<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396</id><updated>2012-01-05T17:12:53.554-08:00</updated><title type='text'>Bossa Velha</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>45</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-5141205330168424293</id><published>2011-09-16T14:15:00.000-07:00</published><updated>2011-10-19T18:32:48.303-07:00</updated><title type='text'>Larinha,</title><content type='html'>o que queremos dizer é que o teu corpo nos machuca, entende? Ele pega a gente para pássaro e faz da pungência uma liberdade improvisada para voejo, sempre caindo do vigésimo sétimo, sempre início no início, meio e fim da queda. Uma de tuas mágicas santas de colocar-nos com a alma de pé, aquilo que se chama coração teso. Felipa me disse que quanto tu abres os beiços é como se fosses um porta-jóias – depositarei então lentilhas entre tua uma palavra e outra, em nome de Felipa que é uma moça muito inalienável e sente angústia sete vezes por semana, todas elas acompanhadas de fastio que ela disfarça chamando “jejum”, como se fosse moça religiosa recolhendo-se. Felipa é engraçada ao mesmo tempo que me assusta noturnona todas as horas do dia. Felipa parece um bebê feio – deve ser coisa herdada porque trabalho feito não sobressalta tanto assim pela ausência de enfeites: eu olho para ela e a vontade de rir não sei se vem da engraçadice ou do desespero que leva o coração à 120.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho buscado as respostas e as perguntas para melhor arrefecer enigmas – creio que sou um homem desprovido de ofícios para que me restem os silêncios, aqueles silêncios que me comunicam como já aconteceu na fila de banco ao meu calar-se diante da tua trança labiríntica no alto da cabeça. Agora a pouco, calado, o coração amoleceu como se Ennio Morricone executasse ‘cinema paradiso’ enquanto finjo para Felipa que durmo mas na verdade sinto a vida, a vida em ti e por isso mesmo em estado bruto a vida em sua mais grotesca gratuidade persistindo como resposta não encontrada e por isso mesmo como aquela conjura com lágrimas nos olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se tivesse de te escrever uma palavra bonita que me dá vontade de construir um muro alto de hospício só para escrevê-la no meu muro inteiro, seria &lt;span style="font-style:italic;"&gt;désir&lt;/span&gt;. E eu acho que cada pessoa deveria ter direito a pelo menos um muro nessa vida. Pois bem, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;désir&lt;/span&gt;, meu gosto gratuito por um nome feito o meu gosto gratuito por petúnias, apesar de a palavra em si me parecer amarga e de luto; ou o meu gosto quando tu descruzas as pernas desavisadas em jantar de ricos e balanças os pezinhos; ou quando tu aguardas que se decantem as solidões enquanto pensas que se uma coisa é aquilo que ela não é, então ela é infinitas coisas menos uma. O que sinto é justamente assim, Larinha, infinito menos um, aquele cabelo cortado de mulher que só ela própria é capaz de senti-lo menor, calvo-estridente. E se eu te digo que l’amour n’existe pas é para te ver sorrir despojada das coisas mais simples, os teus despojos me dando um nome uma casa para servir recriações de abismos em nome da tua felicidade mais primária e da tua trança sempre no alto da cabeça me lembrando todos os pára-raios do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso na palavra astrolábio e que escrevo pelas palavras que desconheço. Desconhecer é manso, mas enfia unhas de gato nas costas – a cara plácida, as unhas cravadas. A ironia é que é devastadora. Visto o teu vestido repleto de losangos, Larinha, escrevo agora de dentro desse vestido que me surge e me crava como as garras de um felino te chamo no plural para ver se vens mais depressa e mais vezes, Larinhas, o vestido tessitura as urgências mais primeiras de meu sexo. Este vestido sou eu este vestido é teu prolongamento que encontro porque não posso encontrar de ti outros despojos – pele de cobra largada pelo caminho. Fúteis, avante! Saio de casa de saia para me travestir de mim a ponto de parecer louco, a ponto de não me reconhecerem imerso no meu óbvio: no meu mais óbvio. E então dirão o óbvio sobre a loucura e os males do demônio enquanto me nefasto enquanto recupero as perdicências enquanto encontro um intervalo uma fissura talvez para andar cisne para proclamar antes de mim essa loucura geradora de intermitências? Vou fazer um baú para guardar o vestido e vou deixar o baú vazio pelo prazer de adornos. Antes descubro que toda palavra se presta para verbo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria desconhecer pedras, escrever como quem constantemente procura no dicionário, e não encontra – cada palavra um recolhimento bizantino que o meu tempo desconhece. Felipa me estraga a saúde com esses livros de astrologia, querendo ser corpo celeste bem localizado dentro de casa, isso aqui é a ordenação das coisas novo método de faxina prezando por outros tipos de organização, mas cansa porque eu quero estar na sala e tenho de estar no quarto e quero estar na cozinha mas este é o momento exato do banheiro e tu me ameaças com a sorte de te ser e de ser as tuas perplexidades que me trazem as estranhezas sobre a existência e que me dá um novo cômodo para ficar? &lt;br /&gt;Que me dá mesóclises fora da língua.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-5141205330168424293?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/5141205330168424293/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=5141205330168424293' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5141205330168424293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5141205330168424293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2011/09/larinha_4253.html' title='Larinha,'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7556356816624361303</id><published>2011-07-12T20:47:00.000-07:00</published><updated>2011-07-12T21:14:43.112-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-style:italic;"&gt;"E disse Deus a Moisés: 'eu sou o que sou'. Disse mais: 'Assim dirás aos filhos de Israel: 'Eu Sou me enviou a vós'."  &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;respondo que sou. perpasso teu nome com outros nomes. desejo qualquer coisa como desobediência, síndrome nos intestinos, torpor de pássaro, o bico esfíngico. e é de repente que me arrefaço, as mãos em riste, santa-oca-secular, penso no ritmo da escrita dos grandes escritores, olho as pontas dos cabelos grandes entre duas palavras. proseio porque me implica. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;gosto de saber os requintes dos assassinatos repletos de crueldade. que o requinte é luxo das pequenezas: o primitivismo é também escritura. e a crueldade não me diz outra coisa que não a mim. me agarro com o São Cristóvão que não acredito e que me carregue. 'eu gosto é dos requintes de crueldade das palavras', ele me diz, o rosto bizantino recém-transformado talvez. da próxima vez ele compõe um trava-língua, para que o instante estique. e aí empalidecerei porque a vida se tornará leve-zênite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;daqui, contemplo o Eu Sou como a melhor criação de Deus, porque eu sou e o não sou são os primeiros gêmeos bivitelinos somente suspensos no presente. e a segunda forma de chamar Deus chama também a mim. chamo como quem clama, então, e esta é minha evocação presente. ele diria 'tua incompletude precisa de segredos, daí Deus'. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;daqui, a ausência dele me é hiato porque de repente sou fecunda de ideias sem que saiba o que fazer delas. silenciá-las para me intuir, talvez. ele falaria: 'para me psicografar'. minhas bárbaries no mundo me comunicam de início: a ancestralidade estremece babélica e a ninharia apodrece. esse trava-língua que não sai. escrevo à ele - se tu te vires, o acaso será de costas. que teus acasos são teus - acrobáticos - recomeços. na nota de rodapé: que vibração alegre é a da tua decrepitude! pessoa primitiva por vocação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;daqui, acho que aguardo como quem faz outra coisa, um nascimento intocado. penso que tu te vens por não ter algo para carregar além de ti. aguardo. febris, nós rebentaremos no mundo de escritas furiosas e imutabilidades repletas de Eu Sou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7556356816624361303?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7556356816624361303/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7556356816624361303' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7556356816624361303'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7556356816624361303'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2011/07/e-disse-deus-moises-eu-sou-o-que-sou.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-6422580261643495314</id><published>2011-04-28T11:19:00.000-07:00</published><updated>2011-05-08T19:28:13.577-07:00</updated><title type='text'>Invento a tua ausência com outro nome</title><content type='html'>Quero cochichar em ti para me despir de mundo. Perpasso jardins de murtas, emudeço porras, alaudeio os teus joelhos com a minha voz sempre ausente, vez em quando sinto o coração bater no olho, mas disseram que é estresse, corro o risco de iniciar um livro a cada instante, gatos trepam meia-noite adentro, gemem alto, atiro batatas, eles ainda gemem e não durmo. A mulher do 101 me chama para banquetear em pratos ornados de ouro, bronze, porcelana e merda, desço em um instante, de repente somos dois nos espaços noturnos. Pesado, penso escatologias na hora do jantar, comentários pontuais. Tua língua bifurcada no cu rosso do gato. A língua intumescida dela em uma víbora-cornuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TU OU TEU NOME É ESTE: costuras agramaticais, pardais vistos de vazio, jejuns livres de purificação, rituais iminentes, levitação de meia asa de barata, ausência pluvial, retenção de madrugadas escuras formando celulites gordas, ornamentos que não são por acaso – legião de carrancas, pálpebras pesadas após contatos, quase inexistência no azul, arrimo de coisa alguma, ideogramas apreendidos por eremitas pentelhudos, dedo polegar de macaco, sete dias devorando todas as criações em arrependimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venosa a mulher do 101 abre um dos braços, estrebucha com o veneno vivo na boca, soa como juntura entre escuro nada e coisa alguma, é congênere no  deserto, um osso seu como que recém-saído da estrutura corpórea me é grudado na lombar, sinistrezas. Corremos pelo condomínio grudados feito duas moscas dormindo bunda-com-bunda, só que livre de voos. De repente somos Xipófagas Capilares como que grudadas pelos cabelos do cu, as Xipófagas vão abraçar o mundo, eu digo, palor em riste como se de fantástico, nada em comum entre eu e a mulher, só uma falta, livre habitação entre dois lugares siameses. E eu te apelo, te desperdiço como os homens desperdiçam o nome de Deus. Minhas amizades na cidade são de concreto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De porcelana chinesa é a tua complacência, disposição diurna para os atrasos, dom antiquado de mimetizar bichos. (Nos instantes impróprios é que és e são impróprios todos os instantes. Tua vida extrapola tua existência). E a minha mimetização era do espelho, das coisas que via ou achava que via em ti: eu só desoriginalidades, sono para reinvenções. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De vigília a manhã vai se adensando, meu quarto se torna um ovo cozido e me abriga como só o que me abriga me enternece, rutilação, transpiração, enorme estufa. Saio à rua, as pessoas e suas intumescências, tundras, zênite, constelações imprecisas no céu limpo. Na frente semáforo vermelho, minha imersão no mundo. Um mendigo caolho não sei se me olha, lhe toco no ombro e o mendigo me chuta no saco – certo desvelo entre caralhudos –, guardo segredo como quem assume o risco. Em assombração, o corpo em dormência. O mendigo me belisca a carne leprosa, sinto porque ele é vernáculo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARA QUE TU VENHAS: evocação de fantasmas; inundo o apartamento como dom de estilo; extravio murtas para flores; colho pássaros para vasos; epistolar, crio léxicos diligentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mendigo simula estremecimento, mosquitos de cão rodam-lhe a cabeça sem que ele se incomode, os lábios roxos se entreabrem em semi-pronúncia zarolha, ele cai reproduzindo um Gulliver. Outro dia e tudo se repete. Falo-te baixo porque é de noite. Não te falo, só buzinas perpassando as avenidas. Faço promessas que quase inexistem a olho nu: pronúncia no escuro, o recanto onde moscas morrem. Sou ouvido por ninguém. As duas orelhas do mundo habitam o mendigo. Mas ele é surdo. E o seu único olho nu é o cu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Furtivamente mudo de endereço, invento a tua ausência com outro nome e é então que tu te chegas invadida por cidades escuras, epilepsia ausência, infâncias esquecidas, cabelos úmidos e mistérios da comunicação entre delfins.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-6422580261643495314?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/6422580261643495314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=6422580261643495314' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6422580261643495314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6422580261643495314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2011/04/quero-cochichar-em-ti-para-me-despir-de_28.html' title='Invento a tua ausência com outro nome'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-2731426503853102431</id><published>2011-03-02T18:03:00.000-08:00</published><updated>2011-03-02T18:25:15.470-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Tropeço nos saltos, meço palavras nos sulcos, me enfado de conversas tardias sobre poemas pluridimensionais, improviso um laço branco de cetim no cabelo, de repente lembro que tenho medo de entalhar em metal. Às cinco horas, sucinta, desato nós por acaso, estremeço em rituais auto-suficientes, retenho marinheiros em minha casa como se com águas salgadas dentro das unhas, bebo com eles, simulo bordeis baratos, brigas na noite escura, choro a morte do meu avô, cato lixo para evitar desperdícios, encontro uma réplica de Bosch, penso em emoldurá-la e penso que a pintura é feita de silêncio primeiro. Fico desabitada como que propositalmente sem nexo, teço palavrões incomunicáveis, testo timbres para ensaiar um desespero, uma possível eventualidade. Os marinheiros vêm alguns dias, não conto nada aos vizinhos, não conto nada a ninguém. Há dias em que não virão e eu adormecerei retinta como beleza recém-abandonada. De repente me vem um medo de ser esquecida. Mas aí me recordam qualquer coisa que deixei por fazer, repleta de despercepções. Choro um choro seco e cafona, desavisado. Encontro um papel no bolso com a seguinte frase: "peso um cisco de olho". Marinheiros são seres marinhos e revisitam. De repente é como se eles existissem para que eu exista analfabeta. E imanente, tal é o processo mais difícil: analfabetizar-se. A verdade é que fui terrivelmente maculada. E ser repleto de sedes não permite conversas sobre poemas. Qualquer hora anoitece e permaneço perversa, altiva como a mulher de Ló recém-transformada, transmutada por pecado, improvável por desobediência. Salina explicitarei enigmas: arrecadando opacidades para me redimir, conchas pedras ostras tatuís restos de peixes. De preferência peixes com espinhos. Certa vez um marinheiro me disse que, sendo nau, peixes espinhosos servem para rosas. Deve ser da mesma forma que a mulher de Ló serviria, para mim, de patrimônio histórico.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-2731426503853102431?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/2731426503853102431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=2731426503853102431' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2731426503853102431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2731426503853102431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2011/03/tropeco-nos-saltos-meco-palavras-nos.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-4450232867676951684</id><published>2011-02-01T18:45:00.000-08:00</published><updated>2011-02-01T19:25:48.648-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>preencho cartilhas, soluciono meus invasios como que por descaso, investigo desatinos à toa. sopro as asas transparentes dos insetos de chuva para não adormecer. desço à rua e conheço um menino solucionado de respostas - me é somente mistérios. me desacata. aprende pássaro no bico, oblitera voos e eu profetizo que se um dia a vida desemboca eu sussurro ele (em cima de samambaiaçu, esse nome que desconheço o gênero). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(estou destreinada com a palavra escrita e faço um filme se for possível fazer um filme sem sinopse).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o menino é Ano, o sombra. habita entremências. o reflexo existe sem espelho. Ano se mexe sombreado de vazios. que ele tem e me absurda:&lt;br /&gt;destranca o mundo pelos achadouros;&lt;br /&gt;tateia saraivadas a céu aberto;&lt;br /&gt;tem uma assadura do tamanho do corpo inteiro só de existir;                                  &lt;br /&gt;e depois me diz bem baixinho, como que quase esquecido: "eu dormo e acordo", sobre o sono;&lt;br /&gt;e diria, se me lesse: "uma palavra não diz eu".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-4450232867676951684?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/4450232867676951684/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=4450232867676951684' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4450232867676951684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4450232867676951684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2011/02/preencho-cartilhas-soluciono-meus.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-4352078423477552731</id><published>2010-12-02T10:59:00.000-08:00</published><updated>2010-12-02T11:05:17.027-08:00</updated><title type='text'>Iahweh</title><content type='html'>Silvana compreende o mundo com lupa – abre com buril o corpo do morto, retalha o coração minuciosamente enquanto confere através da lente. As artérias se duplicam, é engraçado. De repente um coração de boi. Resignada e desimportante chora a morte do homem. Iahweh tinha o seu nome pronunciado regularmente com fé porque era um homem que servia aos pobres e aos ricos, solícito. Mas aí Iahweh durante o sono se engasgara com a própria dentadura e desde então a vida não havia mais lhe permitido maiores bondades. As pessoas de corpos recurvos nas camas chorariam desajeitadas quando soubessem. Silvana legista, excessiva, sedenta de qualquer desencontro é mulher que fatia tudo o que vê, abatedora. Retira agora com a mão esquerda um fígado sem saber que se trata de um fígado e o levanta com as duas mãos a fim de olhá-lo de baixo para cima. Sangues pigam na testa e ela pensa que seria engraçado cegar com o sangue de Iahweh despejado feito um oceano nos olhos, cegueira salgada. Sangues escorrem pelos braços levantados de Silvana e descem até as axilas, ensopando a blusa. Silvana pensa que as manchas de sangue parecem enormes manchas de suor e ri disso. Delgada, atira o fígado contra a parede em nome do itinerário que precisa cumprir. Arranca, um por um, milhões de troços recheados de sangue coisas que lembram minhocas carnes cruas que ela não sabia discernir tanta coisa que ela não sabia como cabiam ali, tão organizadamente. Pensa então tratar-se de uma gaveta sendo aberta, uma gaveta recheada de coisas podres semelhantes a ratões atropelados com tanta brutalidade a ponto de ter sua fisionomia completamente distorcida-mutilada-esmagada e convertida em podridão e sangues que poderiam ser sangues e destroços de qualquer coisa viva. Talvez de um pé humano. Só que essa gaveta era costurável. Silvana pensa em chorar dentro do homem e costurá-lo depois. Fazer de seu corpo um enorme crochê ensinado a moças de família. Cogita que rituais livres de sentido são importantes para a salvação da alma, para um repentino ressucistamento de Iahweh, para que o extraviamento doa menos e soe como obsessão de uma desequilibrada blues. Quando uma formiga sente o corpinho doer a dor é menor por ela ser fisicamente infinitas vezes menor do que um homem? Trêmula, sustenta-se sobre o morto, pega o pau mole de Iahweh – porque pau mole de morto manifesta a mesma vida de pau mole de vivo – e enfia boceta adentro. Lembra a língua presa de Iahweh articulando invioláveis, a língua cicóplica exercendo significados em idiomas incompreensíveis. Regras pronunciadas em terra de surdos-mudos. Espera enquanto nada acontece e continua acontecendo. Nenhuma porra. Levanta nauta, com esforço despeja o homem no frigorífico, seus pedaços caídos pela casa. Vai fumar um cigarro. Talvez seja Mahler ao longe, a sinfonia nº 2 bem distante regendo tudo o que é prosaico e vasto. As tripas na sala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus estava mesmo morto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-4352078423477552731?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/4352078423477552731/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=4352078423477552731' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4352078423477552731'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4352078423477552731'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2010/12/iahweh.html' title='Iahweh'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-4847965102545524839</id><published>2010-10-15T03:22:00.000-07:00</published><updated>2010-10-15T15:25:41.363-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>TEORIA DO NÃO ENTENDIMENTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(baseado em Avalovara, mitologia, bíblia, Magnólia, "Instruções para subir uma escada", tela de Moreau que vi de relance e em nenhuma dessas coisas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aguardo a chegada dele. Toco, com o indicador, a superfície do bolso, sinto a ponta da faca escapando pela abertura, ergo possibilidades por desacato, vocação imprecisa, inútil desperdício: balés executados por mulheres de sinuosos trajes compostos por feras douradas, anjos retorcidos, Tomé à esquerda cego como um Édipo que duvida – seriam trajes ou retábulos de minhas cerimônias sacrilégicas? A minha vocação é o excesso, Salomé dançando em nome de um merecimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espirais circunscritas em quadrados me atravessam. Insuspeito do que sem vida insinua-se. Eurídice arrasta Tomé para o Hades – divertem-se. Tomé, cartesiano, impermanece e Orfeu lhe baixa: o quadro de Moreau é para mim uma fotografia, a pego nas mãos e sinto o homem transmutar-se, ramificar-se como se de mim que sou a mulher em pé, os olhos fechados, na verdade lhe segurando a cabeça. Orfeu não me olha.  