a minha história acontece no escuro. A minha personagem é um peixe abissal e agora enfrenta o espelho – é obrigada a olhar a luz do próprio corpo. Que adaptação é a do escuro?
A vida à noite é um avesso. Gosto de captar luz, pensamento lhano, preâmbulo, amanheceu em dois tempos. Cortázar diz “Piensa en esto:”, meu coração arrepiado em escuta. Esto:. O nada entre pontos. Esto:. Obsesión, meu coração arrepiando. Esto:. Escuta com os ouvidos mais atentos do mundo aquilo que digo. Esto:. Ouve o meu silêncio que nele há uma sequência que perdi. Há uma descontinuidade. Expresso quantidade pelas vezes que repito palavra. Se são duas palavras, expresso palavra palavra, se são infinitas, não alcanço a palavra e não pienso en esto. Abismo abismo. O número dois sendo dois dois.
Eu quero escrever, mas sinto sono. E é preciso força. Hoje dormirei esgotada e só então sentirei clareza. Por enquanto é escuro, falo inteiramente do meu avesso – é das profundezas toda e qualquer liberdade.
Nunca me doí tanto. Estou consternada como que para lembrar de alguma outra coisa. Trata-se de uma dor seca: não se dá para chorar com ela, nem pra xingar, nem para escrever poemas. Não se trata de dor alicerce, dor escada; acho que é mais uma dor chão. Não há irregularidades. Aliás, a dor é tão plana que é a única perfeição que já vi na vida – é a própria criação de Deus revelando-se entre atos. Tenho pudor desse contato pleno com o nada: eu quero o tédio, eu sou de inércia inquieta. O canto do passarinho me emergencia.
É preciso seguir à risca: bicho do mar me enleva de mistério. Desde as primeiras escrituras naufrago e adquiro conchas, escrevo com o sangue-ocre do primeiro habitante do mundo – e o sangue é barro, meu Deus. O retorno do homem ao homem, contato máximo de argila. Eu coloro pedras. As pedras me inundações. Mar não me diz outra coisa senão abismos. Em nome do embrutecimento, permaneço betume.
Entre atos de uma peça grega, eu encontro Deus.
6 comentários:
Tanto rebuscado guardando uma simplicidade tão terna.
Entre atos, e desatos,
de uma peça, em um todo,
Grego. Pra quase todos.
Feliz páscoa. E ótimo te ler por aqui
; )
não tem tamanho falar do mar
a nós só cabe
amar o mar
imensidão e mais imensidão
em Spirituals
Reincidência. Tentativa de sinal de pixel, tambor de teclas. Antes deixei escrito, a conexão não foi forjada em ocre e partiu antes do envio, penso. Pensa, nem tudo há que fazer sentido e eu fico brava com destrambrelhar linhas e sequer falar. Odeio quando o ar virtual não conduz os signos, odeio! Mas adoro o que leio aqui. Então reincido. Sempre. Beijo.
"dói observar existências"
e às vezes até compartilhá-las
sem saber quem somos.
Também adoro teus escritos.
Gostei da sua visita e também do que vi por aqui.
bjs
Essa é minha preferida.
Postar um comentário