quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Iahweh

Silvana compreende o mundo com lupa – abre com buril o corpo do morto, retalha o coração minuciosamente enquanto confere através da lente. As artérias se duplicam, é engraçado. De repente um coração de boi. Resignada e desimportante chora a morte do homem. Iahweh tinha o seu nome pronunciado regularmente com fé porque era um homem que servia aos pobres e aos ricos, solícito. Mas aí Iahweh durante o sono se engasgara com a própria dentadura e desde então a vida não havia mais lhe permitido maiores bondades. As pessoas de corpos recurvos nas camas chorariam desajeitadas quando soubessem. Silvana legista, excessiva, sedenta de qualquer desencontro é mulher que fatia tudo o que vê, abatedora. Retira agora com a mão esquerda um fígado sem saber que se trata de um fígado e o levanta com as duas mãos a fim de olhá-lo de baixo para cima. Sangues pigam na testa e ela pensa que seria engraçado cegar com o sangue de Iahweh despejado feito um oceano nos olhos, cegueira salgada. Sangues escorrem pelos braços levantados de Silvana e descem até as axilas, ensopando a blusa. Silvana pensa que as manchas de sangue parecem enormes manchas de suor e ri disso. Delgada, atira o fígado contra a parede em nome do itinerário que precisa cumprir. Arranca, um por um, milhões de troços recheados de sangue coisas que lembram minhocas carnes cruas que ela não sabia discernir tanta coisa que ela não sabia como cabiam ali, tão organizadamente. Pensa então tratar-se de uma gaveta sendo aberta, uma gaveta recheada de coisas podres semelhantes a ratões atropelados com tanta brutalidade a ponto de ter sua fisionomia completamente distorcida-mutilada-esmagada e convertida em podridão e sangues que poderiam ser sangues e destroços de qualquer coisa viva. Talvez de um pé humano. Só que essa gaveta era costurável. Silvana pensa em chorar dentro do homem e costurá-lo depois. Fazer de seu corpo um enorme crochê ensinado a moças de família. Cogita que rituais livres de sentido são importantes para a salvação da alma, para um repentino ressucistamento de Iahweh, para que o extraviamento doa menos e soe como obsessão de uma desequilibrada blues. Quando uma formiga sente o corpinho doer a dor é menor por ela ser fisicamente infinitas vezes menor do que um homem? Trêmula, sustenta-se sobre o morto, pega o pau mole de Iahweh – porque pau mole de morto manifesta a mesma vida de pau mole de vivo – e enfia boceta adentro. Lembra a língua presa de Iahweh articulando invioláveis, a língua cicóplica exercendo significados em idiomas incompreensíveis. Regras pronunciadas em terra de surdos-mudos. Espera enquanto nada acontece e continua acontecendo. Nenhuma porra. Levanta nauta, com esforço despeja o homem no frigorífico, seus pedaços caídos pela casa. Vai fumar um cigarro. Talvez seja Mahler ao longe, a sinfonia nº 2 bem distante regendo tudo o que é prosaico e vasto. As tripas na sala.

Deus estava mesmo morto.

4 comentários:

Alê Quites disse...

maiores bondades...

orlando disse...

gostei do texto cabrita
:P

leila saads disse...

"rituais livres de sentido são importantes para a salvação da alma"

todo o tempo.

Tiago Júlio disse...

Sempre que venho aqui tenho boas surpresas.
Nos blogs sobram drama, exageros, temas batidos e faltam coisas assim: surpreendentes, víscerais.
Acho que a escrita, além de entreter, precisa provocar, instigar.
Tu faz isso muito, muito bem.
A natureza humana não é tão linda e pura como nos textos de amor. O lado que tu dissecou é cativante porque, talvez, os instintos e os impulsos sejam aquilo que temos de mais sincero.
Linda combinação de palavras. :) Parabéns.