Ao mesmo tempo, a mitologia com suas imensas ramificações que vagamente desconheço é a minha transparência. Sou lúcida do que desconheço. Desejo escrever ESPIRAL em sânscrito, incorporar línguas de linhagem antiga. Eu mesma antiga, lítica. Arrancam-me a palavra não dita e eu estou esgotada do que é possível de ser dito. É preciso recompreender os sentidos – passo por longos espaços temporais de aridez para que não sucumba, e cega, alimento ouroboros. Ouroboros sou eu, oferecida como perturbação precisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que falo é de ausências. Se ele chega, lhe aponto a faca, sorrio como quem esconde um segredo – verifique as crenças ou lhe arranco as falanges, Tomé, depois as mãos inteiras: eu cerceio tudo o que for de ti para que creias em meu corpo tomado por espirais, meu corpo sempre retornando e recompreendendo, referindo-se a uma beleza antiga e mutilada. Tomé, cego e sem mãos, me lembra um menino que conheci na infância e que nunca mais poderá tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu recorrente, repetente, volvendo, tocando a faca, compreendendo que Tomé não tem me sido outra coisa que não essa ponta que me machuca os dedos, contenho o pouco sangue na boca, esqueço como é estar machucada e toco a faca de novo, eu não compreendo uma faca, passo horas olhando a fim de compreendê-la como passo horas para apreender a normalidade de uma escada, leio Cortázar, tropeço nos degraus porque de repente esqueço do que se trata descer e subir e permanecer, o pé vacila, a qualquer momento Tomé chega descrente porque não toca a si mesmo: sopeso vilanias, fico à revelia contemplando como se a um objeto que tenho em mãos, que toco com a falta de hesitação que toco a faca: um diamante em estado bruto. Na lâmina, vejo o rosto distorcido de Tomé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro um livro e não entendo nada, me afeiçoo a ele justamente por isso. E juro que&lt;br /&gt;a hagiografia inscrita no topo do livro me faz considerar cometas. Ciclópica, eu teço estratagemas, prometo a Tomé que serei bélica, em sua ausência me desordeno, luto contra o desejo burro de acreditar em qualquer coisa acontecida no escuro, hordas bárbaras contidas nas retinas que foram arrancadas pela descrença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repito palíndromos como se querendo encontrar respostas, mas a coisa mesma repetida adquire proporções majestosas. Como uma cirurgiã, penso em abrir palavras com faca, mas acontece de as palavras só poderem ser abertas a sopro, manipuladas a acidentes tridimensionais. Ao invés disso, espero, enumero mentalmente as minhas ações desacontecidas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomé de retorno incerto não me desola à medida que não me guarnece, permaneço somente incerta: a faca dentro do bolso e alguns lampejos de retornos. Absolutamente nada acontece. Não aguardo e não repouso, fico somente suspensa na primeira pessoa. De repente o homem chega e eu retomo o que lhe dizia no momento em que ele desceu pelo ralo saiu pela janela assumiu sua inconstância pesou uma asa de barata acreditou numa cãibra piscou a ausência de um olho adquiriu a fluidez de um líquido que não é água choro sêmen perfume e nem nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-4847965102545524839?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/4847965102545524839/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=4847965102545524839' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4847965102545524839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4847965102545524839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2010/10/teoria-do-nao-entendimento-baseado-em.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3443932812680575827</id><published>2010-04-04T14:39:00.000-07:00</published><updated>2010-04-04T14:49:37.318-07:00</updated><title type='text'>Entre atos de uma peça grega</title><content type='html'>Desejo saudade-águas-escuras às seis da tarde sem que eu tenha de confrontar comigo anoitecer solstício criar imensidões do ínfimo como forma de salvação precisa: bordando uma asa de libélula uma asa preta de biguá escamas de peixe urdiduras com salamandras; dói observar existências e não falo de saudade angustiada – que essa é a que o criador sente pelos primeiros seres da criação. Falo de uma falta que é mais sortilégio, ininteligível a ponto de eu escrever lenta como uma aranha tecendo. Eu que não escrevo, teço. E gosto da casa toda silenciosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A saudade é uma espécie de vida querendo alargar-se dentro da vida maior, acordei pensando de pensamento curto. E é perigosíssimo ter mais de uma vida porque é de se morrer múltiplas vezes – e é tão indubitável morrer que talvez a morte seja o nascimento dentro de um nascimento arcaico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a falta? Agora sinto uma falta que me comunica a ponto de tornar-se ilegível, abstração entre mulheres pintoras, eu morta-viva tomando chá entre damas às – malditas – seis da tarde. Que sou eu se aproveita? Sinto uma falta tão solitária e a suporto tão resignadamente tecendo uma teia levíssima, porém mortífera que, sim, é a minha mais profunda desordem. O que em mim é atalho? A solidão. Que faço de perguntas que sei as respostas? As escrevo para desafiar o meu mais indeterminável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um nome em mim e é em silêncio que o penso – sem palavras, sendo o meu indeterminável. Repito o nome a ponto de perder o primeiro sentido, toda corrompida pela palavra. Há um nome e pensá-lo é cica e nunca o amor foi tão doce de raízes suspensas em liberdade. Escreverei assim: do pensamento direto para a folha, sem intermédios de voz: que a minha escrita precisa ser primeiro, precisa vir de antemão. O que escrevo veio antes de mim e cheira a mofo – eu nasci de uma palavra e é com uma fúria harmoniosa que a olho nos olhos: a palavra é áspera e vim ao mundo toda incongruente, pesada, ancestral, bicho de pontas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é bicho de corpo. Eu preciso é sair deste invicto barato que é fazer do corpo refúgio e ser sozinha como resposta. (Aí sim poderei aceitar a ti, os tu, todos que és, o teu imenso silêncio). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão é de uma alegria tão eminente que, se eu morresse neste instante, morreria prestes a estar alegre. Eu estou prestes a estar alegre. Solidão é falta por si só – há algo mais solitário do que escrever ao lado de uma máquina de escrever quebrada? A máquina ultrapassa o valor imagético e é apelo do toque. Quanta ingratidão há na máquina quebrada? Estabeleço com a máquina um estranho grau de pertencimento: não posso dizer que ela é minha como digo com a minha cama e os meus sapatos. A máquina independe, espaço à parte do cômodo. E eu é que me nego a escrever sobre uma máquina de escrever que nem sequer serve para o que diz. E esse é o meu desafio ao instante suspenso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou sufocada pelo ar íntimo, ocupo-me de grandes castelos e grandes construções para amenizar o meu mais indomável que é sublime, embora austero e de urgência difícil por natureza. Só o que está nu alcança a si próprio, como água-viva no movimento de abre e fecha – eu envolvida por uma membrana leve que quase inexiste, a epiderme finíssima em estado de levitação, eu medusa delicada e de toxina possível, eu super-formada por água, eu sendo o meu próprio nome vivo. Eu cheia do meu próprio nome vivo. Vês?  O estar nu é o ser-se se transformando em é-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não se enganem comigo – não sou microscópica, faço rebuliço e lente nenhuma me pega mais. Escapulo. Vivo constantemente em macro. Chego perto porque, para estar longe, é preciso força e eu sou mulher recém-nascida embora a minha raiz seja ancestral: necessito do espanto. É de matéria que milagrosamente existe o que eu falo. É de corpo o espanto insuspeitado de mulher recém querendo apropriar-se do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia, eu e a minha mãe estávamos comendo pipocas no jardim. Eu e ela gostamos de comer pipocas-quase, que é aquele quase-deixou-de-ser-milho que normalmente fica no final. Já olhávamos com tristeza o fim do susto alegre que era comermos pipocas juntas, quando ela toda decidida jogou um milho no jardim e disse: “Vai nascer pipoca!”. Mulher apropriada do mundo é isso. Desconfio que a intenção dela era me fazer alegre e conformada com o instante seguinte em que sairíamos do jardim para dentro da nossa casa. E eu juro que fiquei alegre, embora alerta por não puder plantar pipocas que nascem explodindo do pé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que absurdo incomunicável, o da escrita. Há o que dizemos e também o que achamos que não dizemos, embora digamos. (Construção pouco original essa que acabo de fazer). Eu preciso escrever para ser inquieta livre do heroísmo. Pensei agora mesmo em parar um pouco porque escrevo a mais de cinco horas e não canso. Escrever é alfa, exige do espírito. Odeio escrever quando não quero dizer nada e poucas coisas me parecem mais insuportáveis. Agora comunico; que dizer eu não posso porque nasci muda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou extasiada. A pintura é ocre. A vida é ocre e não me sabe ser outra coisa. Adão é ocre e eu escrevo rupestre também ocre. Toco a superfície da rocha como se estivesse tocando o meu mais incomunicável e nela faço pinturas – minha incomunicabilidade com o mundo, o meu contato com o que me cerca, improvisando sinais de existência: como faço deste exato momento em que vos falo, em que hipnotizada vos falo e vos grito sem gravidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há precipitação. A constante metamorfose me fascina: também há em mim o devir e os caminhos da libélula aquática até se tornar voadora. Há, em cada objeto, a precipitação em sê-lo, a sua tendência aos movimentos bruscos e suaves, o caos contido estancado como uma ferida próxima a um olho de lince. Entenda-se bem: humanizar os objetos é estar à beira, é inquirir deslealmente; expor a tendência das coisas ao movimento não é humanizá-las – também os astros se movem livres da respiração. Vejo suscetibilidade. Não sou física, estou no limiar da impossibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O momento agora é catártico: idílica é a alma e eu escrevo de corpo. De o corpo para o corpo: é com o corpo que sou captada, seja por meio dos ouvidos ou por meio dos olhos para os que apreendem em silêncio. Isso se chama comunicação entre iguais. Um igual reconhece o outro no contrafluxo. E há um abismo entre um homem e outro por eles serem duas continuidades sigilosas do devir. Que todo corpo seja O Corpo. Que o devir seja lampejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os últimos instantes mistificaram-se em sobrevida, cometi a delicadeza de distraída, encontrar um botão bordô pequenino no chão. O que eu escrevo é de botão: fica-se sem saber o que fazer com a coisa, a coisa que não serve para acender uma lâmpada. Escrever é a identidade de que somos precisados. O botão é metafísico. Pego o botão. Eu não alcanço o botão porque não sei o que fazer do que é material sem pedir nada em troca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto do meu mais longe – termino onde a palavra recomeça. É preciso algum contato que não seja de carne. Hoje cedo vi uma moça belíssima, o rosto de uma harmonia profunda: a moça usa o corpo como exercício de sua liberdade. Exercito a minha liberdade mais recém-descoberta com a escrita: codifico nas paredes, nas pedras, nas superfícies rígidas para lembrar que eu também sou rigorosa de nascimento com a testa franzida; que sou um homem antigo que, de pedra em pedra, escreve a própria lápide em ocre, delimitando a própria liberdade de selvageria permeando os tempos do domesticável. Eu só escreveria um livro se ele fosse todo rascunho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me ponho escandalizada, confesso. Confesso assim: confesso-me. Escrever isso é complicado porque eu não sei onde termina e não consigo adivinhar, eu estou é ao acaso. Crio essa personagem sem rosto e sem um nome porque a minha história acontece no escuro. A minha personagem é um peixe abissal e agora enfrenta o espelho – é obrigada a olhar a luz do próprio corpo. Que adaptação é a do escuro? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida à noite é um avesso. Gosto de captar luz, pensamento lhano, preâmbulo, amanheceu em dois tempos. Cortázar diz “Piensa en esto:”, meu coração arrepiado em escuta. Esto:. O nada entre pontos. Esto:. Obsesión, meu coração arrepiando. Esto:. Escuta com os ouvidos mais atentos do mundo aquilo que digo. Esto:. Ouve o meu silêncio que nele há uma sequência que perdi. Há uma descontinuidade. Expresso quantidade pelas vezes que repito palavra. Se são duas palavras, expresso palavra palavra, se são infinitas, não alcanço a palavra e não pienso en esto. Abismo abismo. O número dois sendo dois dois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu quero escrever, mas sinto sono. E é preciso força. Hoje dormirei esgotada e só então sentirei clareza. Por enquanto é escuro, falo inteiramente do meu avesso – é das profundezas toda e qualquer liberdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca me doí tanto. Estou consternada como que para lembrar de alguma outra coisa. Trata-se de uma dor seca: não se dá para chorar com ela, nem pra xingar, nem para escrever poemas. Não se trata de dor alicerce, dor escada; acho que é mais uma dor chão. Não há irregularidades. Aliás, a dor é tão plana que é a única perfeição que já vi na vida – é a própria criação de Deus revelando-se entre atos. Tenho pudor desse contato pleno com o nada: eu quero o tédio, eu sou de inércia inquieta. O canto do passarinho me emergencia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso seguir à risca: bicho do mar me enleva de mistério. Desde as primeiras escrituras naufrago e adquiro conchas, escrevo com o sangue-ocre do primeiro habitante do mundo – e o sangue é barro, meu Deus. O retorno do homem ao homem, contato máximo de argila. Eu coloro pedras. As pedras me inundações. Mar não me diz outra coisa senão abismos. Em nome do embrutecimento, permaneço betume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre atos de uma peça grega, eu encontro Deus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3443932812680575827?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3443932812680575827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3443932812680575827' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3443932812680575827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3443932812680575827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2010/04/rupestre.html' title='Entre atos de uma peça grega'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7648456161272837256</id><published>2009-11-07T06:05:00.000-08:00</published><updated>2009-11-07T06:08:15.281-08:00</updated><title type='text'>Crisálida</title><content type='html'>Busco por meio da palavra isto de inventividade, de prosa nas pontas dos dedos, do pior da saudade – o difícil é saber que, amanhã, ontem será anteontem. Não conheço o mundo. Hoje olhei ponte, esse artifício estranho no jeito em que termina. O fim é sempre mais um começo. Vertigem: amor é arrebentação. Inventividade e distorções nas formas que amo: gravação direta em metal feita com instrumento cortante de ponta, o buril. Amor impessoal auto-explicativo: gravura, para mim, auto-explicativa do século XVIII: gravura em metal retratando ferramentas para gravura em metal. Prosa nas pontas dos dedos, sim. Tudo se insinua. Encostei o queixo no mármore e era frio. Sou distraída, falo muito, sou melhor do que metal. Sero te amavi. Haverá um dia em que eu cavarei, farei força, riscarei, irei às investidas, persistindo na gravação da minha memória de um tempo – haverá um dia que não hoje. Espero bem. Sinto fome melhor ainda – o mundo me conheceu voraz. Agora é de memória não precisada que penso: o meu filho chamará Cristóvão, por causa do São Cristóvão que nunca vi, por causa de 1423.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dispersão da ingenuidade atemporal – tenho me permitido aprender com os bichos porque bichos não fazem livros. No século XVII corri atrás de uma vespa, veja bem, corri atrás do que voa. Espiei a vespa parar sobre uma folha de árvore e ficar quieta, dada como morta. Mas a experiência precisa ser continuada: depois de um século seguindo vespas, formigas e abelhas, consegui algo que não fosse perder o bicho de vista: espiei a morte. E isso é de uma intimidade tão grande que é bonito e só serve para ser esplendor. Sobre dor: a gente esquece como é doer. Sobre intimidade: intimidade, para mim, é de uma grande coragem porque eu tenho medo de romper o peito das coisas. Encontraria muito mais coragem no século XVIII, no entanto. E apenas ainda mais tarde eu voaria do que corre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minutos – entrevejo docilidade que é mais como uma saudade que, coração em riste, promove aceitação e meio-olhar: se atendo sempre a uma das metades de um rosto, na dúvida de qual metade atar primeiro em si. Dom bonito este de ficar em dúvida. Queda pouca a de não amar a completude de um rosto. Que vulnerabilidade é a do rosto? A materialidade é milagre de repente. O rosto é repleto de impensável, de recortes – rosto escandaliza, olha, lambe, cheira. Eu gosto da matéria devido à minha capacidade de amar, com amor febril, a espessura dela. E olhar rostos me espanta porque é – assustadoramente – olhar o próprio reflexo um pouco distorcido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domingo à tarde vou ao supermercado comprar maçãs. Prefiro as nacionais às estrangeiras. Os estrangeiros fazem maçãs mais bonitas, nós fazemos maçãs mais gostosas. Um menino, ao lado da mãe que empurra um carrinho de compras, tenta ler um panfleto que fala de palhaços. Primeiramente um panfleto, chego perto dele e então é um panfleto de palhaços. O esforço é grande e o menino cria dicionário próprio. A mãe anda depressa extrato de tomate milho enlatado palmito depois as pizzas congeladas as malditas pizzas que o Ricardo come e mais leite feijão arroz farinha de trigo manteiga sal e ovos e frutas que a garotada precisa comer para crescer saudável. O menino, lendo enquanto anda, aplaca o desespero gradativo – diz cada vez mais forte “Le”, abana a cabeça, bate o pé cada vez com mais força no chão, aproxima o panfleto do rosto como se fosse um míope, diz mais uma vez “Le”, grita um “Ca” desgovernado, sente que venceu a palavra e fala miudinho levantando seu porta-estandarte de guerra – “Leleca”. O menino anda, sem tirar os olhos do papel, cada vez mais depressa para acompanhar a mãe. Adio as maçãs pelos próximos oito minutos. O menino lê “Leleca e Peteca”, a mãe não ouve. Mas o preço do feijão subiu daqui a pouco ninguém mais vai poder ter feijão em casa isso é um absurdo é um abuso depois eles reclamam quando um pai de família rouba saco de feijão para poder dar de comer aos filhos. O panfleto, além de ser de palhaços, anuncia um circo. Empalideço. É como se em mim um espelho oculto estivesse a ser descoberto – sei o minuto exato em que empalideço ou fico corada e sei como fico pálida: toda persona camuflada de breu. A vida no circo é viver boquiaberta, sempre invejei engolidores de espada. O instante torna-se atonal e eu não o compreendo, eu que sou toda clássica – o instante rompe comigo. As melhores maçãs ainda não foram feitas, as melhores maçãs estão heróicas neste instante por ainda não terem sido inventadas, por ainda não terem entrado em contato e se dado conta de sua própria adstringência. É tão natural e é tão sem medo. Choro diante das belezas que não são íntimas, que me visitam de vez em quando, que me utilizam de questão. E não sei se as utilizo de resposta, mas acho que não: eu choro é diante da coisa exposta de tão secreta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegamos ao grau extremo e indomável de aceitabilidade: aceito o menino a ponto de me espantar com a sua existência. Eu e o menino. Ele se espanta com as palavras, é um designado, tem desejo rente ao corpo – o menino é intransponível e eu o vivo no aqui e agora. Só a desarmonia do aqui e agora me acolhe. Que fazer da lucidez, deste medo de ter um nome? Que fazer de ser gente? Ser gente é ser esta angústia? Como escrever um lince? No sentido de forma, o ovo ou a galinha? Borboleta chora quando sai da crisálida? Quantos mistérios há numa tarde? Quando o nome anula? Como apreender a completude das coisas? Não ser dói? Como empreender a espera livre? Quando a espera não é cobrança silenciosa? O coreto é anunciação ou iminência de vazio? E a rudeza, que fazer desse sentimento desnudo? Quando sair à rua? Como – livre de entonações – explicar a entonação de uma pergunta? Que entonação usou o Deus para criar o mundo? Qual a entonação mais terna para se dizer “faça-se a luz”? Qual dos dias da criação anoiteceu primeiro? – questionamentos urgentes de pecados capitais. De repente pensei em escritos abordando perguntas, outros escritos abordando a primeira abordagem das perguntas, um ciclo perfeito e eterno, mas escrever é de uma exigência sem nome. Escrever é irreconhecível, a própria escrita é fagulha que não cabe, guizos do que transborda, tautologia dos últimos oito minutos aglutinados em instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Necessito da salvação e ela precisa vir depressa. Que me entendam bem: sou alegre, saio à revelia. Liberdade eu aprendo, nasci com a alma irrefreável, minha garantia de que, sim, talvez esteja viva, caída na vida que corre solta. A minha liberdade versus a liberdade da vida entram em conflito e trata-se de um conflito que me deixa órfã. A orfandade é geradora dos meus contatos com as estridências e de meus extravios desesperados, porque é por meio de meu contato com as estridências que experimento ruínas – já eu disse isso a um homem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o homem: algumas peles são convidativas à gravura em relevo. Outras peles são boas de sopro. As peles boas de sopro ardem fácil. As boas de gravura em relevo erguem sinuosos castelos como quem ergue a voz. O meu estado de permanente iminência tem me tirado o gosto doce da boca para guardar – a sete chaves – o gosto na memória, e é aí que, para não esquecer, escrevo numa das mãos: ter um relicário é completude, amabilidade de vazio, existência toda sendo. (E, como nunca, me parece que escrever na pele é vaidade de mulher-relicário, graça de mulher que desmorona pesada). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em contato com o homem – há mistério nas visitações e há o inesperado. Quando chegaste com o intuito único de te esvaziar, contemplei teu desapego, te reparei minúcias e te esculpi em mármore. Não fiz os teus olhos de grandes oportunidades, de espessuras delgadas. Expliquei falando baixinho e em tom alegre que não há cegueira em ti, mas que tens o olhar desabitado. Disseste que preferias ser sombra ou a “Mulher com gravata preta”. Eu disse que não poderias ser a pintura de Modigliani porque a tua expressão era mais nebulosa e tua boca era menos pesada – uma boca que quase flutua em um rosto. E disse que não poderias ser sombra porque a sombra é uma ausência sempre menor do que a tua – independente de a sombra ser de uma planta rala ou de um arranha-céu, o importante é que o tamanho da sombra não mensura a ausência da sombra. Aí eu esqueci as retenções e soltei os cabelos. E tu me disseste que, para certas visitações, não há alento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem compreende bem quando fuma cigarros com força. Posso falar com o homem quando quiser, ele parece ouvir. Em pleno cansaço de ser gente ele me deu um caderninho de desenhos. (Para mim tanto faz dizer que ele me deu ou que tu me deste). Gosto tanto da idéia de ter um caderninho de desenhos que não desenho no caderninho, ele serve para olhar – meu amor impessoal pelo vazio.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem é Babel desmoronando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu soubesse desenhar estaria suprida e talvez não precisasse escrever. Queria poder desenhar e dizer depois, enfeitiçada: “Só sei falar assim”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando menina gostava de desenhar no escuro, fazia disso liberdade para ser. Mas não, desenhar no escuro é mistério duas vezes: dos traços incomunicados – sim, tenho consciência de que escrevi “incomunicados”, sim, é isso mesmo, quer que eu grite? Vou gritar: INCOMUNICADOS – e do escuro. Eu vivenciara o ilegível superior a uma mulher dizendo que viu Nossa Senhora. Não desenho mais por causa da mania de enfeites, por causa da mania de não me conformar com a obra concluída, de não acreditar na conclusão da obra, de buscar transpor a obra ao inviolável de ser uma obra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem inspira: tu deverias colecionar desimportâncias, diz. Expira: faço poemas por pura expiração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em nome do desafio, não termino. Não tenho o intermédio para despedir palavra. Que intermédio é preciso para despedir ocultismo? Só paro quando estiver árida, que esse estado eu conheço e não é de grandeza difícil. Só uma terra devastada por uma bomba nuclear está livre dos acréscimos: terra fadada, século XXX. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É disto tudo que estou perto: da beleza como risco. Não falo de estética. (Coisas de peixes, palavras diminuindo em tom de segredo, algo de ficar perto do chão, uma maçã em algum lugar, é que não lembro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No silêncio atravancado intervimos sendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não termino, escamoteio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7648456161272837256?