sexta-feira, 15 de outubro de 2010

TEORIA DO NÃO ENTENDIMENTO

(baseado em Avalovara, mitologia, bíblia, Magnólia, "Instruções para subir uma escada", tela de Moreau que vi de relance e em nenhuma dessas coisas)

Aguardo a chegada dele. Toco, com o indicador, a superfície do bolso, sinto a ponta da faca escapando pela abertura, ergo possibilidades por desacato, vocação imprecisa, inútil desperdício: balés executados por mulheres de sinuosos trajes compostos por feras douradas, anjos retorcidos, Tomé à esquerda cego como um Édipo que duvida – seriam trajes ou retábulos de minhas cerimônias sacrilégicas? A minha vocação é o excesso, Salomé dançando em nome de um merecimento.

Espirais circunscritas em quadrados me atravessam. Insuspeito do que sem vida insinua-se. Eurídice arrasta Tomé para o Hades – divertem-se. Tomé, cartesiano, impermanece e Orfeu lhe baixa: o quadro de Moreau é para mim uma fotografia, a pego nas mãos e sinto o homem transmutar-se, ramificar-se como se de mim que sou a mulher em pé, os olhos fechados, na verdade lhe segurando a cabeça. Orfeu não me olha. Ao mesmo tempo, a mitologia com suas imensas ramificações que vagamente desconheço é a minha transparência. Sou lúcida do que desconheço. Desejo escrever ESPIRAL em sânscrito, incorporar línguas de linhagem antiga. Eu mesma antiga, lítica. Arrancam-me a palavra não dita e eu estou esgotada do que é possível de ser dito. É preciso recompreender os sentidos – passo por longos espaços temporais de aridez para que não sucumba, e cega, alimento ouroboros. Ouroboros sou eu, oferecida como perturbação precisa.

Tudo o que falo é de ausências. Se ele chega, lhe aponto a faca, sorrio como quem esconde um segredo – verifique as crenças ou lhe arranco as falanges, Tomé, depois as mãos inteiras: eu cerceio tudo o que for de ti para que creias em meu corpo tomado por espirais, meu corpo sempre retornando e recompreendendo, referindo-se a uma beleza antiga e mutilada. Tomé, cego e sem mãos, me lembra um menino que conheci na infância e que nunca mais poderá tocar.

Eu recorrente, repetente, volvendo, tocando a faca, compreendendo que Tomé não tem me sido outra coisa que não essa ponta que me machuca os dedos, contenho o pouco sangue na boca, esqueço como é estar machucada e toco a faca de novo, eu não compreendo uma faca, passo horas olhando a fim de compreendê-la como passo horas para apreender a normalidade de uma escada, leio Cortázar, tropeço nos degraus porque de repente esqueço do que se trata descer e subir e permanecer, o pé vacila, a qualquer momento Tomé chega descrente porque não toca a si mesmo: sopeso vilanias, fico à revelia contemplando como se a um objeto que tenho em mãos, que toco com a falta de hesitação que toco a faca: um diamante em estado bruto. Na lâmina, vejo o rosto distorcido de Tomé.

Abro um livro e não entendo nada, me afeiçoo a ele justamente por isso. E juro que
a hagiografia inscrita no topo do livro me faz considerar cometas. Ciclópica, eu teço estratagemas, prometo a Tomé que serei bélica, em sua ausência me desordeno, luto contra o desejo burro de acreditar em qualquer coisa acontecida no escuro, hordas bárbaras contidas nas retinas que foram arrancadas pela descrença.

Repito palíndromos como se querendo encontrar respostas, mas a coisa mesma repetida adquire proporções majestosas. Como uma cirurgiã, penso em abrir palavras com faca, mas acontece de as palavras só poderem ser abertas a sopro, manipuladas a acidentes tridimensionais. Ao invés disso, espero, enumero mentalmente as minhas ações desacontecidas.

Tomé de retorno incerto não me desola à medida que não me guarnece, permaneço somente incerta: a faca dentro do bolso e alguns lampejos de retornos. Absolutamente nada acontece. Não aguardo e não repouso, fico somente suspensa na primeira pessoa. De repente o homem chega e eu retomo o que lhe dizia no momento em que ele desceu pelo ralo saiu pela janela assumiu sua inconstância pesou uma asa de barata acreditou numa cãibra piscou a ausência de um olho adquiriu a fluidez de um líquido que não é água choro sêmen perfume e nem nada.

3 comentários:

Thiago disse...

ei você, que me influencia música e cinefilamente em bossa. Voltei pra cá e mais tarde volto pra comentar :)

leila saads disse...

Que bom você voltar, senti falta dos seus textos.

Esse, particulamente, tocou tanto o meu momento que coloquei trechos no meu perfil e no meu novo texto, espero que não se importe...

Beijos!

CeciLia disse...

SIiiimmmm, eu sempre me incomodo, deslumbro, inquieto, fico e corro, quando venho aqui. Sim, eu gosto do que escreves, redemoinha nas minhas amígdalas e a coceira me faz tentar engolir a palava, mas ela insiste metamorfoses pelos cantos de mim.
Parabéns pelo texto e, mais do que ele, pelo aniversário do pai.
Um beijo de admiração.
Cecilia