quinta-feira, 28 de abril de 2011

Invento a tua ausência com outro nome

Quero cochichar em ti para me despir de mundo. Perpasso jardins de murtas, emudeço porras, alaudeio os teus joelhos com a minha voz sempre ausente, vez em quando sinto o coração bater no olho, mas disseram que é estresse, corro o risco de iniciar um livro a cada instante, gatos trepam meia-noite adentro, gemem alto, atiro batatas, eles ainda gemem e não durmo. A mulher do 101 me chama para banquetear em pratos ornados de ouro, bronze, porcelana e merda, desço em um instante, de repente somos dois nos espaços noturnos. Pesado, penso escatologias na hora do jantar, comentários pontuais. Tua língua bifurcada no cu rosso do gato. A língua intumescida dela em uma víbora-cornuda.

TU OU TEU NOME É ESTE: costuras agramaticais, pardais vistos de vazio, jejuns livres de purificação, rituais iminentes, levitação de meia asa de barata, ausência pluvial, retenção de madrugadas escuras formando celulites gordas, ornamentos que não são por acaso – legião de carrancas, pálpebras pesadas após contatos, quase inexistência no azul, arrimo de coisa alguma, ideogramas apreendidos por eremitas pentelhudos, dedo polegar de macaco, sete dias devorando todas as criações em arrependimento.

Venosa a mulher do 101 abre um dos braços, estrebucha com o veneno vivo na boca, soa como juntura entre escuro nada e coisa alguma, é congênere no deserto, um osso seu como que recém-saído da estrutura corpórea me é grudado na lombar, sinistrezas. Corremos pelo condomínio grudados feito duas moscas dormindo bunda-com-bunda, só que livre de voos. De repente somos Xipófagas Capilares como que grudadas pelos cabelos do cu, as Xipófagas vão abraçar o mundo, eu digo, palor em riste como se de fantástico, nada em comum entre eu e a mulher, só uma falta, livre habitação entre dois lugares siameses. E eu te apelo, te desperdiço como os homens desperdiçam o nome de Deus. Minhas amizades na cidade são de concreto.

De porcelana chinesa é a tua complacência, disposição diurna para os atrasos, dom antiquado de mimetizar bichos. (Nos instantes impróprios é que és e são impróprios todos os instantes. Tua vida extrapola tua existência). E a minha mimetização era do espelho, das coisas que via ou achava que via em ti: eu só desoriginalidades, sono para reinvenções.

De vigília a manhã vai se adensando, meu quarto se torna um ovo cozido e me abriga como só o que me abriga me enternece, rutilação, transpiração, enorme estufa. Saio à rua, as pessoas e suas intumescências, tundras, zênite, constelações imprecisas no céu limpo. Na frente semáforo vermelho, minha imersão no mundo. Um mendigo caolho não sei se me olha, lhe toco no ombro e o mendigo me chuta no saco – certo desvelo entre caralhudos –, guardo segredo como quem assume o risco. Em assombração, o corpo em dormência. O mendigo me belisca a carne leprosa, sinto porque ele é vernáculo.

PARA QUE TU VENHAS: evocação de fantasmas; inundo o apartamento como dom de estilo; extravio murtas para flores; colho pássaros para vasos; epistolar, crio léxicos diligentes.

O mendigo simula estremecimento, mosquitos de cão rodam-lhe a cabeça sem que ele se incomode, os lábios roxos se entreabrem em semi-pronúncia zarolha, ele cai reproduzindo um Gulliver. Outro dia e tudo se repete. Falo-te baixo porque é de noite. Não te falo, só buzinas perpassando as avenidas. Faço promessas que quase inexistem a olho nu: pronúncia no escuro, o recanto onde moscas morrem. Sou ouvido por ninguém. As duas orelhas do mundo habitam o mendigo. Mas ele é surdo. E o seu único olho nu é o cu.

Furtivamente mudo de endereço, invento a tua ausência com outro nome e é então que tu te chegas invadida por cidades escuras, epilepsia ausência, infâncias esquecidas, cabelos úmidos e mistérios da comunicação entre delfins.

3 comentários:

leila saads disse...

caralho, queria ter essa liberdade de criação! você me fez percorrer imagens que nunca tinha visto antes.

Ricardo N disse...

Gostei muito do teu blog e de seus textos. Vou linkar. Abrax!

Priscila Lopes disse...

porra, muito bom!


(só pra não destoar da explosão elogiosa acima)

adorei esse teu texto. adoro.