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7648456161272837256/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7648456161272837256' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7648456161272837256'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7648456161272837256'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/11/crisalida.html' title='Crisálida'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-5407097933756779649</id><published>2009-07-25T18:05:00.001-07:00</published><updated>2009-08-17T16:55:24.614-07:00</updated><title type='text'>'Por una cabeza'</title><content type='html'>A minha escrita é das alturas. Menor propósito: nem queria palavra. Os afastamentos me põem na criação do mundo – não desejo criar, o que desejo é vagueza maior, o nome não satisfaz nem o meu desejo e nem o nome. De aparência fico com o significado do que já existe - olhos de lince - o negócio é não significar, não aparentar, entende? Acho importante falar do tempo. Vento sem que se diga vento nós deixamos mesmo que vente que faça tempo bom e sem nome. (Nós somos sem prenúncios). Esfomeado sem que se diga fome. Pior, sem que se diga comida – desnomear e comer sendo a própria boceta o prato vazio que se apresenta desmanchando na boca. Comemos cheiro, entende? Lambemos prato, comemos madeira, cheiramos reboco, cutucamos reboco e ele cai. Para a Luh: louca. A Luh rememora desnomeando os fatos da gente: parece até que vamos derretendo, surgindo líquido fluido tudo muito gozo, dá até para sublimar. Luh desenha manto, segue todos os passos e procedimentos da criação inteira: Luh desenha costura veste manto porque é inefável arrancá-lo posteriormente e parece até que a alma é que foi arrancada, toda morrendo. Luh desenha arranques, efetua-os, suporta força, dói com sangue e nem grita – morde manto. É muito íntima do tocar no mundo, de uma sensibilidade voraz além-mar, super boba, de uma bobeira supersônica. A posição, nós variamos: confortável é o novíssimo, dá para refletir nas variações: v a r i a m o s, e depois va ri amo amo amo amo ssss.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curto som de s. Curto som. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(De hoje em diante, novo comprometimento – prometo só gastar do espírito quando for, além de extremamente necessário, de uma beleza também necessária: e falo da beleza feinha. Luh exige muito do espírito, consome feito uma lagarta dentro de uma fruta. Por fora, sou de um luxo intacto, parece que nasci solto na vida, que surgi de um movimento sucedido por movimentos cada vez mais amplos, astuciosos, perigosos e furiosos, que nasci trapezista. Veia trapezista coisíssima nenhuma – quando eu nasci precisei de uns tapinhas para chorar. Pela primeira vez eu não sabia como agir diante da vida em seu estado mais bruto. E isso foi tão sagrado que eu nunca mais deixaria de me comover com o estado sentimento bruto das coisas).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É preciso alagar-se para, de barquinho, fugir de si. Luh prefere alagar-se e fugir montada em mim, para nenhum sacrifício meu e total letargo de nós dois. É difícil ter uma tarde muito boa e depois voltar para o próprio nome. São também difíceis os caminhos da tarde. Eu respondia pouco. Dois homens. Um homem que sorri e ri como menino, sabe, queria rir e sorrir daquele jeito. O outro também parece menino, só que diferente – o último se importa que digam que ele é feio, por exemplo. Ah Luh tanta mácula estigmas de gravura o corpo machucado e no entanto isso tem me machucado deixado nódoa tem recriado instante brando (o que está machucado machuca em defesa?). Quando eu fico muito calmo é de sobrevida. Quando eu me machuco, o meu corpo bate forte porque o meu coração deixa de ser um mundo remoto e confessa que se acontece – o quê? - surge instantaneamente nele uma expressão bizantina. Preciso me contar e contar às observações que faço com tranqüilidade. É com tranqüilidade que encosto a minha cabeça no teu ombro, que ponho os cotovelos sobre a mesa, que perdôo a minha deselegância sempre querida, recolhida, discreta, sempre merecida. É com tranqüilidade que – desastrosamente – quero bem a minha inserção muda, as tuas mãos insepultas, ao teu ventre livre. Os alvos, Luh, vês? Parece tão nítida a delícia que somos a putaria que fazemos onde quer que estejamos já que não nos importamos com locais públicos e pessoas desconhecidas e pessoas aparentemente silenciosas e pessoas todas misturadas. A gente toda daqui mete na tua ou no teu e eu acho legal meter no teu ou na tua ou no teu e na tua. E também porque não choras, ainda que eu te deixe – nós te deixemos - para comprar laranjas ou ainda que eu me renegue a meter porque estou sem vontade ou meta mesmo quando não queres ou meta com força porque estou puto da vida ou porque sou abundante mesmo e – a ti - em ti nada cabe, além disso - universo. Luzim, o teu choro tem motivo outro: é apreensão-susto, quando nada mais pode ser dito e não podemos ficar em silêncio (para não sermos devorados?). Diria até verter em caridade, ato de gente santa e inconfessável. Disseste em frente à minha casa tem um lugar que vende peixinhos e eu sempre pensei em comprar uns peixinhos para soltar nas poças de quando chove e eu disse Luh que idéia estúpida essas poças secam não são como os rios que não secam nunca e respondeste que sim as poças secam e que soltar uns peixinhos lá seria motivo para não querer que as poças secassem e que se houvessem sete peixinhos sete seriam os motivos para que a poça não secasse nunca porque os peixinhos teriam filhinhos e os filhinhos também iriam querer ter filhinhos e todo filhinho teria outro filhinho já que não há nada mais para um peixinho fazer numa poça que não sejam filhinhos e também nadar porque um peixinho e um peixão e um peixe médio sempre nadam. E que nós também nadamos, porque nós ficamos sempre com nada e não sem nada, então nadamos, ficamos desequilibrados e talvez pensando em algo como peixinhos ou poças ou pensando em nada mesmo, que é literalmente nadar.    &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luh, os teus amigos da paróquia, lembras? Um Augusto pequeno e um Arturo maiorzinho, meio surdo. E também aqueles outros que não me lembro o nome, meio inexplicáveis. Eu escutava as tuas músicas na pura interpretação do Carlos Gardel e tu sempre ficavas em desencontro, inocente comigo, recém-amanhecida, boquiaberta e obscena. Aí chegou o dia em que me revelaste o segredo, tu me pediste por favor não escuta mais o Carlos Gardel esse disco é só para ter sem que a gente compartilhe dele entende? Augusto pequeno a Arturo maiorzinho também os outros meninos da paróquia todos eles fugiam à noite em brasa a boca úmida os olhos escandalizados e todos eles comiam-se atrás da paróquia adoravam o perigo e os sangues adoravam cantar como Gardel enquanto se violentavam adoravam por una cabeza porque tudo eles faziam por una cabeza dentro do cu e riam-se sacanas e mordiam-se e escondidos colocavam adereços no corpo todos eles de moças e comiam-se com adereços também por una cabeza atrás da outra por una cabeza pressentindo a cabeça seguinte por una cabeza todas las locuras. Eu disse mas Sus ojos se cerraron é coisa linda essa posso ouvir não posso Luh? Essa é pura "El día que me quieras" e acho tão lindo fico tão às quedas comigo pareço bonito pareço outro que não o meu corpo de migalha meu corpo de desejos leves de invasões rompantes meu corpo salto cru explícito atirado vivo último violento quieto terreno duro meu corpo de tantos inexplicáveis corpos. Sou afável Luh embora eu odeie mais do que ame prometo eu não preciso de muita coisa sei ficar quieto contigo e sei escolher laranjas e sei ser vertical. Sempre se fala no horizonte não é? Não se fala no vertiquê em contemplar o vertiquê em seguir o vertiquê pois quando um homem olha para cima e para baixo e não para frente e para trás não há mais salvação para ele e nem horizonte preciso. Eu sou o homem que conhece a salvação diferente que sabe que escutar Gardel é como ter um pacto de não querer salvar-se porque no lugar em que estaremos a salvo não escutaremos mais o Gardel e nem escolheremos laranjas e nem iremos meter porque estaremos muito ocupados com as coisas do espírito de elevação do espírito de elevação do ser humano do suprassumo da puta que o pariu. Há na tua língua o meu silêncio?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Há no teu silêncio o meu recolhimento? Desenho-te carneiros. És de livro. Desenho-te quantos carneiros quiseres. Carneiros sobre as tuas pernas, carneiros escondendo as tuas veias salientes no braço branco, na tua pele alva, carneiros no que não toco de ti porque a tua grandeza existe, é o que me guarnece e também a tua pequenez de espírito salva: o que há de maior em ti – tua pequenez clara, ser pequena é de uma grande cumplicidade, apenas. (Ficas lenta, te comportas como se comportasse corpo outro, suporta como se de pele falsa, como se de outros poros, esses mais sufocados do que os verdadeiros e anteriores). Eu por exemplo, Luh, desenho carneiros unicamente para não sucumbir. Sucumbir esvazia os curtos espaços de duração e nos deixa com a vida inteira. Inteira é que tu te tens, em instantes é que te perdes. Perdes por desprendimento, por causa desta tua alma que não sabe precisar. Precisar de ti é feito furar os olhos – há espaço, mas por meio dele não vemos. Vemos sem que por entre brechas, vemos por meio da cavidade. Cavidade sou eu meio só comigo e meio com medo de me saber sempre meio só comigo. Comigo invento excessos disformes, invasões contínuas, o que sempre esperei da palavra crucial, as quedas. A palavra crucial não pode ser dita, escrita, ouvida, sussurrada, vivida, continuada, externada, qualquer palavra que complete palavra – quer dizer, só pode ser crucialmente silêncio. E silêncio de dentro. É de silêncio toda provação assustada: a minha solidão é tão silenciosa e diferente da tua, que estar com a minha solidão é feito não estar e é, por isso mesmo, solidão arriscadíssima, memento mori.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Volúpia do não-dizer, Luh, estar sempre diante do nó e sendo o nó, isso de tentar tornar voz, de criar as entonações mais diversas, de dizer o que naturalmente não se diz e parece mais arrancado do que dito, e menos dito, parece que se sofre, que não é feito para dizer, impreciso, que é feito só para ser susto. Tanta coisa vem me ardendo, Luh, nem sabes. Mesmo os movimentos alheios, parecem tropeços em mim (à medida que o meu reconhecimento vai surgindo talvez pela queda, talvez pelo modo desajeitado de levantar?). Lembras-te da OQUIDÃO das tuas criações, do teu vôo primeiro, da tua ausência perdida que era o teu despertar provocado, e sempre que algo provocava o teu despertar, abrias os olhos com força - como faz um sonâmbulo que acorda com um copo que cai, com os dedos frios da mãe – e os teus olhos abertos estavam diante das apropriações que as coisas faziam de ti, e eu gostava de ver, sabe, gostava de me colocar escandalizado e de te buscar nas coisas que eu via. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho sido muitos nos últimos meses, todo de grandezas múltiplas, aceitando a tua loucura. “Aceitando” não, porque quando nós pensamos em rebelião, a nossa rebeldia cresce, a não-aceitação cresce, mas na verdade sabemos que não nos resta mais nada a fazer e ficamos quietos, aceitando. Sempre reconheci uma pessoa que aceita pelo nível de reclamações feitas – quanto mais o sujeito resmunga, mais aceita. Então prefiro dizer que tenho convivido de modo insuspeitado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livrando-me da Luh para ser sossego: no princípio nós até que temos certo medo pavor receio de ficar a sós com a Luh, mas depois vamos nos acostumando tanto que o mistério torna-se uma falta excruciante – a maior desvantagem de ser mulherzinha misteriosa é esta: que cansa. Como tudo na vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-5407097933756779649?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/5407097933756779649/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=5407097933756779649' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5407097933756779649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5407097933756779649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/07/por-una-cabeza.html' title='&apos;Por una cabeza&apos;'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-8026862509403665105</id><published>2009-04-28T11:03:00.000-07:00</published><updated>2009-04-28T11:11:50.426-07:00</updated><title type='text'>De metal</title><content type='html'>Quis tanto a tua vida – por motivo de coisa ferida e recolhida – e te deixo.  É a nossa vida que precisa disto mesmo: desprender-se para tornar-se minimamente tolerável. E é também que há algum mistério no sofá mofado, nas vasilhas mal lavadas que ainda cheiram a gordura: o mistério do cheiro tem sido tão profundamente a nossa vida, que ela está livre si mesma. Acontece também de na xícara rachada o sabor ficar doido e escapar entre os espaços, sempre as brechas, imagino. Eu amparo com as mãos, fecho as brechas entre os meus dedos até que eles doam. O sangue fica retido, os meus dedos ficam vermelhos de não-ceder, o pilar principal desta casa, das tuas coisas, do que toco em ti, dos teus conflitos que são meus, porque te deixar é também com esforço abrir as mãos – o esforço que não dói e que é criar espaço, esforço que é descanso. Uma gota de suor sai de dentro dos meus cabelos, escorre pelo meu nariz e sim, tanto que isto é esforço que te rasgo na unha no dente e suo para que disto te cubras: dos esforços; que acendo o meu cigarro só pelo prazer de apagá-lo na tua pele, qualquer parte de ti; que todas as tuas partes são arriscadas e eu só consigo desejar profundamente o que fica à beira; que leio todos os teus inventários, tuas anotações, as anotações que fazes pela manhã, a tua última que dizia assim: “É que preciso parar de desejar a mudez, esta que não cessa”, então arranco a tua língua com os dentes: o teu sangue não cabe em ti como o meu gozo não cabe em mim, eu amo o meu gozo que não cabe em mim, e ficas como cachorro mordido, pois achas de uma liberdade absurda que eu prefira o quebrado ao trincado, enquanto acho o quebrado muito mais suave do que estar em pé com o esforço de estar vivo já trôpego, já com a flecha no calcanhar, resistindo para manter-se, e a derrota não consiste em não manter-se, a derrota veio tão antes, veio na criação, no esquecimento, no nascimento do calcanhar que sobra do corpo, não na flecha, o resto é a consequência porque o calcanhar-corpo está livre dos mistérios das demais partes, e na verdade ninguém está isento, não existe alguém tão silencioso que não caiba na mudez, fico tão perdido que imagino um caminho todo assim: caminho, e uma boca que não diz nada além do próprio nome boca e todas essas coisas de uma confusão grande, como dizer? Desconfio muito que efetivamente nunca será dito, definitivamente nunca será dito, não por incapacidade, mas pela capacidade fascinante da quietude, desta natureza que não diz, desta natureza que é sem gentileza, que não pede licença. Esta tua mudez que sequer é pálida, não a desejas, mas não a evitas porque não sabes descontinuar, e eu te falo de outra mudez, e eu não te falo nada, te escuto em blues, falamos e rimos e engasgamos de rir da casa vermelha ao lado, engasgamos de rir e te deitas no chão (coisas de peixes, palavras diminuindo em tom de segredo, algo de ficar perto do chão, é que não lembro). &lt;br /&gt;     Que anseio de escrever coisas lindas: a casa toda quieta. Saber acomodar a visão mesmo que quietinha de corredor vazio. Com certa disposição, escreveria nas paredes para não ver desvanecer. Eu que escrevo nos guardanapos porque são dobráveis. “Todas as coisas são de ninguém”, disseste. Sempre linda e com olheiras, expressão levemente embriagada, mãos muito finas, mãos de morto. E também muito feia quando sorrindo – o rosto desconfigura-se e os olhos ficam perdidos na expressão imensa de. De quê? De muitos machucados, talvez. Os teus pensamentos em altos e agudos, as bonitezas do Modigliani que são os meus prazeres mais ilegíveis. É disto tudo que estou perto: da beleza como risco. No dia em que achar de uma beleza tremenda o que escrevo, não precisarei mais escrever. Preciso sentir vergonha por achar pavoroso – sem a real sensação, posso dizer algo lindo sem que tenha a surpresa provocada por minha mais profunda natureza. É preciso me odiar, digo. Um ódio pouco e intolerável que dá até vontade de sumir junto do que foi dito só pelo prazer de odiar por uma eternidade que nunca é. As pessoas, que são as pessoas? Caras estáticas no silêncio das alcovas. É isso sim. A insatisfação faz com que eu aceite a vida sem oferecer nada em troco. Existir é todo por acaso (mentira). Ah, sempre digo alguma coisa quando na verdade nunca pensei na coisa – por algum efeito de causa, fui levado a dizer, e acho isso um espanto. Deponho contra mim. Espanto: que exultação é essa do silêncio? Criar palavras: para fazer não caber. Silenciar: calar, só que complacente. Calar: ter noção dos inícios, cumplicidade desafiadora. No silêncio atravancado intervimos sendo.                    &lt;br /&gt;  Eu pensava que não fazia imitações, mímicas, por causa da tolice disto. Descobri o contrário: na verdade eu não imito pois a grandeza não me cabe. Sou reduzido às necessidades: um gato é um gato sem que eu precise dizer “miau” ou imitar como se espreguiça um gato. E o meu corpo é muito rígido para imitar as continuidades que não são necessárias. Sempre contemplo de longe. Trago enquanto percebo a tua imitação, procuro o isqueiro na hora de dizer “é isto!”, porque sempre sorris com “é isto!”, e “é isto!”, exige uma preparação absurda para que eu também não me espante com o teu espanto inédito. Algo brinca contigo e fazes cara de quem descobre. Ou és tu quem brinca e tenho medo. Fico desconfortável devido à invasão. Aí saio, penso nos inícios, no recomeço, vou à rua, a revelia toda linda, ponho as mãos nos bolsos ou não ponho, penso em não voltar, brinco de contornar objetos com as mãos, faço amizades com moças para me livrar da tua expressão recorrente. Tu imitas as crianças no jardim, uma dança de gente louca no chuveiro – sempre improvisando com as mãos, uma montanha tão alta que não tem fim, ensaios das profundidades, das superfícies mais rasas aos ventos mais fortes. (Somos nós ou sou eu o urdido a fios grossos de metal?). Imitaste Clair de Lune, disseste “adivinha!”, dançaste ornada como as grandes mulheres e não fizeste mais nada. É exatamente aí que te deixo para não apagar o meu cigarro nos teus olhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-8026862509403665105?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/8026862509403665105/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=8026862509403665105' title='18 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/8026862509403665105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/8026862509403665105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/04/de-metal.html' title='De metal'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>18</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-8386366258404185037</id><published>2009-04-04T09:42:00.000-07:00</published><updated>2009-04-15T13:39:59.412-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Escuto pela quarta vez “Glassworks”. Nunca inteira. Philip Glass tem grande capacidade - para mim - na delicadeza. Sempre que a música está perto do meio, volto para o início, repito os prazeres, fico viciada. Ultimamente estava agindo assim quando triste, pensava em uma felicidade do meio para o fim, a segurava pelas pontas para que majestosamente a minha dor ficasse bonita, delicada como dois segundos de “Glassworks”, e sabe, também ultimamente uma saudade escandalosa tem me feito aceitar com bons olhos o que me é ofertado, tem me feito desejar o livro do Ingres, do Magritte, do Modigliani que estão na última e mais alta prateleira, e eu fico olhando, imaginando o que tem dentro, imaginando que isto é a felicidade. Volto a música para o início, em determinado ponto me perdi, volto para catalogar onde e volto de novo e de novo para lembrar mil vezes com mais mil vezes como é ser feliz nesta felicidade que imagino que é. Temo o fim, oh sim, e isto é o que não costumo fazer sempre: isto sou eu. Não é uma invenção, é o meu mais puro personagem. É uma forma de tirar um retrato, já que o retrato propriamente, eu não sei tirar, por isso não vou sequer dar um título. É quase um diário só que não tão bonito quanto o da Frida. O diário da Frida, além da amargura esfuziantemente bela, não se basta e têm desenhos interessantíssimos. Ontem li alguns escritos da Frida e fiquei espantadíssima, milagrosamente fiquei espantada e pensei qualquer coisa que começava com “esta mulher”, “mulher” sendo um adjetivo todo merecido, tão merecido que voltei a ser uma menina nas teias antigas e tive muita vontade de prolongar o tempo. Frida me fere sem que eu chore. É que a Frida mexe comigo mesmo, tateia minhas estridências e a minha voz soa mais doce, livre dos agudos e leve e muito mansa como se querendo morder. Frida é um absurdo, acho bom que o diário dela não seja acessível, pois Frida é tão inacessível. E também por um grande outro motivo: seria tão imoral ler Frida que seria mais pianinho trepar no meio da rua, em frente a padaria, no meio do trânsito em horário de pico. (Imaginei a cena e ri um pouco da indiscrição). Ler as palavras de Frida é como atar cada parte de mim ao impossível de mim. Fico mulher, fico toda dama, toda erguida e mitológica. Ninguém me monta, só eu me basto com toda a verdade que há em mim. E uma vontade suplicante, sabe, Frida me deixa com água na boca sem que eu esteja com fome, sem que eu sinta o cheiro - fico com água na boca em plena sede e num susto de matar descubro que eu me basto, pois sou uma mulher, e descubro que pinto a mim porque sou sozinha e sou o assunto que conheço melhor - Frida diz o que eu diria se fosse Frida. Vês? Como uma mulher aguenta ser tão grande sem deixar completamente o corpo? Além de Frida em Frida, há Diego em Frida e certamente mais ainda. E Diego é gordo, grande, muito pesado. E há a gravidade das duas sobrancelhas juntas. E não há uma das pernas. A imobilidade alcança até a metade. Só a densidade de Frida pode caber em Frida sem que ela sucumba e fique plena de não-pintar. “Um pequeno estreitamento”, de Frida, tem a alma imensa, sufoca, chega a me empurrar da cadeira para tomar o meu espaço. Mas também suspeito que o meu não-pintar é a minha forma de dizer, só que de um jeito demasiadamente feio e desajeitado. Acho que acabei de colocar a música no zero mais uma vez, oui, vou prolongar este minuto que tem uma nascente muito antiga nas teias mais arcaicas e vou ficar quieta pensando em “Raízes”; reconstituirei o quadro em pensamento. Imaginarei os detalhes sem que ninguém saiba. Adivinharei a verticalidade das raízes, as posições das folhas, os zooms que posso dar ao plano. O que Frida chama de “estreitamento” eu chamo “salvação”, o que Frida chama “precipício” eu chamo “precipitar-se”, o que Frida chama de “amputaram-me” eu chamo “amputaram-me”. Algo acaba de desfazer-se, luto pelo não-nome “coisa”, que uso muito e diz muito. Decidi que não quero mais ouvir a música-coisa. Quero a materialidade-coisa. Voz. Que alguém me diga em tom grave “Glassworks Glassworks Glassworks Glassworks”, e ficarei completamente livre do nexo. Cheia das repetições, suprida em minha fome e alegre em meu exercício. Fico até comovida com a gravidade do tom, ái. Coisa mais máscula-coisa é esta de dizer “Glassworks”, livre de ser homem. Fiquei até silenciosa.&lt;br /&gt;Frida, que sentimento-coisa sem nome-coisa!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-8386366258404185037?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/8386366258404185037/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=8386366258404185037' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/8386366258404185037'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/8386366258404185037'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/04/escuto-pela-quarta-vez-glassworks.