"E disse Deus a Moisés: 'eu sou o que sou'. Disse mais: 'Assim dirás aos filhos de Israel: 'Eu Sou me enviou a vós'."
respondo que sou. perpasso teu nome com outros nomes. desejo qualquer coisa como desobediência, síndrome nos intestinos, torpor de pássaro, o bico esfíngico. e é de repente que me arrefaço, as mãos em riste, santa-oca-secular, penso no ritmo da escrita dos grandes escritores, olho as pontas dos cabelos grandes entre duas palavras. proseio porque me implica.
gosto de saber os requintes dos assassinatos repletos de crueldade. que o requinte é luxo das pequenezas: o primitivismo é também escritura. e a crueldade não me diz outra coisa que não a mim. me agarro com o São Cristóvão que não acredito e que me carregue. 'eu gosto é dos requintes de crueldade das palavras', ele me diz, o rosto bizantino recém-transformado talvez. da próxima vez ele compõe um trava-língua, para que o instante estique. e aí empalidecerei porque a vida se tornará leve-zênite.
daqui, contemplo o Eu Sou como a melhor criação de Deus, porque eu sou e o não sou são os primeiros gêmeos bivitelinos somente suspensos no presente. e a segunda forma de chamar Deus chama também a mim. chamo como quem clama, então, e esta é minha evocação presente. ele diria 'tua incompletude precisa de segredos, daí Deus'.
daqui, a ausência dele me é hiato porque de repente sou fecunda de ideias sem que saiba o que fazer delas. silenciá-las para me intuir, talvez. ele falaria: 'para me psicografar'. minhas bárbaries no mundo me comunicam de início: a ancestralidade estremece babélica e a ninharia apodrece. esse trava-língua que não sai. escrevo à ele - se tu te vires, o acaso será de costas. que teus acasos são teus - acrobáticos - recomeços. na nota de rodapé: que vibração alegre é a da tua decrepitude! pessoa primitiva por vocação.
daqui, acho que aguardo como quem faz outra coisa, um nascimento intocado. penso que tu te vens por não ter algo para carregar além de ti. aguardo. febris, nós rebentaremos no mundo de escritas furiosas e imutabilidades repletas de Eu Sou.
5 comentários:
justamente hoje - no dia do rock - raulzito disse: Eu Sou a mosca que pousou na sua sopa
Ser não é fácil. Mesmo assim, ainda é lindo.
Teu pior texto.
Engraçado como um mesmo texto pode criar acepções tão diversas. Esse é um dos meus favoritos! Lindo.
Gostei, Maria Luíza... Acabei de descobrir seu blog por indicação de Jullianny.
Eu sabia que sua escrita era clariciana... Ótima.
Alexsandro Lino.
Postar um comentário