o que queremos dizer é que o teu corpo nos machuca, entende? Ele pega a gente para pássaro e faz da pungência uma liberdade improvisada para voejo, sempre caindo do vigésimo sétimo, sempre início no início, meio e fim da queda. Uma de tuas mágicas santas de colocar-nos com a alma de pé, aquilo que se chama coração teso. Felipa me disse que quanto tu abres os beiços é como se fosses um porta-jóias – depositarei então lentilhas entre tua uma palavra e outra, em nome de Felipa que é uma moça muito inalienável e sente angústia sete vezes por semana, todas elas acompanhadas de fastio que ela disfarça chamando “jejum”, como se fosse moça religiosa recolhendo-se. Felipa é engraçada ao mesmo tempo que me assusta noturnona todas as horas do dia. Felipa parece um bebê feio – deve ser coisa herdada porque trabalho feito não sobressalta tanto assim pela ausência de enfeites: eu olho para ela e a vontade de rir não sei se vem da engraçadice ou do desespero que leva o coração à 120.
Tenho buscado as respostas e as perguntas para melhor arrefecer enigmas – creio que sou um homem desprovido de ofícios para que me restem os silêncios, aqueles silêncios que me comunicam como já aconteceu na fila de banco ao meu calar-se diante da tua trança labiríntica no alto da cabeça. Agora a pouco, calado, o coração amoleceu como se Ennio Morricone executasse ‘cinema paradiso’ enquanto finjo para Felipa que durmo mas na verdade sinto a vida, a vida em ti e por isso mesmo em estado bruto a vida em sua mais grotesca gratuidade persistindo como resposta não encontrada e por isso mesmo como aquela conjura com lágrimas nos olhos.
Se tivesse de te escrever uma palavra bonita que me dá vontade de construir um muro alto de hospício só para escrevê-la no meu muro inteiro, seria désir. E eu acho que cada pessoa deveria ter direito a pelo menos um muro nessa vida. Pois bem, désir, meu gosto gratuito por um nome feito o meu gosto gratuito por petúnias, apesar de a palavra em si me parecer amarga e de luto; ou o meu gosto quando tu descruzas as pernas desavisadas em jantar de ricos e balanças os pezinhos; ou quando tu aguardas que se decantem as solidões enquanto pensas que se uma coisa é aquilo que ela não é, então ela é infinitas coisas menos uma. O que sinto é justamente assim, Larinha, infinito menos um, aquele cabelo cortado de mulher que só ela própria é capaz de senti-lo menor, calvo-estridente. E se eu te digo que l’amour n’existe pas é para te ver sorrir despojada das coisas mais simples, os teus despojos me dando um nome uma casa para servir recriações de abismos em nome da tua felicidade mais primária e da tua trança sempre no alto da cabeça me lembrando todos os pára-raios do mundo.
Penso na palavra astrolábio e que escrevo pelas palavras que desconheço. Desconhecer é manso, mas enfia unhas de gato nas costas – a cara plácida, as unhas cravadas. A ironia é que é devastadora. Visto o teu vestido repleto de losangos, Larinha, escrevo agora de dentro desse vestido que me surge e me crava como as garras de um felino te chamo no plural para ver se vens mais depressa e mais vezes, Larinhas, o vestido tessitura as urgências mais primeiras de meu sexo. Este vestido sou eu este vestido é teu prolongamento que encontro porque não posso encontrar de ti outros despojos – pele de cobra largada pelo caminho. Fúteis, avante! Saio de casa de saia para me travestir de mim a ponto de parecer louco, a ponto de não me reconhecerem imerso no meu óbvio: no meu mais óbvio. E então dirão o óbvio sobre a loucura e os males do demônio enquanto me nefasto enquanto recupero as perdicências enquanto encontro um intervalo uma fissura talvez para andar cisne para proclamar antes de mim essa loucura geradora de intermitências? Vou fazer um baú para guardar o vestido e vou deixar o baú vazio pelo prazer de adornos. Antes descubro que toda palavra se presta para verbo.
Queria desconhecer pedras, escrever como quem constantemente procura no dicionário, e não encontra – cada palavra um recolhimento bizantino que o meu tempo desconhece. Felipa me estraga a saúde com esses livros de astrologia, querendo ser corpo celeste bem localizado dentro de casa, isso aqui é a ordenação das coisas novo método de faxina prezando por outros tipos de organização, mas cansa porque eu quero estar na sala e tenho de estar no quarto e quero estar na cozinha mas este é o momento exato do banheiro e tu me ameaças com a sorte de te ser e de ser as tuas perplexidades que me trazem as estranhezas sobre a existência e que me dá um novo cômodo para ficar?
Que me dá mesóclises fora da língua.
2 comentários:
Queria ver a cara do narrador desse texto... Deve ter uma expressão facial única!!
Alexsandro Lino
Olá! Obrigada. Também gosto muito dos teus textos.
O endereço do blog mudou: http://aldopo.blogspot.com/
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