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-8245482364892841950</id><published>2009-02-28T15:10:00.000-08:00</published><updated>2009-02-28T19:29:49.134-08:00</updated><title type='text'>Tens-me</title><content type='html'>Tens-me.&lt;br /&gt;: tu és uma piscina, a piscina que vejo; a piscina é bonita e a água balança com o vento, fazendo umas ondinhas. Tudo dá muito gosto. É aí que penso que te preciso. Preparo-me, fico louco de vontade, entro na piscina e ela é rasa. Perco a compostura: ela não bate no meu nariz, na minha barriga ou no meu peito - no máximo alcança o início das minhas coxas. És rasa. Fico desolado, não te cumpro. Encolho-me se quiser contato: para morrer afogado preciso do meu autocontrole, não de tua profundidade. Tu és rasa, mulher.&lt;br /&gt;: tu que és gigante, não cabes em mim. Às vezes penso na profundidade cobrindo o teu corpo e me sinto tão perdida que desisto – rompo com a minha espécie, abandono o bando.&lt;br /&gt;: não falo do corpo.&lt;br /&gt;: o teu corpo é tudo o que vejo de ti. Se morreres, não é tua alma que vejo - verei o que não és mais: teu corpo.&lt;br /&gt;: não sabes nada, enganas.&lt;br /&gt;: não, convido. Achas que atraio e sou desvirtuada, quando só convido. A água te confere e eu não te reprimo dos contatos. Se preferires o afogamento, recomendo o suicídio. Me amas como a suicida ama sua vida: em desespero.&lt;br /&gt;: não te amo.&lt;br /&gt;: vou contar um segredo:&lt;br /&gt;: prefiro que não. :&lt;br /&gt;: exerço cada tarefa que não entendo, enquanto ajo com muita brutalidade. É de minha defesa querer amar tanto o meu peito vazio. Quero a capacidade de amar o meu peito vazio, pois preciso tanto. Ages como peixe fora d’água e é isso o que mais admiro em ti: eu estou dentro, meu bem, eu sou peixe no habitat natural e isso é muito escandaloso, é de correr riscos. Existem os peixes maiores e eu sou pouca. Não é piscina o que vejo: é maré mansa, mas em alguma parte me precipito para reter a paz. É isso mesmo, não quis dizer outra coisa. Não queria ser tão repetitiva, mas não entendes nunca. Nem entendes e nem morres. A adaptação é um perigo. Você espera que eu aja como uma sereia agiria, e eu ajo como uma sereia agiria sem entender nada.&lt;br /&gt;: “preferia não saber, porque agora amo e me contraria: segredos dão margens. E sabendo disso, não me resta senão num passo romper esse confortável espelho laminar, suspenso; ir ao centro de ti, pesando menos, e trazendo comigo as tuas bordas - pra me cobrir com elas até que sobre o pedaço de céu para a constelação precisa. De piscina vira o poço que me abraça, ultrapassa-me de água os ouvidos e divido contigo, naquele instante sem ar e de um silêncio calmo e defitivo, meu devaneio com olhos cheios d’água. Nele ouço do meu peito meu último e agora vão conselho: preocupa-te menos com a extensão, e mais com a profundidade.”&lt;br /&gt;: pois acho que há muito não ouvia algo tão bonito, embora pareça injusto. Achas que só os segredos dão margens? Tens a doçura burra das crianças.&lt;br /&gt;: a tua voz me assusta, vou desabotoando para sê-la inteira – eis que desfaço as demoras das tuas vírgulas para que chegues logo no ponto.&lt;br /&gt;: precisas esperar sem esperar alento. É muito revelador saber que és fácil de ser deixado: uma vez saindo por aquela porta, nunca mais sentirei saudade.&lt;br /&gt;: é por isso que tu não vais: ambos temos um motivo-comum: sair para nunca mais. Como encerrar a possibilidade?&lt;br /&gt;: veja a tua pergunta, ela é doce, mas não deixa de ser burra. Queres um filho? Queres um filho. Ele terá os teus olhos, a tua boca, tua face isenta de quem pergunta. A mesma brandura nas interrogações. Eu não posso ter filho teu porque o odiaria, não suportaria que fosse tão parecido contigo, que me quisesse apenas para melancolia contemplada de homem ferido. E iria protegê-lo. Por algum acaso iria protegê-lo e dizer isso soa grave – sabes que não falo muito de dentro, quando falo, há um enorme segredo. Mas peço que contes a uma de suas amantes, a todas elas se quiseres, estou nas pontas para que elas fiquem no centro, o barco vira e eu vou primeiro, podes até passar a noite fora com uma delas, mas o filho, queres de mim, queres que ele tenha meus dedos compridos, que tenha minha mania de dar nome as coisas e que, no breu, olhe o breu como eu olharia. E até a expressão triste e funda que tenho enquanto durmo. Tu queres o meu relance no filho, não as feições. As feições serão tuas, mas no escuro, no toque dos dedos longos, quando ele vir um besouro e estiveres apressado, quando o puxares pela mão para que venha logo, quando o olhar depressa para repreendê-lo, chamará a mim.&lt;br /&gt;: não&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-8245482364892841950?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/8245482364892841950/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=8245482364892841950' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/8245482364892841950'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/8245482364892841950'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/02/tens-me_28.html' title='Tens-me'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-1188714409828540982</id><published>2009-01-27T19:27:00.001-08:00</published><updated>2009-01-27T19:36:12.647-08:00</updated><title type='text'>Cervical é tão Perfumável</title><content type='html'>&lt;p class="postBody" style="color: rgb(119, 119, 119);"&gt;Dia desses ouvi que sou muito para fora: é sempre como se algum órgão afrouxasse para fora do corpo, através da cavidade na cervical que é de nascente antiguíssima e ficasse na superfície dele mesmo, observando, pulsando, como o outro órgão que toca no enterro de uma criança: tudo sem muita estridência, uma delicadeza mais justificada pela morte do que pelas patas de formiga ou pelas formigas caminhando na superfície de alguma coisa, do que pelos contatos. Ouvi assim:&lt;br /&gt;- Lalisa, você é muito para fora...&lt;br /&gt;E, desde então, venho pensando nisso por falta do que pensar, um pouco. Penso nas coisas inteiras, sem transpor, atar, inquirir. Apenas amparo os meus personagens antes que eles se transformem em esperança e nasçam e saiam de mim pela coluna cervical e brotem me deixando rodeada de flores como em velório em jardim em cantos de vida nas retenções das aberturas. Tudo é relicário. Algumas aberturas são nascimentos. Outras indicam relutâncias futuras e futuros incidentes. Cerzir todas as partes de mim para que nada nasça de insuspeitado – essa é uma de minhas ocupações –, a oração servindo de linha e meu corpo servindo de parte ornamentada à espreita, beleza de graça por medo, trocozinho completo de incongruências, qualquer surpresa veio de dentro. Tudo é “alguma coisa acontece no meu coração”. Tudo é “completa tradução”. E tudo isso evoca o que guarnece algo em si já insuspeitado, quê-sem-nome como o universo, pois se precisa ser tanto tanto tanto mulher delgada para fugir dos inícios de alguma coisa sempre impossível. Tentei escrever uma carta, mas o que ficou impresso nela foram traçados ilegíveis. Tudo o que digo dorme e por isso aqui se fala baixo; não se acorda o rei quando se é servo. Não se acorda o rei quando não se é o rei. De qualquer forma, sussurrando, eu queria escrever mais solto porque a escrita da carta é engrolada feito macarrão quando pende para o erro. Assim, eu serei sempre acusada de estar além-mim, e o meu escudo, todo feito de palavras, irá ruir em formato de caracol. Ia escrever um despregar de mãos, coisa suave à toa, mas me ocorreu o perigo de despertar o adormecido e o perigo de não saber escrever despregar de mãos. Como se escreve despregar de mãos? E de corpos? E das coisas que na superfície foram grudadas? Com macarrão grudado, não há chance, acho melhor enfiar a cara no prato e não tirar mais os olhos dali – os olhos pousam e parecem fechados, se não fosse pelo movimento da boca e do corpo, seria jurado o sono. Quando a gente dorme, escreve para dentro. As coisas permanecem ali, sem que essas saiam pela cervical ou se tornem sementes. O único intuito é permanecer mesmo, sem tocar, o intuito é saber-se sobrenatural e muito doidinho, como tudo que é friável. Se fosse ontem, eu diria assim: “olha cara me deixaste na corda bamba não tenho equilíbrio mas de provocação declarada deverias ir à outra extremidade da corda deverias agitar a corda para que eu caísse de uma vez porque odeio esse espaço morno na abertura entre mim e ti.” Cair é quente e envolve equilíbrio de coisa caída. Equilibrar-se exige alguma outra coisa menos equilíbrio e mais permanecer. Tudo é muito distante porque sou eu a separação, a lonjura da distância sempre cheia das inundações vindas de mim, de alguma de minhas partes; eu que tenho tantas partes que desconheço os nomes, as origens, as nascentes, as existências. Sei que são tantas e isto basta – não saber quantas, ao certo, me faz desconhecedora daquilo que habito, embora saiba que habito e isto seja um pouco indigno por causa do labirinto existente onde também não sei, pois tudo me parece caminho e esforço. (é preciso arranhar, passar a unha forte, é preciso dar a consistência para que só assim o momento tenha tanta realidade, mas tanta realidade, que até parece existir, já denso de tão improvável). Tenho diversos foras, podendo ser da alma, do corpo, de ambos, fora de cada espessura, como no solo, que sempre leva a algum lugar. Cada fora leva a um lugar talvez mais fora, talvez um pouco mais de dentro. E existe um fora que não leva a mais nada. É o fora mais externo de todos os foras, e é lá que eu estou segundo o homem. Segundo o homem, estou no mais fora de mim. Se for mesmo assim, suspeito que esteja sempre espionando outras espessuras. Não sei por qual constância ele define ser e estar. E não avalio seus métodos – aproveito para me espiar através de um buraco um milhão de vez menor do que uma fechadura. Não preciso de muito espaço para intuir alguma parte minha: imagino, e se imagino coisa diferente, imagino o certo, posto que o espaço é meu e se torna o que eu quiser, automaticamente. Nesse lugar, encharca-se fácil: qualquer ruído é música, uma casa faz parte das grandes obras, fazer silêncio é estar sozinho duplamente ou triplamente, dependendo das aparições. Sou cheia de mitos e mais umas verdades; o Minotauro faz parte de uma de minhas verdades, faz de mim morada sem gratidão e, por vezes, me deixa árida. O resto faz parte dos mitos porque não tem outro jeito. Um dos mitos: o resto saberá quando tu partires. Esse mito foi construído e está inserido nas pequenas obras dos pequenos homens, de pouca fé. Sinto-te partindo pela madrugada que é de noite enviesada. Eu notaria a tua ausência, mas ela aconteceria bem baixinha, para não acordar. Sob leve disfarce eu notaria tua ausência ficando mais profunda como olheira ao amanhecer. Aí eu sentiria muito medo, sabes. E quando sinto medo, fico tão oca de tudo, sem nada de interioridades. Pareço até zen. Ora, vamos fazer uma caminhada – andar horas a fio – sem transformar em manuscrito as folhas e os passos. Vamos fazer resumos de nada, de não-tempo, fazer resumos do contra fluxo. Vamos pintar faixas para depois jogá-las fora, construindo para desconstruir depois. Vamos ao acaso da Desimportância, meu amor, vamos bem. Quase leves. Quase testemunhos. Podemos não dançar só para ter o prazer da dança depois. Quase mobílias, tu cheio de vestígios pela casa que desconstruiremos tijolo por tijolo, para que só reste o teto sob os nossos pés, caído em equilíbrio. Ah, meu amor, a cervical é tão Perfumável que talvez nem seja.&lt;/p&gt; &lt;input name="postID" value="5852592488727508929" type="hidden"&gt; &lt;input name="blogID" value="5208506032053283396" type="hidden"&gt;  &lt;div class="errorbox-good"&gt;&lt;input name="securityToken" value="ITr_I4Q64dkN19K3bFcR1_RRXog:1233113219820" type="hidden"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-1188714409828540982?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/1188714409828540982/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=1188714409828540982' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1188714409828540982'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1188714409828540982'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/01/cervical-e-tao-perfumavel.html' title='Cervical é tão Perfumável'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-1377706462517482612</id><published>2009-01-08T07:41:00.000-08:00</published><updated>2009-01-08T18:34:19.924-08:00</updated><title type='text'>Aquém</title><content type='html'>Acho muito trepidante, as formas do espírito, as moradas; penso que contemplar é mais do que contato: é contato intumescido, é dar algum pertencimento ao que por orientação de si, de não-sei-o-que-represento-agora-ou-desde-sempre está envolvido no espaço de coisa contemplada. Contemplar é recolher um pouco da morada, como o sussurro capta um tanto de voz: sussurro sim, porque compreende na força com paciência, esperar até que o golpe aconteça para que o golpe aconteça livre do ato e pesado na palavra mais antiga. Distender apenas em palavras, pequenos exercícios, abandonar à beira. O ato permanece entre o instante da palavra e o instante que se perde; fosse só o ato, haveria a sensação de estar sempre atravessando sem que por meio das palavras, dos sensos. Um minuto de esquecimento, por exemplo, pode render tantas coisas que não cabem nos símbolos e nem em minha memória e nem em nada e nem nas coisas que não me ocorrem agora (não quero esquecer alguma coisa grande que não foi iniciada, e nisso consiste o...), hoje toquei uma lâmina, sempre achei ter reparado na posição da lâmina, sempre soube, mas por um minuto distraído ou sem palavras e só de ato, passei o polegar na direção contrária. Ardeu muito e fui levada a pensar que dentro dessa ardência cabe o meu polegar. E uns biguás também, e tantas outras coisas. Dentro do meu polegar deve caber o nome de cada coisa, deve caber o que eu quiser, cada evento; alguns eventos até me encabulam por serem tão pequenos que me devolvem de eco – a percepção de alguma coisa que, quase imperceptível, acontece. Ah, como é angustiante ter a própria voz na resposta. Acho que isso é coisa muito longa, para a minha pessoa curta, ou muito boa, para eu que sou ruim, ou muito forte, para eu que não compreendo. Ou não é, para eu que sou. Em um momento guarnecido, sem proferir, listei sem palavras aquilo que és nos números de algumas nomeações:&lt;br /&gt;1:  uma forma de evidenciar meus contatos com o mundo&lt;br /&gt;2:  imagem recorrente sempre que falo dos inícios, dos contatos, dos atritos, do nebuloso, dos biguás&lt;br /&gt;3: o que és&lt;br /&gt;4: quando me faltam nomes, és a falta&lt;br /&gt;5: no meu sono cabem muitos cochilos e alguns despertares. No teu sono, caibo eu, ao teu lado&lt;br /&gt;6: quando tenho os nomes, és a falta&lt;br /&gt;7: quando andamos distraídos, falando aos nossos celulares, queremos mostrar a verdade deles&lt;br /&gt;8: olhos de comboio, chuva nas terras, sombra de nuvens, promessa&lt;br /&gt;9: improvisos de recolhimento e sombra e o som da queda do fruto na terra, porque ninguém lhe observou sutilmente a ponto de perceber&lt;br /&gt;10: o que em mim, não entende, percebe e finge de morto, atraindo o silêncio&lt;br /&gt;11: carregar números de significados, para que seja uníssono tu e teu íntimo, o primeiro sendo palavra.&lt;br /&gt;O número não ampara, não revela, envolve: senti. Sem ordens, sem seqüência, tudo só atropelo. O surrealismo de Delvaux me atropela porque me sinto livre das razões. Toco o que são (quando livre de razões), os contornos que são sem os números. Sem o um ao onze, 1 ao 11. Sem a variação entre entender e contemplar. Estou aquém, aquém é meu nicho, meu segredo, o que só entende o pressentir, não como opção, mas como verdade, como gramatura, peso, medidinha onde há amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-1377706462517482612?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/1377706462517482612/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=1377706462517482612' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1377706462517482612'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1377706462517482612'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2009/01/acho-muito-trepidante-as-formas-do_08.html' title='Aquém'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7324964718023834611</id><published>2008-11-09T06:23:00.001-08:00</published><updated>2008-11-11T13:48:51.282-08:00</updated><title type='text'>Carne-pele</title><content type='html'>Qualquer mistério metafísico é um descanso da lucidez. É nisto. Um formigueiro visto de perto, não por curiosidade – impulso – vontade – de olhar e ver. Mas se não encosta o olho na terra (quem sabe aberto o olho escava, quem sabe fechado, fechado os cílios protegem e escondem a madrepérola), não tem o grande olho no teto, entre as telhas, madeira, cimento ou compensado. Invadir é permitir que se dilua, é homogêneo todo, unido inteiro. contrários dos riqueza a – fora de lado ao aguarda predador grande O. (Ser ao avesso tem me causado grande prazer).&lt;br /&gt;Tenho sido o avesso de não-dor, me firo e costuro na carne-pele: faço pontos de cruz. Outro dia foi uma espada no peito. Pele é eufemismo de carne, peito é eufemismo de espada empunhada ao peito que é carne coberta de falsa pele e falsa pele sobrepõe A pele que é a carne. Estar à flor da pele é estar na carne. Chibatadas regadas a vinagre.&lt;br /&gt;Deus, como fato-exemplo, Deus que não é sozinho: é Pai, Filho e Espírito Santo. E nós, imagem e semelhança, também – não – somos sozinhos. É outra a dor da própria carne; não bastamos a nós mesmos, de presença una, e não somos Pai e Filho, esfregamos a pele-carne-veneno-o-que-seja nos outros mistérios porque sentimos frio, e nos supre a carne do outro que nos aquece ou nos mata a fome. Não a Grande Fome. A Grande Fome permeia os séculos do Deus e permanece. A Grande Fome que chegou ao topo e não ascende, é intacta. Qualquer homem sentirá a Fome tão grande, tendo a certeza: se este mistério fosse audível, seria ensurdecedor. Seria sim. Que saber profundo, oh sim. Cristalino, o saber se enxerga no fundo. E a superfície é tão parecida com o fundo, que talvez seja isso mesmo. Lembro da água escura de tão funda, e isto não é nada além de um pensamento, em especial porque a água não está fria ou quente ou morna ou gélida, ela não significa nada e poderia ser assim:&lt;br /&gt;– Lembro da água escura de tão funda – pensei.&lt;br /&gt;A carne lateja, cansada.&lt;br /&gt;A espera é água escura de tão funda, então meto os pés dentro da água, desesperada meto os pés dentro da água, e sim, a superfície é o fundo mesmo, talvez. (Neste momento estou calando que: flutuar é subtração, desrespeita o espaço entre os espaços e nos deixa com gosto leve e absurdo de língua na boca). Coisa una, meu Deus. Como quando se está prestes a acordar e sonha, e o encontro é um designo da espera; essa espera que estou fadada e que não é outra coisa além de água escura, sem secar ao sol, sem o descanso das sombras – a roupa que seca no varal com o vento fazendo barulho de vai-vem. Isso de roupa no varal é de um oco extremo. Oco na delícia exata de quando acordo e me deparo, na visão primeira, com o beicinho revirado que me deixa alegre. De leve, sou usada pela comoção, mas depois há desvio e sinto que vivo o que me basta: vivo-te de manhã cedo. E o que me basta me ultrapassa tanto que não há e nem poderia haver travessia. As horas da manhã precisam passar deixando rastros para esvaziar a solidão, então fecho os olhos mais vezes, imaginando no piscar dos olhos uma retidão de lágrimas, retidão de vazio. Quando a tarde chega, as cicatrizes surgem, e com as mãos toco minhas ranhuras, desejando, em cada toque, que os teus dedos cheios de tremuras também passem por minhas cicatrizações: sou tão forte diante da manhã sempre perigosa e à espreita. E os teus dedos, para mim, são arcaicos não na pele. São arcaicos nos minutos. Ainda assim não há forma de teus dedos se deslocarem sempre da mesma forma – arcaicos e sábios, eles inventam caminhos novos, cumprem tracejados que não são promessas, cumprem tracejados que são encontros. Epiderme.&lt;br /&gt;Descanso ou cansaço da lucidez, o ruído da formiga no formigueiro, dos pés na água, do vai-vem, são oscilações do (no) silêncio: plenitudes estão se repartindo para se cumprirem, então sim, o ruído faz bainha, remendo no silêncio, ah é remendo a palavra certa, e o silêncio fica parecendo uma peneirinha, ou a superfície da água enquanto atiram-se pedras que quicam.&lt;br /&gt;O dia amanhece antes do meu possível esquecimento de alegria no beicinho. Amanhecer é rememorar. Quero não esquecer esse beicinho, se for de meu merecimento. Se for de minha sina, gostaria também de refazer cada coisa física vivendo apenas no corpo, sem pensar nos mistérios que – por alguma estranheza – podem me fazer chorar. Sim, choro diante das belezas que não são íntimas, que me visitam de vez em quando, que me utilizam de questão. E não sei se as utilizo de resposta, mas acho que não: eu choro é diante da coisa exposta de tão secreta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7324964718023834611?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7324964718023834611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7324964718023834611' title='23 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7324964718023834611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7324964718023834611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/11/carne-pele_09.html' title='Carne-pele'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>23</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-775453252786603064</id><published>2008-10-02T15:58:00.000-07:00</published><updated>2008-12-19T12:43:54.955-08:00</updated><title type='text'>Roteiro</title><content type='html'>Sorrir para o pensamento. Não ficar me demorando. Acordar o corpo quando ele estiver adormecido no instante. Tremer diante das sombras que podem ser perigos. Inventar um caminho livre de fazer sentido. Usar roupas confortáveis que valem o preço da elegância. Dizer que só não fujo porque amo – tragicamente – esse homem. Amar esse homem. Ler palavras de amor apenas uma vez para que elas não percam o sentido. Entender que antes saudade do que concretude do ridículo. Alumbrar-se diante de fungos e algas que são liquens. Permanecer mais tempo de cabelo solto imaginando que fio respira. Ler e gostar das "poesias de dona de casa". Fazer uso do casulo-abrigo quando desapontada. Sorrir – brejeiro – para as cerejeiras que imagino quando acordo. Andar feito quem sabe despedir-se da intimidade. Deixar rastros. Confessar assim: confesso-me. Dizer que me doem um pouco como um calo formado dentro de um sapato que aperta. Que me incomodam. E não me resta mais nada, nenhum desejo, a não ser que esse calo estoure logo. Não assumir que não vejo amor onde não vejo amor. Tentar tornar a vida toda azul azul. Saber que a vida nunca será azul azul. Considerar qualquer forma de pensamento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-775453252786603064?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/775453252786603064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=775453252786603064' title='21 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/775453252786603064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/775453252786603064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/10/roteiro.html' title='Roteiro'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>21</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-2159668144478769414</id><published>2008-09-10T16:00:00.000-07:00</published><updated>2008-09-11T15:43:56.020-07:00</updated><title type='text'>Mergulho</title><content type='html'>Com cuidado fechei os olhos para zelar a maciez daquela imagem. Era uma seda fininha e muito gostosa. Apresso o passo. Nunca irão ver aquilo que digo, eu escrevo para mim. Pode passar um século inteiro lentamente, tudo poderá ser lido, mas nunca será vivenciado e visto. A seda vai permanecer rente ao corpo fazendo dobrados confortáveis, gostosos de mexer. Terei o nunca visto antes porque escrevo para Eu que não sei comunicar-me. Uma palavra qualquer me rodeia até que eu tenha coragem suficiente de jogar a primeira pedra. Não sei dizer o que deve ser dito. Eu que sempre tenho as respostas. Surge a pergunta, e prefiro ficar quieto, caso contrário, evoco estranhezas. Em nome da eternidade até eu me calo. O que nasceu para ser obscuro não me interessa, me abstenho com a dor de quem amputa qualquer parte do corpo, e aprende também que ausência é uma parte vital, é um caminho a ser percorrido. Então é que prefiro me resumir a minha própria estranheza, e só provar dela. Escrevo o dialeto com as conhecidas palavras, preservo o dialeto dentro de um momento vago distraído, preservo uma redução qualquer tornada redenção e ausência para que no fundo eu me torne um pouco mais possível dentro do possível, dizendo sim enquanto o coração bate muito pico e depressão.&lt;br /&gt;O mundo é de uma incapacidade estranha e burguesa e miserável. Nada fica claro; não sei se por isso, mas o meu coração desembesta em demências, e cada demência me pousa depressa como um amor ligeirinho.&lt;br /&gt;Vale mais atirar uma moeda para cima, e esperar que não dê na cara. Não me conheces. Eu não dou na cara, sou quem atira a moeda. E poderia atirá-la em qualquer lugar que não fosse meu corpo mesmo. Qualquer lugar é menos alheio. As moedas têm pontas escondidas, e são redondinhas, uma transcendência que circula gera até desconfiança, mas há também cada nuance soando a coisa única, a despontamento. Sossego ao pedido de cada coisa constituída por níquel, chumbo, pó, aço: vive-me. Vivo cada coisa já que tanto cabe dentro. É perigoso jogar um punhal para cima e tentar pegá-lo nas mãos quando ele retorna. A mulher que engole espada. Ponta. É perigoso morrer. Viver é um risco. Cara ou coroa? (A vida é um artefato). Coroa sai sangue. Coroa é a ponta fina e cortante. Cara é a salvação por um triz, aleluia.&lt;br /&gt;Pé no graveto que quebra: creck. Apresentaram-me ao chá de mescalina. Desenrolo o papel prateado, inalo o pó, o graveto se constitui: creck. Penso na quantidade de gravetos que podem ser quebrados até meus pés alcançarem as águas. Passa um cisne no rio logo abaixo do viaduto. Vejo uma cordilheira de cisnes e de gravetos arrebentados. A poluição não me deixa ver cisne quando estou sóbrio. Quem dirá uma cordilheira de cisnes! Um cachorro vira uma lata de lixo, mija, e vai embora. Caminho até a lata de lixo, mijo, e vou embora. Enxergo-me sentado e chego perto. Toco de leve o seu braço, e sinto o dedo indicador no meu braço. Uma unha escura que me tem como alvo. Qualquer brisa me assusta, folha que cai é um escândalo, ainda bem que por aqui não há nenhuma árvore. Cheiro de lixo vira gosto de lixo, e me faz engolir o vômito. Tenho uma digital no braço, a digital é parte daquilo que me mata. Há intimidade, grito. Digo, o grito grita, e essa vida é extraordinariamente bela.&lt;br /&gt;Provoco surpresas quando regenero gravetos. Por um segundo sou a cura, não a vontade de um vômito quente. Cada um que paire no seu próprio espaço, que crie sua própria cidade de lagos, cisnes, e latões que dão tapas na cara gratuitamente. Digo-vos: o benigno é gratuito da mesma forma que toda violência é instintivamente pueril - a isto chamo desorientação. Mescalina? Não importa, o mundo é feroz, delira, e Mozart permanece porque lhe dão ouvidos. Beethoven fechou os ouvidos para si, e captou o inaudível; a Für Elise eu obedeço de forma severa. A Mozart eu passo depressa, a Beethoven calo sinfonias, reinvento alguma necessidade diferente, pois também quero ser inaudível. Lixo me revira as entranhas, viaduto, movimento dos carros, mendigos excomungados. Pulgas me sobem a perna, e eu escuto cada passo: barulho e eco do abismo. Qualquer barulhinho é excelente para romper a órbita do mundo, para nos tirar o eixo. O barulho do fogo crepitando no nosso corpo provoca desespero. Cada estampido, uma aproximação.&lt;br /&gt;Deitei nos trilhos do trem, esperando louco que nada acontecesse, querendo dizer “escapei por algum acaso da vida que me quer e me ama.” Talvez eu não acredite nos acasos da morte, o escuro torna-me mortal um pouco. Meu violino soa como pernilongo. Concerto de pernilongos. Bendigo a vida vacilando desafinado. Ou melhor, pássaros gorjeando. Em mim permanece: tudo é, eu sou o que é.&lt;br /&gt;Todos nós precisamos retornar um dia. A uma estação, quem sabe, ou a alguém. Para alcançar, o retorno encolhe. Saturno fica diminuto. A rosa se faz uma sombra-descanso. É preciso cada espinho. O espinho é uma chance dada ao lirismo. É preciso observar cada espinho com olhos mareados, para que eles se transformem um pouco, para que sejam os enfeites de Marte. Vênus tira a roupa para Pafos. O redondinho do corpo dá vontade de comer. Pafos é um abraço. Tive vontade de um abraço até que ele perdesse o sentido de abraço e virasse só um sentimento no espaço. Uma abstração um tanto reveladora e íntima, tessituras frágeis, vestimenta leve, cavar a água com as mãos e observar a água preenchendo a água. Só espaço para si; ruído de amor próprio; os dedos que se mechem criando lugares dentro de lugares; perceber a habitação; cavar a morada; fingir algum espaço vazio; juntar o mar vermelho através de um só gesto que ganha significado e se transforma na senha, no segredo que atravessa os séculos, num milagre.&lt;br /&gt;Alcanço este momento, e já vou seguindo com fome. Acho que comeria uns seis sanduíches, e comeria até vomitar. Reconheço quando estou acometido por alguma necessidade, que embora reconhecida, desconheço completamente. Reconheço a mulher - desconhecida - que será minha. Quero romper o bastante, retornar das profundezas; quero acreditar em cada delírio como verdade, captar um som tão alto que me ensurdeça. É a minha forma de tiroteio. Minha roleta-russa. Meu brincar com fogo. Sou eu me afogando no meio dos cisnes e morrendo comicamente. Não tenho medo da loucura, é minha loucura quem tem medo de mim. Minha loucura estranha porque sou frágil e me dissolvo rápido. Quero retornar a algo, mas não me lembro do que se trata. Que júbilo! Quando nenhuma outra opção aparece, permaneço, já que permanecer é a única forma de ir morrendo quando se tem medo da morte. Não, na verdade preciso de um mergulho. Um mergulho de corpo inteiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-2159668144478769414?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/2159668144478769414/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=2159668144478769414' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2159668144478769414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2159668144478769414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/09/mergulho_10.html' title='Mergulho'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-4969109790716561496</id><published>2008-08-09T16:02:00.000-07:00</published><updated>2008-08-27T14:29:56.535-07:00</updated><title type='text'>Ketchup</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style=""&gt;&lt;span style=""&gt;Virgem. Moça quieta, distraída, contemplativa só quando dorme. Só quando dorme é que tem a real inspiração, e não se lembra depois. Quando dorme alcança cada letra que esconde cada palavra - dorme fazendo bico. Muito sisuda.  Meio altiva, parecendo até uma mulher calando um segredo. Olhos arqueados, escondidos, uma exclamação no vazio. Uma incongruência muito grave, um paralelepípedo solto que você vem e tomba e dói e sangra, fica roxo, uma linearidade quebrada por um traço ilegível, analfabeta demais. Um erro e tudo se detêm. É preciso ser nativa de uma língua que está no escuro. Uma boceta intacta no escuro. Ela é um sotaque perdido dentro da noite; um sotaque que se arrasta porque acabou de levar um tiro na boca do estômago, e vai viver pouco, e sabe que vai viver só mais um pouco. Um eco. Um vislumbre. Um oásis que não é esperança. Uma mulher que não percebe. Que não sangra, que não dói, que não chega ao limiar da coisa: da morte, da última gota que expele cada homem, do orgasmo, da vida. Nenhuma ameaça é o suficiente para estar por um triz - fica sem pensar nada, e de repente esse pensamento é interrompido por um ônibus grande e amarelo, pela luz que se apaga de súbito na falta de energia, pela água gelada do chuveiro, por o que é um pé de carvalho?, por um estampido, por um vestido secando ao sol, um risco numa parede toda lisinha. E comer pão com ketchup, ai! Feijão com ketchup, ai ai, é feito não pensar em nada, mil vezes ai.&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Ketchup parece com sangue, meu Deus, como ela pensa “sou um vampiro.” E vê o pescoçinho esguio da moça bonita que passeia distraída, que desejinho! Que vontadezinha ligeira de perder o cabaço. Não, perder o cabaçinho não, perder o cabaço é bom de pensar só se for pra não se dar conta depois, só se for uma inspiração que vem antes de dormir. Cabaço com ketchup, que sonho terrível! Ketchup com gosto de cabaço, que fiasco! E pensando tudo indiretamente através do ônibus amarelo, do besourinho que cai distraidamente no braço, quando poderia ter caído bem em cima de outro lugar. Vem cá besourinho, existe um bom lugar para ti. E sopra o besouro que sai voando, e acha fantástico dar de vôo que é meio como dar de mamar. A boca no peito faz um ruído gostosinho, retalha o silêncio, mata a ânsia saliente.&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Não era agitada. Disseram-lhe “compre um aquário recheado de peixinhos dourados, e observe-os nos momentos de estresse”, então ela fez isso. Quando choveu trovejou muito, teve medo, e quando sente medo sente fome: uma vez comeu os pedaços de linha de uma blusa que estava descosturando. Então pegou com muita calma - longe da calma que é mortífera - cada um dos peixinhos, e enfiou garganta abaixo. Que cosquinha! Imaginava o aquário no estômago, achava quase engraçado. A imagem de um peixe rindo era uma emulsão meio pastosa como o próprio gosto do peixe. E se perdia dentro dela, como cada peixe. Pensava também que na verdade engolira pequenos feixes de luz, aí ficava quieta, toda iluminada. Pensava que deveria engolir feixes maiores. O aquário vazio ficou vazio por muito tempo. Aquela paz era fantasmagórica, era um pacto de silêncio dentro do silêncio. Observar um aquário vazio é acordar um peixe escondido que dorme, é uma aspiração maior, um Netuno forte dando ordens sem rebuliço, uma terra onde todos estão livres do medo porque sentem medo. E depois era assim, quem a olhasse por dentro descansaria em sua paz. Talvez quisesse dar essa paz a alguém, mas não ansiava, piscava os olhos da forma mais vagarosa possível, só para sentir o peso do choro escondido dentro de uma gruta escura, para sentir os olhos lacrimejarem um pouco até o pouco ficar muito, provando que tinha um dom não exercido.&lt;br /&gt;&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Outro dia no dentista abriu a boca até o máximo, o dentista dizendo abra mais, e ela forçando mais e mais, pensando na paz subindo pelo esôfago, na paz atingindo o rosto do dentista feito uma lufada fresca que não é lufada e sim o ar muito íntimo. Tudo se confundindo, para se separar depois. Mas o tal dentista não teve nenhuma reação, então deve ser porque alguém é indigno do outro, então é melhor assim. É tanto faz. O dentista devia saber sobre pés de carvalho, o dentista era homem formado, devia plantar vários pés de carvalho, e ficar vendo-os crescer enquanto pensava oh, sei tudo sobre pés de carvalhos. E ela coitada, que sabia? Só sabia uma coisa assim: por você eu abriria a boca até que ela rasgasse. Uma florzinha caiu num lago pequeno e redondo, fez uns círculos, e ela apostou que a florzinha fosse ser engolida. Mas não, o que é leve simplesmente bóia. Algo de muito leve bóia agora no soninho dela: quem sou eu: quem sou eu: quem sou eu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style=""&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-4969109790716561496?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/4969109790716561496/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=4969109790716561496' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4969109790716561496'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/4969109790716561496'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/08/o-ketchup.html' title='Ketchup'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3773358003052665118</id><published>2008-08-01T16:05:00.001-07:00</published><updated>2009-03-29T13:53:22.712-07:00</updated><title type='text'>O nome que Isabel quiser</title><content type='html'>a Daniel Abrão – endereço, lugar, cidade, espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou desligada do que exige, e de exigir também – a reciprocidade é sono de dormir. Ia citar um exemplo crucial, mas além de ter esquecido, eu poderia ter um início ainda pior citando exemplos. Mas sei, por exemplo, que sempre esqueço o deveras mais ululante de mim; que me renego, e me expulso de meu próprio sono, já que aquilo que sonho é sempre eu. Cansei de me enxergar em subconsciência, cansei de reter o vão que vai de mim para mim, porque reter não me torna mais inocente. Não sou capaz da inocência, o meu tempo (inatingível) passou, e eu passei também – acontece que só sou bonita quando vista de relance. Vi de relance o céu rosa, e o céu rosa passou, chegou até o seu céu e você disse que ele é meu. O céu rosa, o céu de qualquer cor, de qualquer coisa, não é bonito quando só é visto de relance. Agora o meu céu é preto, mas é uma doação minha para ti. Sim.&lt;br /&gt;Tenho medo dos segredos revelados nos livros que não li. Escrevo depressa esquecendo letras, sem a profunda consciência daquilo que pretendo. Pretendo reinventar inocências antes que seja tarde demais; pretendo criar a salvação sem excluir a mim mesma; pretendo não dizer, e ainda assim sentir o dito por que estou falando com o meu igual... Adivinhas? Não adivinhas, e não entendes, porque o espaço entre nós é desatino. O espaço entre nós somos nós dentro de nós mesmos. Eu queria escrever feminino sem falar a palavra “mulher”, sem apelar para o sensível – já que é só assim que escrevo feminino – mas também não escrevo homem, escrevo com aquilo que sou, e que tão pouco tem sexo. Escrevo prematuro como Isabel despindo-se para a natureza, revelando-se no meio das águas.&lt;br /&gt;Adentram a minha casa, a minha cozinha, os meus alimentos, o meu cachorro, o meu quarto; adentras-me prematuro e tudo aquilo que vejo sinto toco ouço é prematuro também. Muito de Isabel há no meu cachorro, Isabel revela-se nua como o meu cachorro revela-se cachorro e não tem vergonha.&lt;br /&gt;Não tens vergonha de abanar o rabo e de me ceder amor prematuro todos os dias? Não tens vergonha de se deixar criar, porque somos tão iguais, e te separastes daquilo que antes era teu igual? Eu substituo a tua vida, e em troca me forneces a semelhança. Somos de felicidade fácil, mas vemos muito de dentro para fora. Isabel sua por nós. Em Isabel não há esforço porque ela não se dá conta, não espera em si mesma. Isabel surpreende-se quando se revela para a natureza, e como resposta a água corre, as árvores balançam suas folhas; mas a natureza não existe em resposta, Isabel. A natureza pergunta. Mas teu corpo entende errado porque teu corpo não aprendeu a ser comandado, e tudo em ti se transforma em humilhação sem que percebas. É o preço pago pela falta de vergonha, Isabel. É a tua liberdade que corre solta demais. O teu corpo que também pergunta se confunde e em resposta tu permaneces sem pudor. A natureza é cruel, Isabel. Cruel.&lt;br /&gt;Penso que não vais se dar conta, e o instante sustenido vai te tocar os seios em forma de brisa para que te arrepies e te vistas. Eu vi a tua mão fazendo o mesmo movimento que a minha mão, e no periférico pensei que a tua mão fosse o meu reflexo. O movimento nos separa, separa o espaço nascente entre nós. O espaço se multiplica, penso que estou muito distante de Isabel, já que a distância mente para que não vejamos claramente o nosso igual. Dois polegares me separam de Isabel porque nossos polegares se encostam, e os nossos corpos são distâncias que escondem o nosso real encontro. Rapidamente furtivamente deverias me amar com tudo aquilo que sou com tudo aquilo que és e não seríamos juntos: seríamos um no outro.&lt;br /&gt;Não consigo dormir.&lt;br /&gt;Eu vi um enorme porco morto no pau-de-arara, e saia sangue da boca do porco, escapava sangue entre os dentes do porco preto. Dois homens carregavam o porco, e o porco não via. O porco estava sendo levado a Deus sabe onde, e onde o próprio porco não sabia. Não conheço o meu caminho. Nem o descaminho. Não conheço o que me encaminha, e nem Isabel. Desde que alguém disse “você me encoraja nisto que faço”, não consigo mais inspirar a coragem. Agora sou incapaz porque me dei conta de minha capacidade, e aí fui derrotada. O elogio me derrota, e é por isso que prefiro a mudez constante daquilo que está nu. Não posso mais comigo, sou curta.&lt;br /&gt;Não quero falar certo, e escrever certo. Quero poder compreender um pouco através da coisa propriamente dita, compreender a palavra, não os motivos que apontam o que deve ser compreendido. Que sabem as pessoas, Isabel? Pois eu digo: não sabem nada, apenas aprendem. Caótico o meio em que encontro todas as coisas, o meio que encontro todas as palavras – tudo lá é desorganizado e não acaba nunca: termina quando a Pessoa morre, mas continua existindo por si mesmo e para todo o resto.&lt;br /&gt;A minha intensidade é muito intuitiva, mas não sei o motivo. Não sei se é a idade, o sexo, o instante. Saber, eu não sei, mas ouso ficar intuindo, o que acontece da mesma forma de quando pinto um quadro: freme cada traço até a coisa aparecer pronta. E eu me espanto, sem ter a mínima noção daquilo que faço. O que pinto é para mim, é indivisível, sem elasticidade, é precisamente do instante que rompe, e no instante seguinte já não faz mais sentido. Mas acontece também dos traços não levarem a canto nenhum, a nenhum canto conhecido como cavalo, chapéu, casa. É o descaminho do porco, o retrocesso, o retorno. Só escrevo porque tudo é permitido. Isabel deveria experimentar fazer uma pintura, mas a pintura não é para os inocentes – não é para os que pretendem a permanência intacta e bem cultivada de uma planta; de uma planta concisa que nasce rente à parede – nem mesmo a pintura do rosto. A mulher vulgar se pinta inocente, pois para ela qualquer traço se trata de uma redenção; tudo que não lembre a si mesma, que não a remeta. Coisa por coisa, fico com a inocência pura – e isso não é redundante – mas Isabel deveria inventar a pintura dos inocentes. Ou então deveria desbaratinar de vez. Eu não me importo.&lt;br /&gt;Isabel é mecânica, mas é melhor do que eu que sou espontânea. Isabel faz sem amor, mas é melhor do que eu que só faço amando. O bom de ser Isabel, é que não se é necessariamente; como eu a inventei, ela é múltipla. Sou múltipla. Enquanto escrevo penso em quantos rumos posso dar a Isabel, e confesso: não sei como decido; não decido, estou intuindo. Não sei a hora de parar. Faço com amor, por amor, e meu amor não é comedido. O meu amor sou eu que devoro depressa porque devorar é decifrar a própria – a própria o que? Fome? Preciso aprender depressa. Estou muito permissiva só porque invento, só porque espero deste meu caminho que nem sequer é um percurso.&lt;br /&gt;Isabel está se doando.&lt;br /&gt;Li palavras masculinas, e lembrei Isabel. Ela escreve homem e eu que sou mulher não escrevo mulher e nem homem. É porque não estou fazendo aquilo que penso estar, sou sonâmbula. Quando eu acabar com – com o que? Ai meu deus lá vem isso me ocorrendo de novo, Isabel vai escolher o título, e vai ser o título que Isabel quiser. Não gosto de dizer “ela”, mas sim Isabel porque Isabel é uma alegoria que não necessariamente representa uma mulher. Eu achava que não conseguia dormir, mas na verdade sou sonâmbula eternamente. Sem fim. O fato de não ter sono sou eu me perdendo dentro dos meus próprios sonhos. Escrevo, e me sinto desenhando. Desenho Isabel e ela finge que não sabe. Essa coisa que é Isabel é contemplada e não sabe. Faço seus contornos a cada palavra – falada pensada ausente – e lhes dou a forma do corpo e do espírito. É engraçado porque não conheço os traços que eu mesma esculpi para que Isabel se tornasse, como se minhas mãos, minha forma de manuseio tivessem sido esculpidas no momento que decidi seus traços, que sorri levemente para a sua boca. (“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine os peixes do mar, e sobre as aves do céu, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo réptil que se move sobre a terra (...). E disse o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma adjutora que esteja como diante dele (...). Então o Senhor Deus fez cair um sono pesado sobre Adão e este adormeceu; e tomou uma das suas costelas e cerrou a carne em seu lugar. E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher; e trouxe-a a Adão).”&lt;br /&gt;Deus é anestésico, Isabel também, um pouco.&lt;br /&gt;Essa história não é minha e de Isabel, pelo contrário, recebo o mundo de troco. Chego mansa e diáfana. Em algum lugar me esperam. Quando penso mansidão, fico perplexa, quando sinto mansidão, choro, quando chego mansa por natureza, morro. No lugar Isabel me espera viva, e o mistério de sua natureza é vegetativo. O meu problema é que não sei como agir diante do amor que já não arde mais. De amor manso, morro. Eu deveria dizer “tragam-me o porco, vivo ou morto, mas não vegetativo. O que diabos pode-se fazer com o que está quase morto, senão dar a morte até o fim?” O porco vivo veria outro porco vivo que veria outro porco vivo que veria outro porco vivo – que correria escandalizado, urrando como as bestas dentro dos porcos que Jesus condenara ao abismo. E todos os porcos correriam em direção ao abismo, fariam barulhos horrendos e tremeriam de pavor diante do caminho traçado que é a maior condenação. Eu gritaria aleluias, escandalizada, porque o mal recaia sobre os porcos, e os porcos não são mudos: às vezes só quero que me poupem os ouvidos.&lt;br /&gt;Captei um sonho, ele vai se desvanecendo lentamente à beira de mim, caindo no abismo de mim mesma, que sou esquecimento. De repente era só eu e uma caixa grande. A caixa possuía recortes grudados na superfície – um casal nipônico se beijava, um homem trepava com um escorpião. Então eu abri a caixa e me deparei com uma enorme aranha. A aranha possuía apenas seis patas, e em suas duas ausências, possuía agudezas; fechei rapidamente a caixa, mas não por medo, sim por fragilidade espantada, e por compreensão ao corpo reentrâncias da aranha. Eu que também sou um corpo, a aranha que também compreende. Fixei os dois olhos na pele do meu peito direito que se arrepiava; na verdade todo o meu lado direito estava eriçado, era uma metade separada – reentrâncias. Estava me curvando para dentro, mas como bicho acuado, reagia adverso – eu camuflagem de mim; e essa era a minha relação altruísta com o meu próximo. Era a minha forma adversa que emergia. A aranha disse “você não está se doando ao máximo”, e eu disse “eu estou emergindo do meu mais profundo pesadelo só para ti”, e fiquei a murmurar sutilezas de tom sério. Quase acordei e só consegui pensar um pouco, e pensei pouco em Isabel: Isabel que se dane. Quero emergir e submergir e emergir só para sussurrar gentilezas, para dar o verdadeiro esboço ao meu Narciso. Entre verdades: cada um que cuide do seu próprio Narciso, e ao meu dou um enorme espelho porque quero um grande ego como reflexo. Sinto que o que eu quero realmente dizer não chegará nunca; não chegará enquanto eu não tiver Isabel. Sem ter Isabel falo a verdade por um triz, ou não falo; chego a alçar os pés, mas caio desajeitada porque pouco sou bailarina. A Isabel um descanso: quero-te forte, e poderás te libertar fácil; só aprisiono aquilo que me satisfaz como capricho, aquilo que atinge alguma medida, alguma determinação. Se não quiser, também que seja feita a tua vontade: por instinto enfiei uma de minhas mãos na terra, senti a pele nodosa das plantas, senti a vida começar de baixo, e a umidade para que se haja vida. A vida não está para o seco. Quando tornei a mão ao alcance dos olhos, e ao alcance de sentir sozinha – posto que quando se sente juntamente com a terra perde-se o sentir unido aos próprios dedos de tão próprio – estranhamente duas patas de aranha estavam enfiadas em duas de minhas unhas. Não sei, mas foi mais que um presente, tenho a impressão que foi um acaso de Isabel para mim.&lt;br /&gt;Estou com medo. Não sei me deixar doar em acasos, não estou disposta o bastante – porque acho engraçado que um cadeado me torne segura, sou porco vivo à espreita, e só posso descansar realmente quando fechar os meus olhos, afinal – eu que durmo de olhos abertos. O meu abrigo não existe, qualquer revelação não passa de um instante brejeiro que vem e passa porque o próprio instante não é um abrigo. Eu aguardo tanto, Isabel, aguardo tanto que me acabo nessa escrita ardida, nessa escrita que não é. Nada é, nem o acaso de duas patas em duas de minhas unhas. Agora as agudezas gritam de dentro, e tenho mistérios pousados sobre a carne, porque enquanto o mistério for o teu disfarce, serei teu alvo. Quero ser alvo teu, Isabel. Por favor, me mire no fundo dos olhos e sorria levemente como eu sorri a para a tua boca. Adivinho-te dentro, Isabel. E tu, até onde tu me adivinhas? Por que me sufocas tanto tanto tanto tanto?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3773358003052665118?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3773358003052665118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3773358003052665118' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3773358003052665118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3773358003052665118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/08/o-nome-que-isabel-quiser_01.html' title='O nome que Isabel quiser'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7409729549885824329</id><published>2008-07-23T09:09:00.001-07:00</published><updated>2008-08-11T04:51:04.649-07:00</updated><title type='text'>Eu um pouco</title><content type='html'>Sou atrasada de acordo com meu corpo – também o próprio corpo atrasado dele mesmo: tenho dedos um pouco disformes, e olhos muito cognitivos. As duas metades de meu rosto não se tocam, e nem se cumprem: completam-se por destino. Tenho também um peito maior que o outro, inegavelmente, na riqueza da observação. Não somos uniformes. Quando se observa muito profundamente o corpo, ele deixa de fazer sentido e começa a ser sentido. Sou também muito inspirativa: a minha inspiração de ser eu está dentro de inspirações maiores, e muito misteriosas. Não sei se há perigo. O perigo está guardado no meu mais íntimo que não toco: perigo e íntimo são sigilos, e no sigilo é que me arrisco a ser eu. Existe uma cobrança que corre muito livre. A cobrança liberta é uma das maiores formas de tortura. Estou fadada. Caem meus fios de cabelo, devagar na mudança tortuosa e lenta, e fico com os dois olhos aberto no escuro. A cegueira da escuridão é tão pior do que a cegueira do dia. A cegueira da noite fica amalgamada com a escuridão da noite. Durante o dia a cegueira possui duas fases imiscíveis: água e óleo. Olhos e dia. Os dois se repelem e não se compreendem, mas isso não deve ser dito. Nada deveria ser dito. Começo com uma palavra, e termino com outra: além de uma disparidade, isso finda a minha noção de início e fim. As coisas findas abdicam a minha monocultura que tem como produto a palavra. É muito cruel, mas um dia se morre; do mesmo jeito que um dia se. Nada deveria ser dito, e isso começaria quando eu-homem, eu-mulher dissesse do mais profundo corpo: nada deveria ser dito. E não diríamos mais, com a frase única soando a coisa nenhuma. Temo dizer que sou muito cansativa, mas vou dizer que sou muito cansativa antes que nada mais possa ser dito. Quando nada mais puder ser dito, temerei a eternidade. Escrever é a única coisa que só faço quando quero – não sonho só quando quero, não sou só quando quero. Há em mim densas fusões: as visões daquilo que penso, o dente de ouro que pintei na mulher da revista, os outdoors. Tudo isso se acumula em vida, e um dia se morre, flor murcha. A flor murcha é de uma morte bonita, e não menos triste. Flor murcha dentro de livro é como aprisionar algo que está adormecido – é incômodo porque um belo dia se cansa. As minhas frases não se criam quando um pensamento não está concluído, e eu nem sequer percebo essa falta de conclusão, de tão natural que me é escrever. Só percebo quando a frase sussurra para mim aquilo que quer dizer: recebo coisa pronta. Para escrever só é preciso ter audição. É tudo uma questão de não entender, e entender aquilo que precisa ser dito. Para escrever não se faz necessário um motivo: o motivo já é o que faz ou quer fazer parte de nós mesmos. Quando eu uso “:” é porque há sempre algo dentro, mesmo que algum dentro não se mostre. Viemos da escuridão total que também pode ser a claridade total, e para ela voltaremos. Chamo escuridão àquilo que timidamente ou ostensivamente não quer ser dito, é escondido por natureza. É de minha natureza, não sei o que, mas precisava dizer que é de minha natureza. Não preciso mais. Agora preciso dizer: não preciso mais escrever imediatamente, já que a escrita é a única coisa que faço quando quero. (Quero porque preciso, porque penso, porque ouço, porque sou a flor murcha dentro do livro).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7409729549885824329?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7409729549885824329/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7409729549885824329' title='16 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7409729549885824329'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7409729549885824329'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/07/sou-atrasada-de-acordo-com-meu-corpo_23.html' title='Eu um pouco'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>16</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7006001680679169156</id><published>2008-07-02T08:42:00.001-07:00</published><updated>2009-03-29T13:57:49.140-07:00</updated><title type='text'>Peste de traças</title><content type='html'>Fugi desse momento, fugi como só quem sente medo sabe. Sei. A peste de traças tem me acabado com a vida. É que eu tinha restado, mas depois elas lembraram que o único pedaço esquecido de minha vida restante era eu. Não sou eu que vos falo - quem vos fala é a minha têmpora. Minha têmpora não sou eu. A minha têmpora é o resto, e o resto tem me estragado o corpo. Não posso mais tragar o cigarro, não posso não posso não posso. Uma têmpora bóia suspensa no vácuo da falta de um corpo inteiro: fugi desse tempo, passei o tempo para o tempo seguinte, mas o tempo seguinte estava tomado pela vertigem de têmpora, pelo fruído do vácuo. A propósito, estou enojado, estou detestando tudo isso que digo, e por isso mesmo continuo a dizer; quando as traças voltarem, não vai restar mais nada de nada. Quando as traças voltarem, eu vou falar com o Deus, e não vou mergulhar uma só vez no cosmo de seu corpo – tudo será apenas transmitido pelo ar pelo pão nosso de cada dia pelo livra-me de todo mal pelo cigarro que não posso mais tragar. Eu e Deus vamos ser indivisão onde não há resto nem de têmpora e nem de vida nenhuma. A têmpora me perguntou quem é Deus quem é Deus? E aquilo foi me dando uma dor no vazio de meu corpo, e a têmpora insistiu em quem é Deus quem é Deus quem é Deus e eu senti tanta dor que quase exerci o trabalho do império de traças e comi a minha própria têmpora: iria morrer para dentro, de repente sumindo para o interior da cavidade, me tragando e engolindo a minha fumaça, me escondendo em mim. "Uma transmissão muito veloz", disse Deus? Deus é, e foi aí que entendi que nada mais poderia ser neste mundo: nem eu nem a têmpora nem eu-têmpora e nem nada e nem vácuo. É assim: Deus é o verbo. Eu diria Deus é o verbo Deus é o verbo cinqüenta e seis vezes para que as traças se resumissem; e uma traça resumida perderia o inviolável de ser uma traça. Eu não sei se fui violado porque não tenho mais uma cabeça, e nem olhos, e nem pernas. Não tenho quase nada, e como diria um amigo meu “quase nada é como ser quase anão”. É por ser quase nada que escrevo desse jeito, e peço desculpa. Escrevo selvagem e urgente, sem corpo para amenizar, sem tudo aquilo que uma pessoa precisa para ser resguardada em si. Estou exposto muito exposto e tão exposto que até o cego me vê: eu estou dentro do cego. Eu estou dentro do cão que sente a pulga pular no seu dorso, estou dentro do mundo, e é o mesmo mundo que está em todos. Estou em tudo, em todos, e não em quase. Posso não ter quase nada, mas estou, tenho morada. Vocês inconscientemente me abrigam, e me dão o vácuo onde irá boiar a minha têmpora. Sou aquilo que não se pode expulsar do corpo, estou no que é seu, e se você morrer, eu vou estar também. As traças levaram tudo e só deixaram a têmpora. A têmpora é uma miséria, porque o que resta nem pode ser chamado de cabeça. Estou sendo abençoado devagar, e escrevo com nervosismo – o processo é árduo, algo em cada um de vocês está sendo abençoado também. Quando eu sumir completamente, se eu sumir completamente, vocês vão sentir a minha ausência, e essa será a minha presença constante, todos os dias; cada hora será uma hora de mim. Deus: não recordo aquilo que é.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7006001680679169156?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7006001680679169156/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7006001680679169156' title='25 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7006001680679169156'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7006001680679169156'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/07/peste-de-traas_02.html' title='Peste de traças'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>25</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-613795464442317572</id><published>2008-06-23T16:55:00.001-07:00</published><updated>2008-07-01T12:38:41.704-07:00</updated><title type='text'>Intuição feminina</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-size:12;" &gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;"de colchão em colchão&lt;br /&gt;chego à conclusão&lt;br /&gt;meu lar é no chão"&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-size:12;" &gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;(Paulo Leminski)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-size:12;" &gt;*&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="line-height: 115%;font-size:12;" &gt;Preciso de uma sorte de dormir. Segurar forte o pé da cama para não me perder no sonho: mantendo-o mais próximo do chão. &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;Segurar forte o sonho para não me desvencilhar da verdade que dorme – o sonho é o que flameja e arde. Para que servem? Para que me manchem de sono, para que me aconcheguem nas profundezas de meus filmes que imitam a superfície da vida. Preciso da imitação constante, porque a minha imitação constante é a minha forma de amor fiel sem limites. Quis dizer que estou me atendo aos poucos para poder ser leve, e para não ser semelhante aos demais – &lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;mas não sei o que isto significa. Não sei violetas, não sei liquens, não sei frascos, não sei se senti medo, não sei cascas de árvores, eu não sei eu. Em alguma parte atrás de minhas costas permanece o homem – tão pobre que é inocente – de sobrancelhas grossas e juntas e enoveladas – tatuagem do mundo. Eu o vejo através dos sonhos transcendentais que percorrem a clarabóia e me acordam com clareza pela manhã – pura intuição feminina. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-613795464442317572?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/613795464442317572/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=613795464442317572' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/613795464442317572'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/613795464442317572'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/06/intuio-feminina.html' title='Intuição feminina'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3480092393938654279</id><published>2008-05-22T16:46:00.000-07:00</published><updated>2008-06-30T12:50:02.000-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A espessura transcendida, o íntimo confundindo-se com o idílico, quando o íntimo é tão mais imoral que o idílico. Espessura transcendida a enjôo, a escarro. Não se esconde a face por muito tempo, a face se mostra mesmo quando é dedilhada. A face-instrumento cai do arranha-céu porque é tão mais alta e o arranha-céu é tão mais penetrável. Quero que as palavras venham distraídas, quero as transitoriedades densas e cheias de fluxo. Quero arranhar o céu com uma pedra nos olhos, para que eu não esqueça um minuto sequer do latejar alheio – porque o latejar alheio é como latejar também. Quero uma sonoridade indelicada de tão alta para esquecer um pouco que ser mulher é ser tão leve. O íntimo é natimorto, o íntimo é o pote nectário inesgotável. O íntimo: tu contarás os breves com a alma, posto que os breves sejam renovados por uma esperança inesperada. Mas acontece que a espessura foi violada, a espessura foi transcendida em escarro e depois nada. O idílico cru existe no intervalo do tempo em desespero, para que de amor te cubras, e a intimidade não te mate. Mata: a intimidade nos mata quando os ventos levam as cobertas embora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3480092393938654279?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3480092393938654279/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3480092393938654279' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3480092393938654279'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3480092393938654279'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/05/monlogo.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-1215886729554947201</id><published>2008-04-25T17:18:00.000-07:00</published><updated>2009-02-09T10:09:22.121-08:00</updated><title type='text'>:</title><content type='html'>Quando Raul virou e saiu por aquela porta, foi com todos os meus pedidos: volte curado das feridas, volte quando tudo for uma imensa casca que já não precisa ser lambida e que já está sarada. Completamente. Ele não disse nada, Raul fala pouco. Esta é a clareza dos nossos instintos. Durante algum tempo, na época em que mamãe ainda me ligava para saber como eu estava ou para me dar uma receitinha nova, eu até aceitava Raul, especialmente pelo fato de que às vezes no meio da noite ele ficava murmurando “vem cá, minha Ana”, me puxava levemente pelos cabelos e ficava me tateando enquanto dormia. Raul nunca teve uma mulher chamada Ana, eu sei. Raul já teve Teresa, Paula (porque em toda esquina tem uma Paula, por mais que a gente não conheça), Sandra, Cintia, Beatriz, Carolina, Amanda, Ingrid, e essas mulheres, essas coisas. Analisando bem cada mulher dessas, eu sou a mais diferente. Elas são mais gostosas, têm corpos melhores, e uma vez o Raul assumiu que a Sandra tem um cabelo mais bonito, e que chupa melhor do que eu. Não fiquei triste, sabe, muito pelo contrário, eu devo ter algo muito mais interessante do que fios de cabelo e uma boa chupada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro dia quando fomos a um café perto de casa, joguei a cabeça para trás para tirar o cabelo do rosto, e foi exatamente aí que a Sandra apareceu na minha vida. Raul me olhou esquisito, me olhou como se eu fosse um flash. Permaneci impassível, e se fosse um pouco mais idiota, teria procurado em volta o motivo de tanto espanto. Ele hesitou, mas acabou contando. Raul fala pouco, mas a gente convence fácil. Se você for gostosa, tire a blusa porque ele gosta de peitos; se gostar de fotografia, elogie o Sebastião Salgado; se não tiver habilidade nenhuma, não faça e nem diga nada, porque o Raul vai se sentir convencido pela sua humildade de ficar em silêncio. Deve ser algo ligado a mistério, uma vez ele me disse que se sente totalmente atraído por mulheres que usam saias longas, blusas de manga longa, gola alta ou burcas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu comecei a dizer que o café estava frio e sem açúcar e que o café dali não era o mesmo e que era melhor voltarmos pra casa porque estava começando a ficar frio e se eu adoecesse não poderia apresentar o seminário que me deixava ansiosa e me tirava noites de sono mas na verdade o que me tirava as noites de sonhos e que me dava a ânsia que provocava a falta de sono era Raul me olhar como se eu fosse um flash. Mas essa última parte eu não disse e o nosso instante ficou incompleto porque a gente não sabia mais como olhar um para o outro sem querer um ao outro sem lembrar-se de ontem e não existe nada pior do que o instante incompleto que fica causando falta e na falta à gente procura um pedaço de pano ou pedaço de chão pra segurar forte porque está é morrendo sufocado. Raulzito apertou forte a própria mão, dizendo que quando eu jogava o cabelo daquele jeito parecia a Sandra. Perguntei se era pra nunca mais fazer isso, mas ele negou; em seguida concordou comigo a respeito do café frio, me puxou pela mão esquerda e me levou para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa noite ele me cobriu, me deu um beijo na testa e disse que ia ficar na sala assistindo “O pecado mora ao lado” pela sétima vez, mas que era melhor eu dormir porque precisava descansar. Consecutivamente os nossos instantes ficavam incompletos, embora eu sentisse o amor latejando, vegetativo. Raul é um bom homem – a minha família mesmo distante, o adora, ele é muito carinhoso, transa que é uma beleza, tem um lado muito malandro que só mostra na cama, e ao mesmo tempo, não te trata feito uma puta. Eu reclamava muito disso. Os homens têm uma mania incrível de eu-sinto-prazer-e-te-trato-feito-uma-puta, porque os homens esquecem demais de si, do outro, do cosmo, da gravidade, do planeta, do estado civil, quando trepam. As mulheres esquecem, mas além de exigir mais tempo, não o fazem com tanta força. Raul não. Raul se esquece do mundo inteiro e te faz esquecer o mundo inteiro junto com ele. Com Raul, ninguém está partindo antes – ele está te levando junto, nos braços dele, o que o torna um malandro cavalheiro. O que da última vez, me rendeu três orgasmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estávamos de mal a pior. Amando-nos cada vez mais, e mais incompletos nos tornando. Em alguns dias eu não sabia se era eu mesmo aquilo que sobrava de mim. Em outros, Raul saía cedo de casa dizendo que precisava chegar mais cedo no trabalho, mas quando eu olhava pela sacada, lá estava Raul encostado no poste da esquina fumando e sabendo que eu estava olhando-o de longe. Na verdade estava velando. Estava velando porque precisava proteger o meu homem daquele dia cinza de gotas pesadas batendo nas costas do meu homem. Estava velando porque quando fazia sol, o meu homem suava e eu não queria que o seu suor se confundisse com fumaça. E não queria que aparecesse um cachorro imundo pra mijar no poste que meu homem se encostava toda manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ele mentia, era para que ficássemos em paz. Era para que guardássemos um ao outro, e eu sabia. Ele sabia que eu sabia que era mentira, mas ninguém se atrevia, e nos amávamos em silêncio - um sabendo do silêncio do outro. Nó na gravata, misto quente, beijo doce, eu com medo do flash, sem querer cometer nenhuma gafe na frente do meu homem. Sem querer fazer doer o que não é dor nossa, e sem querer adormecer o que não é dor nossa: queria simplesmente sufocar essa dor sem que o corpo notasse. O veneno teria de circular lento nas nossas veias sem que sorríssemos bobos. O seminário de não sei mais o que foi um sucesso, e não havia mais nenhum álibi. Não queríamos enganar os vizinhos, nem os amigos, nem o porteiro e nem a nós mesmos – queríamos era dar o golpe certeiro na dor alheia que invadiu a nossa vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite, após o seminário, deitamos e permanecemos mudos. O estalo da boca dele no meu ombro rompeu o tecido fininho da noite como se a noite tivesse acabado de perder a virgindade; e a lua escorria o seu sangue que era espesso e talhado como o sêmen dele me invadindo primeiro no meio das pernas e depois na alma inteira. À noite em circuito porque me arrepiei toda, me arrepiei de coragem e respondi ao chamado de “vem cá, minha Ana”, com “vai embora”. Fiquei de bruços olhando a calça dele jogada sobre a cadeira. Estávamos depois de muito tempo nos comunicando de acordo com as nossas necessidades. E senti que não poderia me esconder no escuro quando viesse o sentimento vazio que era rompido pelo prazer que ele me dava. Não estava mais com medo, era o meu sacrifício de sangue para ter o meu homem de volta. Creio que ele não chorou, e saiu sem levar nada. Apenas cobriu o corpo e foi embora.&lt;br /&gt;Quase tive medo do que a noite fria pudesse fazer com o meu homenzinho, mas fechei os olhos com força e tudo foi sumindo. Menos eu. Estava sozinha com uma calça sobre uma cadeira e não parava de ter calafrios. O molhado escorrendo no meio das minhas pernas, o molhado meu e de Sandra, de Teresa, de Beatriz, de Sara, de Ingrid.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando amanheceu fiz de tudo para ficar mais tempo na cama - eu estava seca e suja. Estava sujando a cama do meu Raul com a sua própria ausência. A sacada era uma lufada de “vem cá, Ana”, e instantaneamente eu fui ao seu encontro. O dia cheio de claridades me invadiu e quase choro. Por um milésimo de segundo pensei que fosse chorar. Mas não. Ver o poste da esquina sem Raul era um alívio - significava que o meu homem voltaria. Enquanto isso velaria a sua ausência dizendo “vem cá...”, sorrindo bobo porque a minha própria dor estava me sendo devolvida. O Raul alheio havia ido embora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-1215886729554947201?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/1215886729554947201/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=1215886729554947201' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1215886729554947201'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1215886729554947201'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/04/quando-raul-virou-e-saiu-por-aquela.html' title=':'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7656394153030539055</id><published>2008-03-19T17:42:00.000-07:00</published><updated>2008-04-09T07:57:14.083-07:00</updated><title type='text'>Marulho</title><content type='html'>Não há tentativas. Durmo, e arrasado sonho. Acordo em pleno o niilismo do dia: há escória no significado de tudo isso. Digo-lhes, sem ser escutado, que me sinto diante de uma afronta, e agora preciso lhe mostrar o que é impossível. Eu vou lhe mostrar o que cansado, quero. Vou lhe comer tanto, mais tanto, que você vai aprender a pensar mais antes de ser tentada por aquilo que me falas. És tão tola, falas tanto, falas tudo. E acabo por te olhar sem mistério, tateando motivos pra te ter. As coisas tornam-se tão pouco prováveis, que já lhe entendo no minuto antecedente, antes mesmo que evoque algum olhar pouco santo, ou uma doçura fingida. Ou uma vontade gritante. Eu peço tanto para que te livres da mania que é a paixão por sí mesmo, que te livres dessa vontade de te falar demais. Existe uma fuga, porque não sei mais como lhe tocar o sexo: é preciso tanta poesia assim? Eu pensava que era preciso ser homem e ter barba. Logo você, que dizia tanto sobre sentir-se desolada, se encontra tão rasa de solidão. Tão oca e limpa e fresca, que me cansa a tua constância. Penso que cansei de provar as tuas texturas, porque nunca provo como coisa completa; tenho que me contentar com teus seios fartos que enchem as palmas das mãos. Mas acontece que não estais mais te desdobrando, soltando a trança, revelando só a mim o teu cabelo escorrido, grande e solto. Quanta distância há entre a textura dos teus fios, e a minha vontade de te tecer o enleio - não dividimos mais a mesma língua. Sou um desacreditado porque não consigo mudo, te calar os medos. Porque preciso que me digas, passo a passo, como devo te pegar no colo, ou te compor uma música, ou te sentir em saudades. Não vejo mais a grandeza múltipla, pois meus olhos já estão amolecidos de amor. E o preço do calafrio que me percorre a pele, é rarefeito e pesado. Resta que clara e preenchida, feche-me as pálpebras num único sopro, e nunca mais terei vontade de enxergar de novo. Não sei, mas não te livras desta paixão funda e oriunda, desta tua mesquinharia sólida e severa, que compete com o amor que lhe tenho. Sinto em minúcias, e por isso mesmo preciso aceitar a dor como a um espasmo, sem sufoco. Tenho que aprender a sentir doer, a aceitar com (c) alma. Tenho que segurar o nó, esquecendo que Eu também me importa, para só assim, sentir o contrário, percorrer o caminho difuso. Não sei se vou deixar que disputes sozinha, se vou lhe dar o gosto certo da vitória. Se sequer és tão pequena como antes pensava, ou se te partes em marulhos que agora escuto: te quebrando em águas. E escuto a quebra de tudo aquilo que escuto - um grande silêncio que não é. O barulho querendo perfurar-me, o barulho querendo me sondar as valas, o barulho querendo me escoar as chuvas. Preciso cair livre; preciso solto, romper a elasticidade que há no meu corpo. Esvaziar-me em mil partituras, esvaziar-me a distância do que em mim está nuvem, querendo cair livre e solto e de repente repetido. Estou seriamente fundido com os meus cantos, e dói ter que ser ensinado, sobre o meu próprio canto. É engano fingir a aceitação, já que tu és a única coisa que rasura o corpo. A única coisa única que descreve os meus pedaços quando me tocas a carne. Adquiri esta paixão e confesso: "me" falo, chego a "me" romper para que "me" tenhas como o teu inconfessado. Só que a minha paixão aprendiz está dentro da tua, que é tão prometida ao arcaico, as enormes tranças, que no escuro, soltam-se para preencher a riqueza habitada entre os espaços. Acordo e não é escuro o que vejo: é niilismo único: não há sopro me fechando as pálpebras. Há quem sabe, um sono de uma gente bem cansadinha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7656394153030539055?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7656394153030539055/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7656394153030539055' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7656394153030539055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7656394153030539055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/03/no-h-tentativas.html' title='Marulho'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-2592424241816221928</id><published>2008-03-12T14:54:00.000-07:00</published><updated>2008-06-30T13:05:01.260-07:00</updated><title type='text'>"A vida é líquida", já dizia...</title><content type='html'>Ontem doía, hoje não dói mais. Uma parte batida na ponta da mesa, revelando um roxo calmo - a dor dilacerada. Os olhos secos, enxergando dentro, a alma imensa sem perplexidade. Doíam todas as lágrimas não escorridas, daquelas que insistem no não-feito. "Eu não acho que seja esse, ou qualquer outro amor do mundo, somente aceitação pelo o que um ou outro é. Nós nascemos predestinados. Eu olho para você, e não é a dor o que vejo. Eu não vejo nada, e você crê que lhe apavoro. O seu pavor tem a fluidez que não vejo em você. Seu medo escoa todas as suas ausências, espaços, seus ecos. O sangue preso, a parte roxa, seu corpo parco. Esses seus olhos de consolo, que não te deixam ficar muito tempo com um homem sem que ele te cubra de pancadas, te traia. O seu consolo descobre o que você não é. Seus olhos, não escondem o que não lhes dão." Eu disse isso, tão próximo de seu regaço. Ela, tão egoísta... Mulheres têm dessas coisas, dessa ingenuidade fácil e diabólica. Ela nascera o egoísmo pronto. Sempre aceitando de tudo, a descabida. Às vezes eu dormia, e era só quando ela me olhava os olhos. Eu sentia. Um alimento ia me tomando o escuro, e eu ia te descobrindo - breu. Acordava e a tocava: breu. Tentava beijá-la na tentativa das coisas concretas: breu. Ao meu lado, fazia com que se deitasse: breu. Fui adquirindo tanta intimidade com isso, que nem sequer mais aceito. Recuo criando um breu recluso. E ficamos a vagar no mesmo apartamento, ambos nus, mas não nos olhamos demorado e nem nos tocamos. Apenas existimos. Confesso que um pouco, um para o outro. Todos os dias, no fim da tarde, nego a sala. Sei que do lado esquerdo há um abajur cáqui sempre desligado, e logo ao lado direito, um enorme sofá sustentando uma mulher que não dorme. A mulher se agita deitada. A janela pouco aberta vai revelando um pedaço de luz. Metade do seu corpo, luz, a outra, é breu, e outra existente, é o peito. O peito meio luz e meio breu, tão inteiro que são dois. O mamilo pequeno, difundido em escuros. Não me aproximo, me tranco. No quarto eu rejeito a sala, no quarto, morro um pouco todos os dias, mais ou menos às seis da noite. Um milagre calmo e enjoado me acorda, e me pergunto como foi que sobrevivi. Vou esquecendo o último fim de tarde, com outro fim de tarde já se rompendo em gritos. Vou cedendo, porque não há outra escolha, senão a imposição que é ceder. Cedo, cedo, e desejo não lembrar tarde. Ela bate na porta devagar, os nós dos dedos me perturbando. Pára, sái e esqueço. Procuro. No quarto não há nada, o que me impede da invasão consistente de abrir uma porta? Abro a boca, pensando na possibilidade de sucumbir: há um grande espaço nascente. O espaço nasce e descubro - uma das poucas coisas que tenho - minha distância até a porta. Uma distância pouca e por isso mesmo, quente e úmida. Quando eu li Hilda Hilst, recebi como resposta um "a vida é líquida". Estou embriagado, vivo. Corro e atravesso a porta, quase me choco contra a mulher. Eu a tomo nas mãos, seus cabelos em parte caídos sobre meus ombros. Nos olhamos um pouco, viramos as costas e nos dividimos. Descubro como sobrevivi ao último fim de tarde. Sento no chão, como quem guarda um segredo, e não sabe o que fazer dele. O segredo espalhado por todos os cantos: eu, o segredo das paredes. O dia passando, passando, e eu não passando mais. Encosto o ouvido na parede, descobrindo-a do outro lado - ela, já na redoma da sala. Escuto uma pulsação, não sei se da tarde futura ou do cheiro da mulher.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-2592424241816221928?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/2592424241816221928/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=2592424241816221928' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2592424241816221928'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2592424241816221928'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/03/vida-lquida-j-dizia.html' title='&quot;A vida é líquida&quot;, já dizia...'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-6309887497101604265</id><published>2008-02-13T12:50:00.001-08:00</published><updated>2008-02-13T17:06:04.047-08:00</updated><title type='text'>A alma entregue</title><content type='html'>Passou-lhe as mãos sobre os cabelos, que era um afago para as mãos. Sentia lento o afago subir pelos dedos, pelos braços; o afago querendo percorrer a espinha. Era um momento bom que existe. Ela, do olhar claro, agora umidecido, ia-se perdendo em desvãos, enxergando todos os laços, chovendo. Foi quando ele retirou as mãos, sentindo o afago desaparecer, e lhe sorriu sossegado - a alma entregue.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-6309887497101604265?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/6309887497101604265/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=6309887497101604265' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6309887497101604265'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6309887497101604265'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/02/alma-entregue.html' title='A alma entregue'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-2293075635215132488</id><published>2008-02-13T12:35:00.000-08:00</published><updated>2008-02-13T12:37:02.682-08:00</updated><title type='text'>Grande silêncio</title><content type='html'>Antes de tudo, esse silêncio desnudo, que acolhe a claridade. Claridade: o sol percorre o quarto oco que se divide em raios. Multicolor, o quarto, com cada pedacinho ínfimo do indivisível. E depois a espera contínua - sombra. Recortada, a sombra, que se divide em raio sim sim, e não. A sombra é a casa dentro do quarto, morada; é como se houvesse algo sendo transposto em plena ventania, só que mais sossegada, mais livre. Real, esta liberdade silenciosa e encontrada. É que temos um grande silêncio que está dentro, e não sabe dentro, porque dentro não se sabe, se cabe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-2293075635215132488?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/2293075635215132488/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=2293075635215132488' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2293075635215132488'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2293075635215132488'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/02/grande-silncio.html' title='Grande silêncio'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-2585719722469281532</id><published>2008-01-13T10:58:00.000-08:00</published><updated>2008-01-13T11:00:57.614-08:00</updated><title type='text'>O corpo</title><content type='html'>E se eu não agüentar? E se eu não agüentar e ligar de novo pra dizer o quanto quero ser vista pelos olhos dele neste vestido novo? Vez em quando é bom ser (eu) surpreendido, ser (eu) achado num intervalo de esperança. Só corre o risco de estar-se pelado. O que na realidade não é um risco, é um trato: a surpresa tem dessas coisas. Nudez do espírito, uma nudez de fim infinito. Tudo isto dentro deste corpo, que nem sequer sei se é meu, que nem sequer sei se me abrange completamente. Outro dia mesmo um pássaro pousou e impediu o passeio da perambulante: foi quando vi asas de mim fora de mim. Indomável, o espírito. O corpo é um sono interrompido, um instante adormecido, o resto que resta, a vontade de ser visto: o vestido as alças o corte as abas a linha tênue entre. O corpo a gente doma, toma, fere e dói.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-2585719722469281532?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/2585719722469281532/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=2585719722469281532' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2585719722469281532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2585719722469281532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/01/o-corpo.html' title='O corpo'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3463324530760794908</id><published>2008-01-02T12:59:00.000-08:00</published><updated>2008-01-02T13:16:07.071-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Estranho ter uma cara, né? Ter um rosto, uma cara pálida, enrugada, rosada, é um dos maiores conjuntos que pode ter um ser humano. Nos últimos dias eu olhava pra minha cara - com a ajuda absoluta do espelho - e ficava pensando "na minha vida falta esta inutilidade do meu rosto, e é exatamente isso que nas horas mais deslocadas eu fico procurando num puro sentimento humano das coisas tangíveis ou nulas."&lt;br /&gt;O Deus por exemplo tem um rosto etéreo, mas também nunca vi, e se visse, seria uma preconceituosa pronta para queimar no inferno - a gente tem que se contentar com os dons dados por Deus - e o diabo ao que se sabe, não é dono de nada. Me perdoem as futuras expressões desses rostos mudos a questionarem ao que agora digo, mas o Deus é dono até do diabo. Será que esse Deus é mestiço ou profundamente intocável?&lt;br /&gt;Toco o meu rosto e não sei o que sinto, acho que não sinto nada, não sei nada, não estou nada. Sou muito e isso que sou não é o resto. Sabe onde tudo isso desagua? A minha voz é o que me resta, a minha voz me traz de dentro, é uma força transgressora, na minha voz eu me escuto, faço eco; por isso eu canto: por não saber ao certo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3463324530760794908?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3463324530760794908/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3463324530760794908' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3463324530760794908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3463324530760794908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2008/01/estranho-ter-uma-cara-n-ter-um-rosto.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-1167676225941724182</id><published>2007-11-15T12:09:00.000-08:00</published><updated>2008-12-19T12:54:17.172-08:00</updated><title type='text'>A mesa</title><content type='html'>A mesa lotada de alimentos, em sua maioria massas e poucas frutas. A mesa era pobre em frutas e em cores, sua riqueza de mesa consistia em pães, macarrão e pizza. A Mãe preparava o café - o que para esta era um ritual mudo - e gostava também das reclamações sobre a tarde plácida:&lt;br /&gt;- Para quê diabos ter tantos pássaros em casa?&lt;br /&gt;Suas reclamações faziam parte da cozinha, dos alimentos, da mesa, do marido cansado, dos filhos que eram seus eternos símbolos de fertilidade e da própria tarde plácida.&lt;br /&gt;Quando se alimentavam era com certa dificuldade causada pelo próprio silêncio deles, aquele silêncio que era como ânsia muda mastigada junto aos únicos pontos em comum: a fome, a comida que os seduzia com seus olhos tácitos soando na perfeição de um eco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Filha não se arriscava definir cena já vista; o Pai, o homem, o zangão, o nobre, arriscava salvar sua reputação, porque para o Pai, em casa também se faz uma reputação e fazer uma reputação se tornara tão natural como apontar para intimidar. A Mãe era uma alma simples, um olhar óbvio, um sentir vazio e o Filho não lhes arriscava uma única palavra: aquele momento era dela, verter o momento em palavras é tentar derramar-se ao imediato o que causava um grande medo que comia uma grande fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas vezes exclamavam absortos, ou interrogavam-se sem exigir a resposta. Outras vezes no entanto, quase descobriam o quanto se amavam, uma espécie de amor pelo respeito de existirem.&lt;br /&gt;Nesses momentos a Filha entendia porque todos devem sentar juntos à mesa: família. O Filho sempre responderia ocasionalmente, às vezes arriscando um pouco mais com a voz mais grossa e as primeiras penugens surgindo no rosto: em nome do Pai e em nome do Filho.&lt;br /&gt;A Mãe por hora alertava a má reputação do marido:&lt;br /&gt;- Não jogue seus sapatos na cozinha.&lt;br /&gt;Esta mulher nascera para ser Mãe, esta mulher nascera Mãe e depois tornara-se mulher.&lt;br /&gt;O marido ficando velho ia esquecendo de sua reputação e substituia preocupações (não se pode ser natural em tempo integral.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim seguiram-se por mais quatorze verões, quem sabe.&lt;br /&gt;A mesa continuava em seu mistério de âmbito familiar: muita massa e poucas frutas. No mais, havia mudanças.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-1167676225941724182?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/1167676225941724182/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=1167676225941724182' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1167676225941724182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1167676225941724182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/11/mesa.html' title='A mesa'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7705052698011736753</id><published>2007-10-29T14:33:00.000-07:00</published><updated>2007-10-29T14:34:58.989-07:00</updated><title type='text'>Declaração ligeira</title><content type='html'>- Mamãe quando eu crescer quero ser igual a você... ter uma filha feito eu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7705052698011736753?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7705052698011736753/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7705052698011736753' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7705052698011736753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7705052698011736753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/10/declarao-ligeira.html' title='Declaração ligeira'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-6610972361725171876</id><published>2007-10-06T06:04:00.000-07:00</published><updated>2007-10-06T06:10:51.991-07:00</updated><title type='text'>Regresso ao prelúdio</title><content type='html'>- Permitir-se uma brecha entre êxtase e harmonia é tão infecundo como se não houvesse percurso, é como ter vivido coisa nenhuma. Me dilui mesmo com sede, e sou tua tinta, retinta, mastigável, sopro, quase plástica. Depois é questão de regresso, de parte introdutória. O passado e a retórica se desmancham em água pela falta de idéias (eram muitas palavras.)&lt;br /&gt;A sua retinta não tem muitas palavras e nem tantas idéias, lhe basta uma única idéia que a inunda inteira: a tela é pesada, a tinta é etérea e a moldura é uma provocação. Regressemos ao prelúdio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-6610972361725171876?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/6610972361725171876/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=6610972361725171876' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6610972361725171876'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6610972361725171876'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/10/regresso-ao-preldio.html' title='Regresso ao prelúdio'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-7721749046214858790</id><published>2007-09-17T13:23:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:40:34.093-07:00</updated><title type='text'>Amor I</title><content type='html'>Era uma menina, mesmo que se passassem anos, horas, e dias - qualquer tempo - insistia incorrigivelmente em ser uma menina, para todo o sempre, menina.&lt;br /&gt;Uma menina inalcansável, uma menina que era feito Deus numa versão menos onipotente e mais de: você acredita e quanto mais acredita, mais sofre. A menina ria malicioso, malícia de quem começa a aprender dessa vida, e uma vez aprendendo ela gosta é de ver o sofrimento, porque odeia que tenham fé na vida, porque fé na vida é corrompida e é mecanizada, e a fé perde a esperança quando é programada - é como ter fé no desejo sem fé que se concretize - e fé na vida é como fé numa menina, fé no início, fé primeira, e A menina não quer ser a fé de ninguém senão a de sí própria e que alguém a faça sofrer também. (Qual a glória de ser o foco da fé dos outros só por ser inocente? É depositar responsabilidade que não se deposita?).&lt;br /&gt;Não sabia onde começava e findava o inevitável, mas ousava, ousava com a sabedoria que não havia de ter, ou ainda, pela sabedoria que tinha demais. É que ser uma menina era assim: age-se por irritabilidade de um amor atiçado, ou age-se por qualquer coisa que impulsione esse amor, qualquer sentimento que atiçe, que mexa, que atinja e depois disso era só sorrir com a própria criação. Essa era a grande criação, a sua grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina que era e era e é e será não tinha nada de ''meu'' e nem de ''minha'' senão a própria meninice que levitava nos olhos, nas palavrinhas ditas com a voz ainda tão imatura, as palavras de seu vocabulário pobre, as palavras que eram as margens do seu rio fundo de águas límpidas e turvas dependendo do ponto na imensidão, porque a menina era numa vastidão de opções. Uma vez quando viu um pássaro quis tocar o pássaro e depois sufocá-lo de visão primeira, do amor que era a emoção de descobrir, e pensou que, aquele pássaro era dela, que por erro do destino ou da meninice que insiste, ela poderia livremente chamá-lo de ''meu''.&lt;br /&gt;O pássaro na sua representação não era nada, senão o que ela mesma queria e com certa intensidade sentia: pássaro. Porque tudo aquilo que desejasse num sufoco de amor, ela poderia erroneamente chamar de ''meu'' sem sentir culpa, sem se sentir adulta.&lt;br /&gt;- O Deus perdoa as crianças.&lt;br /&gt;Assim ouvira certa vez.&lt;br /&gt;Embora não soubesse o que isso deveras significava, Deus deveria ser como o pássaro, o seu Deus deveria ser como o pássaro que percebendo o futuro sufocamento de amor voava para longe, e depois volta, volta por piedade a uma menina, amor a uma menina, perdão a uma menina ou puro esquecimento já que desta vida temos muito que lembrar (e de pouco lembramos.)&lt;br /&gt;O pássaro era o seu avião inocente passageiro de sí mesmo, o seu afeto bruto sem disfarce em querer, querer agora, e querer agora para A menina era uma noção de tempo, era uma noção do instinto maternal: eu lhe quero, mas te espero porque te amo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então era este o grande truque, em sí ela já via o amor que a mulher traz nos ovários ainda imaturos, e ver esse amor era como querer tocar o pássaro, e era como brevemente deixar de ser A menina para se tornar o bonito decepcionante, o feio consistente, o existente não táctil, o saboroso insípido.&lt;br /&gt;A menina era livre por oração de mãe, por piedade de pássaro, por grandeza de Deus, e especialmente livre por sí mesma, livre no que consistia em sorrir inocente e sorrir com malícia, em não sorrir. Era livre na própria falta de limite, porque um dia com limite seria uma mulher. E isto, isto A menina não seria nunca, porque agora era ela e o campo verde e grande e ensolarado: inventaria o que quisesse pois era a única menina deste terreno fértil e verde, era uma legião apenas em sí mesma, correndo com as perninhas curtas, encostando o ouvido no chão para escutar o coração da mãe, é que A menina - por Deus, por pássaro - era a filha da terra com este campo verde que o céu há de chover.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-7721749046214858790?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/7721749046214858790/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=7721749046214858790' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7721749046214858790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/7721749046214858790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/09/amor-i.html' title='Amor I'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-6488762665713385459</id><published>2007-09-07T20:11:00.000-07:00</published><updated>2007-09-07T20:25:10.880-07:00</updated><title type='text'>Dedicatória</title><content type='html'>Porque eram dois. A prece silenciosa e o rito endeusado que era perdoado. Se não fosse pela ausência, seria pelo fato de serem duas pessoas se entreolhando. Eram dois seres sendo, estando sendo.&lt;br /&gt;E também porque ficava pulsando imerso nesse silêncio, uma sinceridade. Era uma espécie de sinceridade silenciosa que os fazia divinos e calmos.&lt;br /&gt;A pessoa estendeu uma das mãos, e não estava vazia. É que não havia medo no breviário de estar. Não havia desespero por momento seguinte, a carne sedenta ia pulsando nas mãos não vazias da mesma forma que o livro ia encontrando o lugar que era seu, e até invadindo o que não lhes era proposto.&lt;br /&gt;Uma intromissão e omissão de amor e carinho, carinho e amor, de ciclo, de vida.&lt;br /&gt;As horas foram passando e passando até se perderem na lucidez que estes dois seres não tinham. Era carne em devaneio à meio da alma silenciosa – assim como quando se encontra algo que há muito tempo quer ser encontrar e não se procura – e havia encontro. Havia uma arte que não fazia questão de parecer. Havia o inventado. Havia o questionamento de mudos, serem enganados pelo tempo por uma livre e espontânea vontade distraída.&lt;br /&gt;A dedicatória do livro dizia: ...com amor e carinho...&lt;br /&gt;Às vezes esquecia o resto, é que a pessoa fora marcada por amor, e por carinho. Fora ferida (a pessoa), e além de ferida, lhe acontecera amor e carinho feito marca do que realmente acontece, já que toda marca decorre do acontecimento que inflexível insiste no imponderável que é ser algo, alguém.&lt;br /&gt;Depois o estado daquele ser foi de quem sente a dor da marca, de quem sob controle se refugia na alma banhando-se de sua própria água, de quem tranqüilo sente dor e acha graça. Ficou pensando no outro que se fazia ninguém por ausência, e alguém por crença. Iria crer, até o último instante que lhes fosse dado. E iria duvidar, mesmo porque todas as provas estavam nas palavras que por minutos esquecia, e depois lembrava, com amor e todo súbito do mundo.&lt;br /&gt;Quando esta outra pessoa recolheu sua mão, deixou tudo que tinha, tudo que se fazia dado, toda representação sem esforço para que houvesse esforço.&lt;br /&gt;Quem recebe deseja que todos possam ver – já que sentir é peculiar do único – e não sente vergonha, porque não sentir vergonha é também um esforço que merece a representação; que merece aquele que sem medo, não se curva da responsabilidade que é ser. Que merece a dose dupla de significados, de traduções e de está sendo de verdade.&lt;br /&gt;Depois ficam o quase frio e o ser que é, buscando e buscando a água pura em que pretende banhar suas vontades, suas vontades percorridas com os olhos, e estendidas até a boca: amor e carinho.&lt;br /&gt;Será que havia algo mais bonito? Algo mais incluso? O ser descobre e fica confuso, confuso e bom. Parado com o livro na mão, olhar fixo no que era neste momento, olhar introspectivo. E então se sente leve, ao ponto de sair voando por acaso. Dorme. Com amor e carinho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-6488762665713385459?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/6488762665713385459/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=6488762665713385459' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6488762665713385459'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/6488762665713385459'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/09/dedicatria.html' title='Dedicatória'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-2191221789526208584</id><published>2007-09-04T12:30:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:41:00.773-07:00</updated><title type='text'>À deriva</title><content type='html'>Pelo jeito que se continha, acabou desejando – aquele desejo que vem súbito e na seriedade de um gesto obsceno – e depois de tanto desejo que trinca e fere a alegria e a paz que era o que se tinha de melhor, sentiu saudade. Uma saudade que provocava fome, mas acima de tudo, uma saudade desejada que mesmo matando a fogo, satisfazia soando e ecoando e soando em não sei quantos decibéis. Uma saudade que ia latejando por dentro, se debatendo e causando a surpresa do primeiro chute durante a gestação. Não havia preparo, nem do corpo e nem da mente e nem do próprio eco. Era um eco que funcionava feito uma bofetada, que acabava desencadeando um puro cansaço em sentir.&lt;br /&gt;Um eco de despreparo, de inveja mal sentida, de amor mal amado. Porque talvez o que fazia soar e ecoar desafinadamente fosse à existência dos abismos, e a própria existência já era tão desafinada que não podia ter nada além da voz de mosquito, das pernas finas, e dos olhos que nunca foram de uma única cor.&lt;br /&gt;O pouco corpo clamava por reação, mínima que fosse. Tu, reação desejada, era o consolo pela vida, porque de agora em diante haveria de acostumar-se.&lt;br /&gt;Não suportava a idéia de acostumar-se, era como aceitar o próprio meio, e a própria solidão. Era como vazio de esperança gritar no abismo tendo a certeza de que nada iria transportar-se, de que o eu sem mistérios – que tem uma ventania – não iria transmutar uma folha seca de outono que fosse, de que o eu era somente. E era somente a reação que de tão desejada e simplesmente desejada, era a seiva bruta enraizada no mais íntimo, o estimulante inconsciente de quem não sabe plenamente o que faz.&lt;br /&gt;A reação foi de simples tamanho: apagar a luz.&lt;br /&gt;Tinha medo de pensar demais e estragar, viver demais e extravasar. Pela primeira vez sentiu que a única coisa incapaz de trazer-lhe temor, era deitar na escuridão e possuí-la, possuí-la com todas as forças de luz que tinha, e a sua luz fundia-se nos olhos engatinhados que brilhavam no escuro. A escuridão era táctil, e a sua mais profunda saudade era sólida, imóvel, nada inteligível. Permaneceu com os olhos de biloca bem abertos.&lt;br /&gt;Amanhecer lhe traria o temor, traria o nomeável, e com o nomeável, os olhos grandes do mundo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-2191221789526208584?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/2191221789526208584/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=2191221789526208584' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2191221789526208584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/2191221789526208584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/09/deriva.html' title='À deriva'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3119048761936150821</id><published>2007-08-31T13:44:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:40:48.958-07:00</updated><title type='text'>Por não crer</title><content type='html'>(...)&lt;br /&gt;- Quero pecar impetuosa, interrompida de saudade.&lt;br /&gt;- Você só quer, cansa, rabisco de querer.&lt;br /&gt;- Você me ligou porque quis.&lt;br /&gt;- Não disse que nunca quero, só não quero toda hora.&lt;br /&gt;- É enjoadinho, não quer querer toda hora.&lt;br /&gt;- Lá vem você de novo...&lt;br /&gt;- Olha, a merda do gato está novamente derrubando as coisas da mesa.&lt;br /&gt;- E você queria o quê?&lt;br /&gt;- Dá pra você parar com isso?&lt;br /&gt;- Não sou eu que sempre quer.&lt;br /&gt;- Odeio quando você fica me apontando assim.&lt;br /&gt;- Ah, é? pare de usar esse pronome de tratamento.&lt;br /&gt;- E você quer o quê? ops, alguém que sabes quem, quer o quê?&lt;br /&gt;- Quero que tu venhas até mim, agora.&lt;br /&gt;- Tem pressa?&lt;br /&gt;- Não.&lt;br /&gt;- Então porquê agora?&lt;br /&gt;- É o meu tempo.&lt;br /&gt;- Mas agora eu não posso.&lt;br /&gt;- Because?&lt;br /&gt;- Não quero.&lt;br /&gt;- Certo. Essa é a resposta da nossa falta de compromisso.&lt;br /&gt;- Tempestuosa.&lt;br /&gt;Fez um silêncio de quem estava acendendo um cigarro.&lt;br /&gt;- Sim, me fale do teu dia hoje...&lt;br /&gt;- Não sei. Eu andei.&lt;br /&gt;- Quero saber no que alguém que sabes quem chegou a crer hoje.&lt;br /&gt;- Você acha que sou crente todo dia?&lt;br /&gt;- Alguém que sabes quem tem mania de crendisse.&lt;br /&gt;- Pois não crí em nada.&lt;br /&gt;- Óbvio que chegou a crer, senão não teria ligado pra mim.&lt;br /&gt;- Eu recorro a você quando não creio em nada.&lt;br /&gt;De novo ficaram em silêncio, esse que não era de quem acende um cigarro.&lt;br /&gt;- E então?&lt;br /&gt;- Então o quê?&lt;br /&gt;- Agora que sei porque alguém que sabes quem ligou, notei o nosso compromisso.&lt;br /&gt;- O nosso compromisso é não crer em nada conjuntamente.&lt;br /&gt;- Alguém que sabes quem...&lt;br /&gt;- Faz um favor?&lt;br /&gt;- Si...&lt;br /&gt;- Pare de falar "alguém que sabes quem", porque eu não sei de quem diabos você está falando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3119048761936150821?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3119048761936150821/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3119048761936150821' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3119048761936150821'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3119048761936150821'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/08/por-no-crer.html' title='Por não crer'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3993536257201414059</id><published>2007-08-27T15:34:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:41:50.279-07:00</updated><title type='text'>Sempre e devagar</title><content type='html'>Clotilde de pé polindo o piso, via-se morrendo nessas atividades de pujança, o piso cada vez mais velho, as pantufas cada vez mais desgastadas, e as mãos cada vez mais enrugadas.&lt;br /&gt;Via-se ontem, isto é, na imagem do piso, tão flutuante no salão, mãos impecáveis, olhar lascivo, postura de cisne - tinha que engolir mais essa -, porque quando se olhava no espelho desde quase hoje se deparava com uma pata acinzentada quase branca, quase porque não se dava ao luxo de ser completamente (não ela, mas a vida, o tempo, as circunstâncias, pois ela se pudesse se dar, daria todo tempo, e todo infinito, toda totalidade e toda vida).&lt;br /&gt;Voltando para a lembrança como quem fica vazio olhando tudo ao mesmo tempo e depois se religa ao mundo, sentiu-se oca, num estado bruto de piso não polido. Ela ficou divagando devagar e devagar e muito, desejando que fosse sempre. Devagar divagando, entrando num processo de vida inteira, desejando ao máximo que todas as janelas estivessem bem fechadas, pra que ninguém visse uma velha de camisola parada no meio da cozinha com cara de:&lt;br /&gt;- eu estou oca.&lt;br /&gt;Era um estranho prazer, um gozo que por muito tempo fora interrompido, um choro de luto que nunca fora derramado. Se tivesse a voz daquela noite, gritaria, se fosse tão esguia sairia dançando pela casa, se tivesse mãos tão frescas usaria da sua força, se tivesse ainda um olhar tão lascivo, iria compreender.&lt;br /&gt;Então pensou, esta mulher que sou eu está morrendo, morrendo de fato consumado. Ou esta mulher que é quase eu já morreu e isto sim é um fato mais que consumado, um fato morto mesmo porque quando essa mulher que quase sou morreu, o fato morreu junto, aliás, morreram os dois, abraçados e em posição fetal.&lt;br /&gt;Devagar foi implantando os sentires: sentia os braços, sentia as pernas, sentia a língua roçando o céu da boca, sentia os olhos bem fechados, sentia as mãos se tocando, sentia as rugas, sentia o tempo, e o cheiro do tempo, e a morte do tempo, e o nascimento da morte do tempo.&lt;br /&gt;Depois de súbito, veio aquele ar fresco e a respiração gostosa: como era assustador sentir o ar dentro da gente e não ver o ar dentro da gente. O ar deu mais corte ao camisola, deu mais vastidão aos cabelos cinzas e deu um banho de água fria: a janela estava aberta, e alguém poderia ver. Quis então que vissem, que vissem a sedução de quem sabe que está para morrer, que vissem o que é gozar de verdade. Esse era o seu grito; essa era a sua voz, a sua rapina ranzinza e cruel.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3993536257201414059?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3993536257201414059/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3993536257201414059' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3993536257201414059'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3993536257201414059'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/08/sempre-e-devagar.html' title='Sempre e devagar'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3012607212181477449</id><published>2007-08-25T18:25:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:40:03.017-07:00</updated><title type='text'>Pelo teu nome</title><content type='html'>Eu estou tecendo você, seu flúido, sua vertigem, seu cisco no olho, seu divino profano. E é uma teia fina, e é uma teia sem presa, teia que pulsa feito artéria, que acende e transcede feito a luz, feito o peso da luz. Meu passado vai se misturando com hoje, é quase impossível não ver tanta beleza na desgraça, não ver tanta luz que me é cegante. É que você me é cegante, e eu crio no encanto, um fio pertinente de Maria que se esconde da luz pondo a mão no rosto, que se esconde do sorriso pondo a mão no rosto, que esconde você pondo a mão no teu rosto.&lt;br /&gt;A gente esconde porque dói, e se dói a gente vai se escondendo nos álibis que imagina ter. O cheiro de café da sua casa quando está anoitecendo, dói, a tua imagem refletida, dói, o teu sorriso dói, respirar do nosso silêncio dói. A gente doa silêncio mútuo e constrói e destrói e sua e soa.&lt;br /&gt;É como falar agora e me ver no teu ego, no teu eco à qualquer custo, à qualquer troco. Hoje eu acredito, agora eu vou na demasia que é a surpresa de esperar-te, e em esperar-te ver esperança. Esperança é tão boa quanto a esperança de tê-la, como te dar uma flor amarela na esperança que você se torne outro, e se tornando outro, você possa agir como o outro que eu sei que há dentro de você, ou fora, ou dos lados, ou sobreposto.&lt;br /&gt;A sua existência física é transformada em travessia à céu aberto, e a travessia dói; a sua lua mística de quem sorrí feito quem é de outro mundo, a sua coexistência de bicho que transforma mistério no saber por não saber - que dentre todos os sentires é um pesar que eu não sei se dói - .&lt;br /&gt;Leandro, você me dói bom. É isso. E você se transforma tão bonito que cega.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3012607212181477449?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3012607212181477449/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3012607212181477449' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3012607212181477449'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3012607212181477449'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/08/pelo-teu-nome.html' title='Pelo teu nome'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-1875930156899253336</id><published>2007-08-16T12:20:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:39:47.108-07:00</updated><title type='text'>Ausência II</title><content type='html'>Sentada à beira da ponte e à beira da filosofia do e se. Era assim: pulava e depois não sabia, ficava e depois iria recuperar o futuro que já sabia ter. Se consolaria e depois se odiaria pela fraqueza daquele pensamento. Podia ouvir o mar falando baixinho sobre a violência do futuro, logo ela que só queria ter presente, farta do passado onde você acaba fazendo uma coleção de rugas, e de um futuro que merecia ser raptado sem que se pudesse pagar a fiança. O vento soprava "ausência" de Vinícius de Moraes e as letras da carta ainda deviam estar úmidas timidamente em cima da mesa, frescas de pavor:&lt;br /&gt;"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada (...) "&lt;br /&gt;Sabia o quanto isso iria ferir Caio, e chegou a desejar viver para ver a face da sua caça na hora desconcertante do susto. Caio ferido era mais bonito, franzia as sobrancelhas sem parecer arrogante, e especialmente falava da forma menos ruidosa possível. O leva e trás do mar trouxe sem levar embora, a memória, então à beira da boca quase sem saliva pronunciou em tons surdos: "Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite." E o peito descompassado ardia em fúria de ondas do mar ("porque eu encostei a minha face na face da noite e ouví a tua fala amorosa").&lt;br /&gt;Lacrimejava por prazer e estremecia à espreita dos faróis dos carros sincronizados na avenida.&lt;br /&gt;O que a prendia na vida era uma mão, uma única mão. "Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado."&lt;br /&gt;Sentia os fios finos e morenos dos cabelos lapidando as bochechas, o queixo, e os lábios que são carnudos: "Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir."&lt;br /&gt;As pernas dormentes iam buscando a lucidez e o prazer de locomover-se, iam desdenhando da vantagem injusta que era o seu poder de andar. Rica, ela era tão rica na leveza da lembrança que imaginava Caio.&lt;br /&gt;Caio sempre envolto daquela luz lilás azulada, aquela áurea insustentável que ela tantas vezes abominara. Amou como quem ama pela última vez (e no entanto não está certo que é derradeiro), e mordeu com os dentes fortes os lábios que eram seus. Amava a vida que não tinha e o fato de poder observar para dentro de sí: sua expressão à beira-mar. "E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-1875930156899253336?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/1875930156899253336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=1875930156899253336' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1875930156899253336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/1875930156899253336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/08/ausncia.html' title='Ausência II'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-466475482865344448</id><published>2007-08-04T17:23:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:39:34.388-07:00</updated><title type='text'>Agora já é depois</title><content type='html'>De tanto parar em tantas bocas, por fim correu em sí. Trocou-se amiúde. Lisonjeira feito um pássaro, trêmula feito um abraço sufocante de saudade .&lt;br /&gt;No entanto, abraço não havia, sobravam-lhes os braços, o espaço.&lt;br /&gt;E agora você?&lt;br /&gt;Nunca desejara tanta falta de espaço como agora. Carecia de tato, nem tanto de paladar para dar. Agora já é depois, já havia trocado a pele. E depois, se tem sempre o último pedaço, a última idéia e o último depois. Descobriu os seios descobertos, e os braços felizes inutilmente nas extremidades da cama; abraçara o mundo inteiro: breve ventura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-466475482865344448?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/466475482865344448/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=466475482865344448' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/466475482865344448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/466475482865344448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/08/agora-j-depois.html' title='Agora já é depois'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-3861721060103763379</id><published>2007-08-04T14:20:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:38:47.131-07:00</updated><title type='text'>Instinto nato</title><content type='html'>Ontem fui um potencial querendo ser acionado, ao mesmo tempo que a verdade inflexível de uma barra de ferro. Sempre fica aquele gosto de medo: será que não estou apressando as coisas? O passado não passou apressado, não o nosso passado, mas o passado antes que na sua vida eu tivesse passado. Mas pelo visto, somos como um ciclo de amor, paciência, calma e futuro voraz. É que o nosso futuro não convida, o nosso futuro faz intimação, e faz com certa lentidão, mesmo que isso seja como adiar o futuro para outro futuro mais futuro ainda. Hoje me veio um fluxo de calmaria enlouquecida, quando a campanhia tocou e eu te ví pela janela quase aberta. Quase sorrí. Eu até te disse pra você dá meia volta, mesmo antes de sentir o cheiro de fumaça no seu cabelo. Mas é como se de alguma forma, por tom de voz ou telepatia, ou o que eu não sei dizer do que se trata eu soubesse que você iria continuar alí: na porta da minha casa, pronto para entrar na minha vida, e tão imaturo pra sair com tanta saudade dela. Amo o seu instinto nato de me deixar extasiada do óbvio que é a (sua) surpresa. Hoje até a minha dor quase sorriu.&lt;br /&gt;Mas custei a me descobrir, descobrir o que no entanto, já respirava o meu instinto: a gente se espera, mesmo que as horas entrem em convulsão. Respiro do meu silêncio profano e divino que é a espera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-3861721060103763379?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/3861721060103763379/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=3861721060103763379' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3861721060103763379'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/3861721060103763379'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/08/instinto-nato.html' title='Instinto nato'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-5880929903422912920</id><published>2007-07-26T15:40:00.000-07:00</published><updated>2008-04-06T14:39:18.368-07:00</updated><title type='text'>Como dormir</title><content type='html'>Sentiu um frio na barriga. Arrepio. Asco, abuso. Medo e susto. Horror. (mãos no rosto). Estava apavorada. Depois calma. Desejo. Ele. Eles. Junção. Silêncio, barulho, silêncio, barulho e barulho e barulho e silêncio. Mumúrios. Queixas. Besteiras. Pacto. Sangue. Fervor. Esperança. Risadas. Nervosismo. Súbita tristeza. Melancolia. Amor. Adeus.&lt;br /&gt;Gritou, acordou, gritou e sorriu. Fim de felicidade, que acabara antes do início (da lucidez) : sonhara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-5880929903422912920?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/5880929903422912920/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=5880929903422912920' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5880929903422912920'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5880929903422912920'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/07/como-dormir.html' title='Como dormir'/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-5208506032053283396.post-5824683014025822032</id><published>2007-07-24T12:59:00.000-07:00</published><updated>2007-07-24T13:03:54.219-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Olhar de desatino. Era isso. Meio fera, meio homem erudito, meio lobisomem como dizia o popular. Depois de um dia, vem sempre outro dia, o desmazelo, e o que sobra da vida que antes era inteira. Uma vida inteira, para um homem de tantos pedaços, entre um e outro maço de cigarro e uma vida cigana. Ele previa a própria vida, e gostava de ser, era denso e homogêneo no azul do mundo, e era nada na própria casa, na própria mulher que era um antro de entrega e sem tanta pressa lhe abria os braços sôfregos, mas tão abraços, tão laço. Com uma boca tão miúda e tanto sotaque francês que tinha uma mulher que a três anos mudara-se para o Brasil, ela calava e calava e calava e de novo calava quando ele cansado de ser, buscava as explicações daquilo que nem sequer havia se perguntado. Ela era um sotaque calado, e ele não sei dizer o que era, e se realmente era algo. Às vezes em uma loucura morna, ele a puxava pela mão e tentava levá-la a qualquer lugar, onde ela seria como um bicho, e sendo bicho, não haveria mistério. Mas ela nunca conseguiu mesmo desgrudar os pés do chão, quero dizer, só conseguia quando ela própria o puxava pela mão, porque aí chamava-se loucura quente. De repente ela não queria mais puxá-lo pela mão e nem tocar a sua mão, porque descobriu que certas coisas ela não precisava mais. Como conseguinte, descobriu que também não fazia só o que precisava, porque nunca precisou viver.  E depois começou a absorver pra si o cheiro do quarto dele, que era cheiro de medo, e quanto mais medo, mais afoita se sentia, por não ter medo, e por ser uma mulher. Quando deitado no seu seio, ele decifrava todos os relevos de procedência francesa, sentia-se em um apelo, em uma súplica àquela mulher que ele amava tão gostosamente calado, e com alguns tons de insegurança. E ela tecia seus sonhos no silêncio, tão muda, parecendo talvez, para qualquer outro, um objeto. Para ele a grandiosidade, o infinito que nunca alcançaria, porque a única coisa que alcança são os próprios pés, e com muito esforço. Ela então, enxergou o menino. Ele habitava a sua fronte, e seu hálito úmido chegava a se confundir com as palavras que mereciam serem ditas, mas que, provocando calafrios que utilizavam  os corpos como  circuito elétrico, ele secamente engolia, na certeza que as vomitaria amanhã, quem sabe, para as paredes ou para os travesseiros. Tomados pelo mesmo ar, e também pelas quatro pernas que queriam resumir-se em apenas duas, ela enfim pôde dizer em tom cansado tantas coisas que o fez levar a mão à boca, e sorrir de leve com alguma esperança. Teve medo de sentir-se irresponsável para o envolvimento, e de parecer só um menino, porque no fundo sabia que era assim que ela agora o via, e já que ela via, era assim que ele era, porque era para ela, só para ela, até nas noites insones que ia até ao seu apartamento brincar de casado. Nessa altura, eram tantas coisas ditas e ditas e ditas que eu também não pude escutar, quanto mais entender, especialmente aquilo que dizia-se entre si através dos impulsos elétricos. Ela se moveu assustada por falar tanto, e novamente falando sussurrou “eu nunca falei tanto”. Nada que precisasse ser dito, então, calaram-se. Permaneceram nesse estado de graça por um tempo bastante para se obter glória, tanta que eles poderiam morrer ali, agora, ou quem sabe amanhã, a partir daquele momento estavam literalmente prontos, pro que desse e não desse. Então como em um sopro ele disse sem voz: “Ana, você ainda vai nos levar além”. E ela pôde compreender, o esforço que era para ele dizer aquilo. Então respondeu no silêncio que é o pensamento: "Você já nos levou além, agora nos deixa ser". E ele abraçou-a forte, pouco à pouco perdendo a força, e ela a consciência. Dormiram. O sono mais tranqüilo que valia a exatidão das coisas: corpo, alma e sintonia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/5208506032053283396-5824683014025822032?l=bossa-velha.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://bossa-velha.blogspot.com/feeds/5824683014025822032/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=5208506032053283396&amp;postID=5824683014025822032' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5824683014025822032'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/5208506032053283396/posts/default/5824683014025822032'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://bossa-velha.blogspot.com/2007/07/olhar-de-desatino.html' title=''/><author><name>Maria Luíza Chacon</name><uri>http://www.blogger.com/profile/02856387967583908985</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='22' height='32' src='http://4.bp.blogspot.com/-NggPvNRWwrE/TnO_ymp89kI/AAAAAAAAAHY/M87dhEOebeU/s220/-.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
